Oakland abandonada: A’s devem deixar cidade que já perdeu Warriors e Raiders

Pedro Rubens Santos | 27/05/2023 - 07:00

Ray Collazo, de 42 anos, trabalha como bartender e, desde criança, frequenta o Oakland Coliseum, estádio dos Athletics, da MLB. Nascido em Oakland, Ray é um dos torcedores da cidade prestes a ficar órfão mais uma vez. O último time restante no município californiano tem um acordo para abandonar a sua casa e os seus apoiadores, assim como fizeram antes dele os Warriors, da NBA, e os Raiders, da NFL.

O primeiro a largar o osso foi o Golden State Warriors, em 2019, quando se mudou para a vizinha San Francisco, maior e mais rica economicamente. Um ano depois, o Oakland Raiders também empacotou as malas, partiu para o estado de Nevada e se tornou Las Vegas Raiders.

É como diz o ditado: o último a sair apaga a luz. Os A’s, como são conhecidos, ficaram para trás, e a concretização do plano de movê-los, também para Vegas, deixará a cidade sem nenhum time nas principais ligas esportivas.

— Tenho ido a jogos dos A’s por toda a minha vida. Acho que é ótimo para o time mudar (de cidade). Sou de Oakland e serei sempre um torcedor dos Athletics, não importa o que aconteça.

A opinião de Ray, é de se imaginar, não faz parte dos comentários mais populares atualmente em Oakland. Para boa parte dos fiéis seguidores da equipe, a mudança significa uma traição, especialmente depois das recentes saídas de Warriors e Raiders.

Stephen Curry, Golden State Warriors, NBA. Foto: Jayne Kamin-Oncea-USA TODAY Sports/Sipa USA - Photo by Icon sport
Os Warriors trocaram Oakland por San Francisco em 2019 (Foto: Icon sport)

Mas o fato é que a situação anda insustentável na Costa Oeste. O constante desempenho ruim dos A’s e a insatisfação dos torcedores com o comando da franquia, sob as ordens do proprietário John Fisher, criaram uma panela de pressão prestes a explodir. Em abril, a presença de público — a mais baixa média da MLB nesta temporada — atingiu níveis surpreendentes quando apenas 2.703 pessoas compareceram ao Coliseum para ver o jogo do time da casa contra o Baltimore Orioles.

— O dono (do time) matou os A’s. As pessoas não querem mais torcer pelo time por causa dele — explica o jornalista e torcedor fanático dos A’s Alex Espinoza.

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Segundo ele, Fisher é o proprietário mais “mesquinho” da liga e o grande responsável por minar o interesse dos habitantes da cidade pela equipe e afastá-las do estádio. A falta de investimentos no elenco tornou os A’s um dos piores conjuntos de toda a MLB.

— Pessoalmente, vou parar de assistir. Em Las Vegas, não sentiria mais como um time de casa e não teria mais a identidade pessoal. É como se um clube de futebol de São Paulo fosse para o Rio de Janeiro — disse Espinoza, que morou durante um ano no Brasil.

Por que os times estão deixando Oakland?

Houve um dia em que Oakland contava com um representante em cada uma das quatro grandes ligas nacionais. Além dos Raiders e dos Athletics, havia também os Warriors, da NBA, e os Golden Seals, da NHL. A prosperidade, no entanto, ficou no passado, e a cidade foi perdendo seu prestígio aos olhos dos donos de franquias esportivas.

Desde 1976, quando o time de hóquei se mudou para Cleveland, os mais de 400 mil residentes do município podiam torcer por suas equipes durante o ano inteiro: de abril a outubro com os A’s, de setembro a dezembro com os Raiders e de outubro a abril com os Warriors. Foram 40 anos nessa realidade, que mudou drasticamente em um espaço curto de tempo.

A debandada recente das franquias não tem uma única explicação oficial, mas aparenta resultar de uma série de fatores. O advogado e torcedor dos A’s Timothy Langley, de 43 anos, nascido em Oakland, acredita que o principal motivador por trás da fuga das organizações seja financeiro:

— O maior fator nessas decisões é sempre o dinheiro. O que vai fazer as organizações terem mais lucro? Essa é a pergunta número um.

Langley se lembra bem de um tempo mais prestigioso da sua equipe. Na conversa com o Quinto Quarto, comentou que tinha 10 anos na ‘Battle of the Bay’, a famosa World Series de 1989 em que os Athletics bateram o San Francisco Giants e conquistaram seu último título da MLB.

Hoje em dia, a situação é bem diferente. Os A’s são donos da pior campanha da liga neste início de temporada e ainda sofrem com a relação conturbada entre direção e torcida, o que pode acabar por tirar o time de sua casa e deixar os fãs a ver navios.

— É desrespeitoso com os torcedores. Gastamos uma boa grana para ir a jogos e comprar produtos. E eles simplesmente vão embora — desabafa Langley. — Eu entendo, é um jogo de lucro. Mas lealdade e integridade costumavam ser valorizadas nesse esporte.

Para ele, a razão de Oakland estar prestes a ser completamente abandonada pelas franquias esportivas é a constante busca por mais dinheiro.

