Kyrie Irving: camisas queimadas e o ‘bromance’ que pode salvar sua carreira

Pedro Rubens Santos | 17/03/2023 - 06:00

— (Luka Doncic e Kyrie Irving) são a melhor dupla do Oeste.

A frase acima foi dita por Kevin Garnett, no podcast KG Certified, quando o Dallas Mavericks adquiriu o experiente armador do Brooklyn Nets, no início de fevereiro.

A reação, longe de ser uma empolgação individual, exprimia um sentimento quente ao redor da liga naquele momento: a notícia da poderosa união amedrontou os concorrentes. Nas palavras de Jayson Tatum, do Boston Celtics, “será assustador dois dos melhores pontuadores do jogo no mesmo time”.

Um mês se passou, e a promissora parceria realmente mostrou muita coisa boa. Menos resultados. Nos nove jogos em que dividiram a quadra, Doncic e Kyrie conseguiram somente três vitórias.

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Dallas é, para Kyrie, o que podemos chamar de um “novo recomeço”. O termo esbarra no pleonasmo, mas é necessário para descrever a mais recente — talvez derradeira? — empreitada do astro.

Forte candidato ao título de jogador mais problemático da NBA, o novo armador dos Mavericks detém um cartel de polêmicas capaz de invejar até o mais transgressor dos esportistas.

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Entre ausências forçadas por recusar a vacinação contra a COVID-19 e debates contundentes sobre a circunferência da Terra, Kyrie Irving se tornou uma dualidade complexa: ao mesmo tempo em que é reconhecidamente um dos mais habilidosos ball handlers já vistos, a liga já sente dificuldade em confiar nele. 

O Dallas Mavericks, porém, estava desesperado.

Finalista da Conferência Oeste há menos de um ano, o time do Texas percebeu que exigia demais de sua principal estrela. Luka Doncic se afirmava, noite após noite, um colecionador de atuações e estatísticas grandiosas — até fevereiro, ele já havia anotado 50 ou mais pontos em quatro jogos da temporada.

Mas era visível que o esloveno precisava de ajuda. Então, em um esforço otimista para enxergar a genialidade acima da loucura, os Mavs viram em Kyrie a perspectiva de um futuro mais promissor. E bancaram a aposta.

Seu desempenho pessoal até aqui não deixa a desejar. São 27,5 pontos e 6,6 assistências de média desde que trocou Brooklyn por Dallas. Enquanto isso, o relacionamento com Doncic dá sinais de que pode se tornar um animador bromance.

As polêmicas da carreira de Kyrie Irving

Na lista de parceiros memoráveis de Kyrie, Doncic divide espaço com alguns nomes de respeito. Antes de 2023, houve o hype pelas duplas de Irving com LeBron James, Jayson Tatum e Kevin Durant.

Todas elas começaram muito promissoras e terminaram com Irving, invariavelmente, abandonando o barco.

Em Cleveland, onde conquistou o título na temporada 2015-16, pediu uma troca que o permitisse ser mais protagonista. Pegou um avião para Boston enquanto torcedores dos Cavs queimavam camisetas com seu nome.

A passagem pelo TD Garden, que começou em 2017, foi breve, mas impactante. O então camisa 11 chegou a prometer que renovaria o contrato e até sonhou em ter seu número aposentado pela franquia. Tudo isso, porém, ficou mesmo no mundo dos sonhos. Depois de dois anos, preferiu mudar de ares e seguiu para Nova York, enquanto torcedores dos Celtics também queimavam camisetas com seu nome.

Um momento inusitado dessa história aconteceu em 2018, quando a equipe encarou os Cavaliers no Jogo 7 das finais do Leste, valendo vaga na grande decisão da NBA. Lesionado, Kyrie estava fora da escalação, mas nem sequer apareceu para apoiar seus companheiros no encontro, em Boston. O motivo: uma cirurgia para corrigir seu desvio de septo.

Um péssimo desempenho que contribuiu para a eliminação na série contra os Bucks nos playoffs de 2019 marcou o fim da trajetória em Massachusetts. Próxima parada: Brooklyn. 

Com LeBron e Tatum no passado, todos os olhos miravam a nova grande parceria do basquete em Nova York: Irving e Kevin Durant. E não, o final dessa história não tem surpresa alguma. No total, em três temporadas e meia, ele foi desfalque 135 vezes.  

Depois de declarações fortes, algumas lesões, outras tantas polêmicas e um desacordo sobre renovação contratual, veio o pedido de troca. E os Nets enviaram o armador para Dallas, o que nos traz até o capítulo atual dessa novela extremamente atribulada.

Kevin Durante Kyrie Irving Brooklyn Nets Foto: Reprodução/Twitter/@BrooklynNets
Amigos, Kevin Durant e Kyrie Irving formaram uma dupla de peso em Nova York | Foto: Reprodução/Twitter/@BrooklynNets

No caminho até aqui, Kyrie fez questão de mesclar momentos preciosos e decisões infelizes na grande montanha-russa que tem sido sua carreira.

Houve a vez em que ele optou por não tomar a vacina contra a COVID-19. Na época, uma lei da cidade de Nova York barrava a entrada de pessoas sem comprovante de vacinação em locais fechados. 

Visto que seu time tinha sede em Nova York e os jogos da NBA não acontecem ao ar livre, a prosa não poderia acabar bem. Resultado: o armador ficou impedido de atuar nos jogos do seu time em casa.

Não só as atitudes se mostravam frequentemente controversas, mas as declarações do astro, também, seguiam o mesmo curso. De falas sobre sua crença de que a Terra não é redonda — pelas quais, é verdade, ele se desculpou posteriormente — até uma postagem com teor anti-semita no Twitter, o acervo de crises sob seu nome é bastante extenso.

Kyrie, Doncic e os Mavs

“Ok, mas como isso afeta os Mavericks?”, pode perguntar o inocente torcedor ou torcedora.

Bom, para início de conversa, Kyrie Irving está com 30 anos de idade e não mostra sinais de declínio dentro de quadra. Com a bola nas mãos, o armador segue uma ameaça às defesas adversárias e um jogador de amplo recurso técnico.

E é exatamente aí que reside a esperança do técnico Jason Kidd e de toda a organização. A chegada da controversa estrela de Nova York foi um afago à própria estrela eslovena, cujo descontentamento com a equipe já era tema de rumores cada vez mais quentes nas mesas de bar de Dallas e nos círculos internos da liga.

Luka Doncic, assim, ganhou um companheiro para dividir as responsabilidades, a atenção dos defensores e, ocasionalmente, algumas risadas na lateral da quadra.

Então o plano deu certo, a profecia de Kevin Garnett se concretizou e a NBA agora tem um novo favorito ao Larry O’Brien?

Não exatamente. Mas a chegada de Kyrie ao Texas tem apenas um mês e, embora não tenha, até o momento, alavancado os Mavs na classificação, ainda merece mais tempo para ser avaliada como um absoluto sucesso ou um retumbante desastre — ou qualquer coisa no meio disso.