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A trajetória de Martin St. Louis na NHL

Crédito: Divulgação

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Sempre segui a crença que os jogadores de hockey são os melhores atletas do mundo. Além de fortes, altos e rápidos, os patinadores com tacos nas mãos também precisam ser inteligentes. Um pacote completo, o que faz da NHL uma das ligas mais difíceis de se entrar, em todos os esportes. Caso um dos atributos acima listados não seja cumprido, a chance de se ter uma carreira de sucesso na melhor liga de hockey do mundo é pequena. Porém, há exceções.

No alto dos seus 1.73m, Martin St Louis é um David entre Golias. O canadense está longe de ter o tamanho ideal para atuar na NHL, mas compensa sua baixa estatura com muita inteligência e QI de hockey, qualidades que não se pode comprar e só podem ser aprimoradas caso se tenha um componente indispensável: talento. Talento, perseverança e inteligência é que não faltam em St Louis, e é o que o torna um dos melhores jogadores do mundo.

Há um preconceito com jogadores baixos durante o draft da NHL. Preconceito justificável. Pouquíssimos jogadores com menos de 1.80m de altura tem sucesso, carreiras longas na liga. St Louis não foi draftado, apesar de fantásticas temporadas defendendo a Universidade de Vermont. Assim como muitos outros jogadores, o nativo de Quebec teve de achar outra maneira de entrar na liga, já que a sua altura não compensaria sua habilidade com o puck. A saída seria jogar em ligas menores, e trabalhar muito. Muito mesmo.

Na temporada 1997-98, St Louis foi jogar pelo Cleveland Lumberjacks, time da International Hockey League, composta por clubes amadores. Já aos 23 anos, produziu 50 pontos em 56 jogos, números acima da média para a liga. O Calgary Flames, após acompanhar alguns de seus jogos, decidiu contratar o right winger. A chance de jogar na NHL finalmente chegara para St Louis.

 

Mas as coisas não foram como o esperado com os Flames. Por vezes inconstante, St Louis passou boa parte de seus anos com os Flames transitando da AHL para a NHL. Na American Hockey League, ele arrebentava, colocando médias acima de um ponto por jogo. Porém, na National Hockey League seus números caiam, e a chance que lhe era dada foi questionada pelos donos. No término do seu contrato, após a temporada 99-00, os Flames decidiram por não renovar seu contrato, permitindo que ele se tornasse um free agent.

 

Apesar de sua inconstância e baixa estatura, o Tampa Bay Lightning demonstrou interesse no jogo do canadense. A combinação viria a ser perfeita: um grupo de diretores que acreditava no talento do jogador e, consequentemente, um clube que o permitiria jogar na NHL constantemente, dando tempo no gelo o suficiente para que ele pudesse adaptar seu jogo e evoluísse na liga. E foi justamente isso que aconteceu.

 

Logo em seu primeiro ano em Tampa, St Louis teve a marca de 40 pontos em 78 jogos, no que foi sua primeira temporada regular inteira na NHL. A marca é considerada a de um jogador de segunda linha, e os Lightning continuavam a acreditar que ele poderia melhorar. A segunda temporada foi marcada por uma lesão na perna que o tirou do gelo por 29 partidas.

 

Já na terceira, St Louis se consagrou na liga, marcando 70 pontos em 82 jogos. Nos playoffs, Tampa acabou eliminado nas semifinais de conferência pelo New Jersey Devils, que viria a se tornar o campeão da Stanley Cup. Durante a pós temporada, sua produção foi ainda mais impressionante: 12 pontos em 11 jogos. O baixinho que não tinha futuro na liga acabara de se tornar um jogador respeitado por brutamontes de dois metros.

