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Draft da NBA: começo, briga com ABA, melhores anos e como funciona

Draft da NBA

Uma das dúvidas mais recorrentes que recebemos nos canais do Quinto Quarto é “o que é o Draft?”. Ideia que é estranha para fãs de futebol, o conceito de colocar todos os talentos do esporte em uma sala e eles serem escolhidos pelos times parece até meio estranho. Então este texto visa explicar especificamente o que é o Draft da NBA, trazendo um pouco da história, como funciona e também momentos interessantes do evento mais importante da offseason.

Para quem quer um da NFL, para ler ou mandar para o amigo que você quer converter, sua espera não será longa!

O que é o Draft da NBA?

No futebol, as equipes têm categorias de base e a formação de atletas acontecem em clubes. Nos Estados Unidos, o sistema esportivo no ensino médio e nas universidades é algo sem paralelo no mundo, com escolas contando com estruturas de esporte profissional e investimentos multimilionários no corpo técnico, medicina esportiva e tudo que envolve o esporte de alto rendimento.

Só que pelo fato de os jogadores não terem o vínculo profissional que jogadores de categorias de base têm com o clube de futebol que os forma, surge um gargalo que o Draft resolve. O Draft da NBA nada mais é do que um evento onde os 30 times da liga selecionam os melhores jogadores que saem das universidades americanas. A seleção também inclui jogadores estrangeiros.

Eu sempre brinco que, nos Estados Unidos, o Neymar não teria jogado pelo Santos e sim pelo Náutico, depois de representar o time de futebol da USP. O Draft, além de colocar os jovens talentos para jogar profissionalmente, também visa equilibrar as forças da liga. E isso é posto em prática com uma simples medida: os piores times da temporada anterior selecionam nas primeiras posições.

LeBron James Draft da NBA

Crédito: Instagram/reprodução

Por isso que a história de LeBron James é ainda mais incrível: nascido e criado no estado de Ohio, LeBron era uma estrela já na sua equipe do ensino médio. Na época ele preferiu fazer o pulo direto para a NBA – algo que não é permitido mais pelas regras – e se declarou elegível para o Draft. E qual tinha sido o pior time da NBA na temporada anterior? O Cleveland Cavaliers, histórico perdedor e único time do estado do Ohio. LeBron foi escolhido pela equipe e mudou o destino da franquia nas duas passagens que teve pelos Cavs.

O Golden State Warriors é outro time que mudou sua história recente por causa do Draft. Depois dos anos 70, quando teve bons times liderados por Rick Barry, o time passou por anos e mais anos de turbulência, péssimas decisões (veja neste post uma delas) e nem cheiro de título ou finais da NBA. Eis que, no Draft de 2009, com a sétima escolha, o time seleciona Stephen Curry. O time ainda vacilou e, no Draft de 2011, a equipe selecionava em 11º. Com essa escolha veio Klay Thompson. No ano seguinte, com uma escolha de segunda rodada, que poucas vezes dão em algo na liga, o time “achou” Draymond Green, completando um trio que é o núcleo da equipe que chegou a três finais seguidas e ganhou dois títulos.

Quando começou o Draft da NBA?

O Draft da NBA começou em 1947, uma década depois do da NFL, e passou por diversas variações desde lá. Por exemplo, os drafts de 1960 e 1968 tiveram 21 rodadas de seleções. Oscar Schmidt, no histórico Draft de 1984, foi selecionado na sexta rodada, algo que deixou o Mão Santa com vontade de provar que era melhor que as 143 seleções anteriores. O modelo atual com apenas duas rodadas foi imposto em 1989.

Briga com a ABA

Assim como a NFL e a AFL, que brigavam pela hegemonia do futebol americano, a NBA teve na ABA sua maior rival. Criada em 1967, a American Basketball Association tinha interesse em uma fusão com a sua rival mais famosa e isso acabou se concretizando em 1976.

Mas isso não quer dizer que a ABA não teve seu brilho. A liga era conhecida por ter times com estilo de jogo mais ofensivo e valorizava o show, incluindo uma linha de três pontos que não existia na NBA e uma competição de enterradas junto com o All-Star Game. Julius Erving, o “Dr. J”, é principal jogador da história da liga, marcando época no Virgina Squires e New York Nets.

