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Yao Ming se daria bem na NBA atual?

yao ming houston rockets

Depois de uma breve pausa, volto com este nobre espaço, trazendo jogadores das antigas para a NBA de 2020 e perguntando “esse cara se daria bem na NBA atual?”. Mas em um jogo da NBA mesmo, não no jogo de arremesso transmitido com uma internet discada de 1998 que a NBA teve que disponibilizar para quem sofre de abstinência crônica.

Já fizemos este exercício com vários jogadores: Allen Iverson, Ben Wallace, Mike Bibby, Reggie Miller, Grant Hill e Penny Hardaway. A resposta é que todos se dariam bem, mas, claro, precisariam fazer ajustes. Devo admitir que o mais divertido destes posts é pensar em como os pivôs teriam que se adaptar, já que eles foram basicamente castrados no jogo atual.

Por isso trazer um jogador de 2,29 m da China é extra divertido. Yao Ming se daria bem na NBA atual?

Resposta: não

Deixa eu fazer uma volta no tempo de três parágrafos.

A resposta é que todos se dariam bem, mas, claro, precisariam fazer ajustes

Voltamos. Yao Ming teria que fazer ajustes, claro, mas não sei se ainda ele conseguiria se dar bem. A NBA que ele chegou, em 2002, ainda era uma liga com pivôs marcantes e dominantes. Shaquille O’Neal é o mais óbvio, mas não é o único. Ben Wallace, Dikembe Mutombo, Elton Brand, Alonzo Mourning, todos eles eram destaques em suas equipes, seja pontuando, patrulhando a cesta ou ambos.

Por isso qualquer vantagem seria bem-vinda e Yao alcançar a cesta mal precisando pular era uma delas. Hoje essa não é uma vantagem tão grande. Tacko Fall é um jogador que mal entra nos jogos dos Celtics, Boban Marjanovic é um reserva dos Mavericks e Kristaps Porzingis ama ficar atrás da linha de três pontos.

Não estou aqui dizendo que todo jogador alto era craque nos anos 80, 90 e 2000, mas antes existia esse tesão para colocar torres gêmeas e jogadores bizarramente altos em quadra para proteger o garrafão. Exemplos máximos: Manute Bol e Gheorghe Muresan.

Só que Yao é fascinante porque ele era mais que um jogador absurdamente alto. Seu jogo de pés, considerando sua altura, era a de um Baryshnikov usando Reebok. E enquanto algum de seus pares iam para a linha do lance livre para arremessar uma bola de concreto no aro, o chinês teve 83,3% de aproveitamento nesse tipo de arremesso na sua carreira na NBA.

Ou seja, ele tinha técnica muito apurada. E por isso sua carreira abreviada por lesões, especialmente no pé, é realmente uma lástima. Infelizmente, essa é a razão principal para eu dizer que ele teria muita dificuldade na NBA atual.

Ritmo insano, marcação longe da cesta

Comparado com a NBA atual, o jogo dos anos 2000 é de uma lerdeza impressionante. Sério mesmo. O Houston Rockets de 2006/07, o melhor ano de Yao Ming estatisticamente, foi apenas o 21° em pace (que pode ser traduzido para ritmo). O número é alcançado por um cálculo de quantas posses ofensivas a cada 48 minutos (um jogo) uma equipe tem.

O time mais acelerado da NBA naquele ano, o Golden State Warriors, teve um índice de 99,97. Em 2019/20 isso seria suficiente para ficar na 17ª posição. Comparado com os Warriors, os Bucks deste ano tem seis posses a mais por jogo. Olha a diferença que isso faz em um placar. E não estamos falando de cinco décadas de diferença, e sim uma década e meia.

Nenhuma equipe pode se dar ao luxo de esperar o seu pivô de 2,29 m correr para cima e para baixo na quadra para ter posses com seus cinco jogadores e aí sim começar uma jogada.

Para não ficar só nos argumentos contra, ajuda o fato que ele não precisaria ir para debaixo da cesta a todo momento, já que muito do jogo hoje é feito perto do arco.

Mas ter que participar da dança das cadeiras que são as trocas na NBA e marcar um Russell Westbrook ou Stephen Curry de repente pode te drenar fisicamente e mentalmente.

Por isso Yao em 2020 poderia ser uma combinação de Boban Marjanovic – um pivô que joga menos minutos e em situações específicas, não precisa ser 9,7 minutos por jogo, como Boban, mas com certeza não será 33 de média, como Yao fazia no seu auge de Rockets – com Brook Lopez versão Bucks.

Yao Ming acertou 2 bolas de três na sua carreira na NBA, em 10 tentativas. Se ele fosse draftado na NBA de 2020, não na de 2002, ele teria sido preparado para arremessar 10 bolas a cada dois jogos, pelo menos.

Ele seria capaz de ser esse cara. O problema é que o peso do corpo nos seus pés e a necessidade dele ser um embaixador do esporte na China, jogando Olimpíadas, Mundiais e ainda Copa Asiáticas é algo impensável para qualquer atleta atual da NBA. Mas talvez ainda fosse exigido de Yao Ming. Aí não tem voo em jatinho, dieta especial e preparador físico de Hollywood que dê jeito.

 

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