 

No ano seguinte, a progressão de St Louis continuou e atingiu o seu ápice. Liderando a NHL em pontos com 94 em 82 partidas disputadas, o canadense venceu o seu primeiro Art Ross Trophy e o Hart Memorial Trophy, que premia o MVP da liga. Os Lightning marcharam até as finais da NHL quando encararam e venceram o Calgary Flames, trazendo a primeira e única Stanley Cup da história da franquia para Tampa Bay. Em 2000, St Louis era dispensado pelos Flames. Quatro anos depois, ele levantava o gigantesco troféu de prata sobre sua cabeça e era nomeado o melhor jogador do mundo.

 

De 2005 a 2013, St Louis não diminuiu o ritmo. Com 653 pontos em 615 jogos, ele se estabilizou no grupo de melhores jogadores do mundo. O grande problema estava em Tampa. Nestas nove temporadas, o Lightning chegou aos playoffs em apenas três ocasiões. Após a temporada 12-13, seu companheiro de 12 temporadas, Vinny Lecavalier, teve seu contrato rescindido e deixou o time. Após jogar uma década inteira de hockey em altíssimo nível no time da ensolarada Florida, também estava na hora de St Louis deixar a franquia.

 

Apesar da pífia campanha em 2012-13, a terceira pior da NHL, St Louis liderou a NHL em pontos, com 60 em 48 jogos, capturando seu segundo Art Ross Trophy. A temporada 2013-14 começou com grandes expectativas sobre os Lightning. St Louis era o novo capitão da equipe, com a saída de Lecavalier. Mas tudo sucumbiu quando Steven Stamkos fraturou sua perna e ficou fora de combate por três meses. O acidente mudou a franquia de Tampa, em muitos sentidos.

 

Steve Yzerman, General Manager dos Lightning, é também o GM da Seleção Canadense que disputaria as Olimpíadas de 2014, em Sochi, Rússia.  Stamkos, mesmo com a perna quebrada, foi convocado. St Louis, saudável, e com temporadas fantásticas nas costas, não. Sua ausência na lista foi o suficiente para que um pedido de troca fosse entregue à direção de Tampa. Stamkos não se recuperou a tempo, e St Louis foi quem o substituiu. Mesmo com sua presença em Sochi, o pedido de troca ainda estava valendo.

 

Com uma medalha de ouro conquistada, mas com o gosto amargo de ser um mero plano B, Marty St Louis viu sua era em Tampa acabar no dia 5 de março de 2014, quando ele foi trocado junto ao New York Rangers, único time que ele aceitaria a transição.

 

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Em New York, St Louis teve problemas. Marcando apenas 8 pontos em 19 partidas, sua troca chegou a ser questionada. Apesar da fraca performance, os Rangers eram fortes, e chegaram aos playoffs sem grandes problemas. Eis que o hockey do canadense voltou ao seu devido lugar.

 

Liderando os Rangers na primeira rodada, eles sofreram, mas bateram o Philadelphia Flyers em sete partidas.  Na segunda rodada, o forte Pittsburgh Penguins estava a espera. Tudo corria como o planejado, até que um telefonema abalou o mundo de St Louis às vésperas do jogo cinco contra os Pens.

 

A mãe do canadense havia falecido de forma abrupta, aos 63 anos. Martin voou para sua cidade natal, mas imediatamente retornou para Pittsburgh para disputar a quinta partida da série. Após discutir a ideia com seu pai, St Louis chegou à conclusão que sua mãe gostaria que ele ficasse com seus companheiros de time e disputasse o jogo. E foi o que ele fez.

 

A vida de Martin nunca foi fácil. Duvidado quando jovem pela sua baixa estatura, teve que cavar com suas próprias unhas um espaço na NHL, provando que talento pode compensar a falta de tamanho. St Louis é um exemplo de perseverança dentro e fora de gelo, desafiando as leis de um esporte disputado por gigantes. Mas como todos os jogadores de hockey, ele alimenta um desejo que tinha em comum com sua falecida mãe: levantar mais uma vez a Stanley Cup. E se ele o fizer com os Rangers dentro de um mês, não haverá sombras de dúvida que ele atingiu o status de lenda.

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