E a ABA foi esperta: a NBA tinha como regra que os jogadores só poderiam entrar no Draft quatro anos depois de sair do ensino médio. Erving, ao contrário de David Luiz, foi um dos que preferiram não esperar e após três anos na faculdade, saiu e foi para os Squires. A ABA também tinha a regra dos quatro anos, mas permitia que um time escolhesse um talento antes desse período bater, desde que abrisse mão de uma escolha de primeira rodada no Draft seguinte.

Durante todo o período de existência das duas ligas, ambas brigaram pelo dinheiro do fã do basquete e pelas principais estrelas, elevando os valores dos contratos por causa da concorrência. No fim, com a fusão, quatro times passaram da ABA para a NBA: o hoje Brooklyn Nets (na época New York Nets), o San Antonio Spurs, o Denver Nuggets e o Indiana Pacers. E, assim, o Draft da NBA voltou a ficar fortalecido e soberano.

 

06.19.84: “The Chicago Bulls pick Michael Jordan…”

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Os melhores drafts da história

Por alguma razão que só uma força superior explica, em alguns anos o Draft da NBA está simplesmente recheado de futuras lendas do basquete. Um desses anos foi 1984. Com a primeira escolha, o Houston Rockets selecionou um pivô nigeriano que tinha jogado na Universidade de Houston chamado Akeem Olajuwon, que mais tarde mudaria seu nome para Hakeem e ganharia dois títulos pelos Rockets.

Com a terceira escolha no mesmo Draft, o Chicago Bulls escolheu um tal de Michael Jordan, ala-armador da Universidade da Carolina do Norte e que todos sabiam que seria uma força ofensiva desde o primeiro momento na liga. Seis títulos depois, poucos discordam que ele é o maior jogador de basquete de todos os tempos.

Entre eles, coitado, foi escolhido pelo Portland Trail Blazers o pivô Sam Bowie, da universidade de Kentucky. Mesmo que ele tivesse sido um excelente jogador, o fato de Jordan ter sido escolhido abaixo dele já seria motivo para seu nome ser lembrado negativamente. Bowie chegou a ter bons momentos na NBA, mas uma série interminável de lesões prejudicaram sua carreira de 10 anos na liga.

Ainda em 1984, o Philadelphia 76ers draftou Charles Barkley, MVP da NBA e um dos melhores alas-pivô da história e na 16ª posição, e o Utah Jazz encontrou seu armador de quase duas décadas John Stockton.

É difícil superar 1984 por causa da quantidade de jogadores que mais tarde entrariam em uma lista de 50 maiores jogadores da história da NBA – Barkley, Stockton, Jordan e Olajuwon estão nela – mas 1996 não fica muito longe. Os Sixers, com a primeira escolha, selecionaram o temperamental e espetacular Allen Iverson. Curiosamente, este Draft não tem monstros nas primeiras picks como o de 1984 – Shareef Abdul-Rahim e Stephon Marbury tiveram boas carreiras, mas nada no nível dos citados anteriormente – mas reservou duas escolhas sensacionais na 13ª e 15ª posições.

Hoje, a NBA impede que um jogador saia direto do ensino médio para a liga, precisando pelo menos de um ano de separação do fim do colégio, que pode ser usado para entrar na universidade, com a imensa maioria dos jogadores fazem, ou então jogar no exterior. Mas em 1996, essa regra não existia e Kobe Bryant, da Lower Merion High School, na Pensilvânia, se declarou elegível para o Draft e foi escolhido em 13º pelo Charlotte Hornets. Só que ele não queria jogar em Charlotte e logo foi trocado para os Lakers (veja mais sobre isso aqui) . O resto é história.

Na 15ª escolha, o Phoenix Suns escolheu um armador mirrado do Canadá chamado Steve Nash. Como esperado, ele não teve impacto imediato na liga, foi trocado para o Dallas Mavericks e a partir daí sim se estabilizou na NBA, mais tarde voltando para os Suns e sendo eleito duas vezes MVP ao liderar o brilhante e fulminante ataque de Mike D’Antoni.

Se o Draft de 1996 foi mais disperso no talento, o de 2003 foi concentrado. Como já relatamos acima, o Cleveland Cavaliers escolheu LeBron James em primeiro. Em segundo, o Sam Bowie da vez foi Darko Milicic, selecionado pelo Detroit Pistons. A equipe do Michigan tinha sido finalista de Conferência e estava com o núcleo montado para uma excelente sequência de temporadas, incluindo o título de 2004, e só tinha a escolha alta por causa de uma troca com o Memphis Grizzlies. Sem uma necessidade evidente, o time arriscou com Milicic, um pivô sérvio de 2,13m que gostava de jogar longe na cesta. E não deu certo, com Larry Brown limitando seus minutos porque já tinha seus titulares e Milicic ainda era verde demais. Ele ainda passou por diversos times, mas nunca conseguiu estabilidade.