— A Oakland Arena (antiga Oracle Arena, casa dos Warriors) não era um lugar ruim, mas fica do lado de um lixão. Assim como os 49ers se mudaram para uma localização mais prestigiada para atrair uma base de fãs mais prestigiada, os Warriors fizeram a mesma coisa. Provavelmente era isso o que os Raiders estavam pensando também: vamos para um lugar onde há pessoas com dinheiro — avalia o torcedor.

Mas não é só o aspecto financeiro da mudança que ocasionou o cenário atual. Também é preciso considerar ao menos mais dois fatores com importante papel na ruína da conexão dos times com a cidade de Oakland: a decadência do estádio e os problemas com o poder público.

Estádio caindo aos pedaços

O Oakland A’s tem um acordo de mudança para Las Vegas que inclui um estádio para 30 mil pessoas. De acordo com a ESPN, o projeto tem estimativa de custo total de US$ 1,5 bilhão, dos quais US$ 400 milhões seriam financiados com dinheiro público do estado de Nevada. Essa proposta de financiamento ainda será votada pela legislatura estadual.

O roteiro é o mesmo traçado pelos Raiders: deixar Oakland e começar uma nova vida na Cidade do Pecado. Quando oficializou a mudança, em 2019, o time chegou em Vegas para estrear o moderno e já construído Allegiant Stadium, uma obra imponente em meio às luzes do deserto.

— Las Vegas sempre fez sentido para a NFL, pois há só oito jogos por ano (em cada estádio), então é um grande espetáculo — analisa Espinoza. — Mas baseball é diferente, você precisa ter torcedores mais dedicados e consistentes.

Oakland Coliseum, MLB. Foto: Reprodução/Instagram/@ringcentralcoli
O Oakland Coliseum, casa dos Athletics e dos Raiders por muitos anos (Foto: Reprodução/Instagram/@ringcentralcoli)

Embora um time da NFL faça, no máximo, 11 jogos em casa no ano, na MLB são 81 partidas, um número consideravelmente maior. O Oakland Coliseum serviu por muitos anos como sede tanto dos Raiders como dos A’s, mas o estádio sofre com problemas estruturais e a falta de manutenção e renovação. É consenso entre os torcedores entrevistados para esta reportagem que a arena já está bastante defasada. Um deles chegou a citar a presença maciça de ratos no local.

As más condições do espaço, de certa forma, repeliram Raiders e Athletics para outro estado.

— As equipes saíram da cidade por conta de políticas e da baixa qualidade dos estádios. A Oracle Arena era ótima, mas antiquada. Tudo sobre os times de Oakland precisava de trabalho — analisa Ray Collazo.

É compreensível, portanto, que as instituições clamem por reformas ou novos espaços para mandar seus jogos, ainda mais com as constantes construções de novas e modernas arenas para equipes rivais. Tais pedidos não foram atendidos pelo governo, que enfrenta outras batalhas complexas em uma cidade com problemas de bem-estar social.

— Muita gente está culpando a cidade de Oakland por não se esforçar para manter os times aqui, mas o governo municipal tem outros problemas: muita pobreza e muitas pessoas sem teto. Acho que os políticos estão mais preocupados com isso, e os esportes ficam em segundo plano — explica o jornalista Alex Espinoza. — De certa forma, eu entendo. Fico triste, pois cresci indo a todos esses estádios. Os A’s, Raiders e Warriors eram todos meus times, é uma droga. Me sinto abandonado pelos times, mas entendo. Há mais oportunidades econômicas em outros lugares.

Qual o futuro para Oakland?

— Ficarei triste de vê-los partir, mas eles (A’s) precisam de um novo estádio, e eu não acho que isso vai acontecer em Oakland — relata o economista Eric Barnes, de 39 anos, detentor de ingressos para a temporada no Coliseum. — Parece, realmente, que a cidade não está sendo muito cooperativa para arrumar novos estádios para os times.

Barnes conta que boa parte da população da cidade já torce pelos Giants, rivais dos Athletics na MLB, por conta do “estádio melhor e do maior sucesso esportivo desde 2010”. Ele acredita que a maioria das pessoas da região vai seguir o mesmo caminho e decidir apoiar o time de San Francisco.

— Ainda não decidi se vou continuar torcendo pela equipe ou não depois da mudança — relata.

Basquete, futebol americano, hóquei e baseball são os quatro esportes mais populares dos Estados Unidos, e o morador de Oakland está prestes a perder o último time envolvido nessa categoria. Agora, sobram apenas equipes de esportes e ligas menos assistidas.

Uma delas é o Oakland Roots, time da USL — uma espécie de segunda divisão da MLS. Diversos torcedores do time da MLB se fazem presentes no estádio de futebol e apoiam o clube, fundado em 2018.

— O futebol está crescendo, as pessoas estão animadas. Elas querem torcer por um time de Oakland — diz Espinoza. — Os fãs dos A’s são famosos por sua bateria, mas com toda essa história de Las Vegas, eles pararam de tocar nos jogos de baseball e agora tocam no futebol.

Pedro Rubens Santos, do Quinto Quarto