E, para ser ainda mais cruel com o sérvio, a terceira escolha do Draft foi Carmelo Anthony, 10x All-Star, a quarta escolha foi Chris Bosh, 11x All-Star e duas vezes campeão da NBA, e a quinta escolha foi Dwyane Wade, três vezes campeão da NBA, MVP de finais (2006) e maior jogador da história da franquia que o selecionou, o Miami Heat.

O Draft da NBA de 2017 é considerado por muitos como um escalão abaixo dos citados acima pela quantidade de talento envolvida, muito maior que em anos recentes. O melhor Draft dos últimos 10 anos é o de 2009, que teve Blake Griffin selecionado em primeiro, James Harden em terceiro, Stephen Curry em sétimo e DeMar DeRozan em nono. O de 2010, com John Wall, DeMarcus Cousins, Gordon Hayward e Paul George no top 10 e o de 2011 – Kyrie Irving, Klay Thompson e Kawhi Leonard no top 15, mais Jimmy Butler em 30º – também se destacam.

E Drafts ruins, existem? Oh, com certeza. E ainda bem perto de nós: 2013. A primeira escolha foi o canadense Anthony Bennett, uma imensa surpresa que o Cleveland Cavaliers pregou em quem acompanha a liga e que não deu nada certo. Apenas quatro anos depois, Bennett passou por mais três times na NBA e hoje joga na Turquia. Há bons jogadores no top 10 – Victor Oladipo, Otto Porter, Nerlens Noel e C.J. McCollum – mas é bastante representativo da classe fraca que nenhum jogador do top 10 tenha jogado um All-Star Game ainda. O maior nome (disparado) desse Draft foi uma aposta internacional que, se o Detroit Pistons errou, o Milwaukee Bucks acertou maravilhosamente bem: Giannis Antetokounmpo. Outro internacional que foi uma enterrada nota 10 dos olheiros foi Rudy Gobert, pivô do Utah Jazz e selecionado em 27º.

Draft da NBA: há talento na 2ª rodada?

Com certeza. Muitas vezes um olheiro não consegue ver tudo que a promessa pode oferecer na NBA. Ou então o jogador teve crescimento tardio, seja físico ou mental. Ou ele não estava em um bom ambiente na universidade e, quando chega na NBA, tudo se encaixa.

Enfim, há diversos jogadores que caíram para a segunda rodada do Draft e que tiveram carreiras brilhantes. O já citado Draymond Green é um belo exemplo: baixo para ser um ala-pivô, sem se encaixar no molde de um ala tradicional, Green foi passado e passado até cair no colo dos Warriors na 35ª posição. Gilbert Arenas, 3x All-Star e que teve temporadas sensacionais em Washington, foi a primeira escolha da segunda rodada de 2001 (31º geral).

Jogadores internacionais também costumam cair porque não se sabe se o destaque que tiveram em outros países é fruto de bom jogo ou também de concorrência pior. Manu Ginobili foi a 57ª escolha do Draft de 1999 e Marc Gasol foi o 48º do Draft de 2007.

Mas o maior nome aqui é o de Dennis Rodman. Fruto de um lar problemático – seu pai deixou a família e sua mãe era viciada em drogas – Rodman chegou a trabalhar de faxineiro antes de ter uma explosão no seu crescimento e dar mais uma chance ao basquete, esporte que ele dizia ser péssimo. O Detroit Pistons viu seu talento apesar de jogar em uma universidade pequena do Oklahoma e o selecionou com a 27ª escolha (a primeira rodada tinha 24 seleções apenas) geral em 1986.

Rodman imediatamente causou impacto com sua defesa sufocante e sua vontade interminável, se tornando um membro importantíssimo dos Bad Boys do Detroit Pistons. Foram dois títulos em Detroit, mais dois prêmios de melhor defensor e uma virada 180º para porra-louca completo em sua fase de San Antonio Spurs, Chicago Bulls – onde ganhou mais três troféus e era vital na equipe de Jordan – e pós-NBA.

Na próxima vez que você pegar o Draft da NBA, não durma após a primeira rodada terminar porque uma peça fundamental para seu time pode estar esperando.

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