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OJ Simpson: lenda do esporte, julgamento histórico, prisão e possível saída

O.J. Simpson prisão

OJ Simpson é um nome que não é estranho, mesmo para quem não tenha a mínima ideia do que seja o troféu Heisman, o Buffalo Bills, Corra que a Polícia Vem Aí, Nicole Brown, Robert Kardashian (sim, tem relação com você sabe quem) e uma prisão em Nevada. Mas tudo isso está relacionado e o Quinto Quarto neste post visa esclarecer todas as dúvidas sobre uma das histórias mais fascinantes das últimas décadas.

A razão para este post ser publicado neste mês é a possibilidade de O.J. Simpson sair da prisão em liberdade condicional, após ser preso por um assalto e sequestro em Las Vegas, que rendeu uma pena de 33 anos em 2008. A audiência da condicional será no dia 20 de julho e caso seja aceita sua saída, ele deve ser solto em outubro.

Atualização: no dia 20 de julho, O.J. Simpson teve sua liberdade condicional concedida. Leia mais aqui. 

Mas antes, vamos começar pelo começo.

Quem é OJ Simpson

Orenthal James Simpson nasceu em julho de 1947 em San Francisco, Califórnia. Sua história na infância e adolescência é como tantas outras nos Estados Unidos: negro, ele teve que ajudar sua mãe a cuidar da casa e estava inserido em um ambiente de violência e dificuldades financeiras. O esporte, válvula de escape em um bairro difícil, se tornou a possibilidade de ser bem-sucedido e jogando futebol americano no ensino médio, ele logo mostrou que tinha talento.

OJ Simpson: lenda do Futebol americano

O.J., como era conhecido, escolheu a University of Southern California (USC) e simplesmente explodiu pelos Trojans, somando 3426 jardas e 36 TDs em apenas duas temporadas jogando como running back. Ele foi o vencedor do Heisman Trophy, prêmio dado ao melhor jogador universitário do país, em 1968.

Estrela antes mesmo de entrar na NFL, Simpson foi escolhido pelo Buffalo Bills, o mais distante possível de Los Angeles e San Francisco. Fria, uma cidade operária, na Costa Leste, a cidade do estado de Nova York com certeza não era o que Simpson queria e ele exigiu um contrato recorde para assinar com o time após o Draft. O dono Ralph Wilson, depois de duras negociações, aceitou pagar.

Só que de 1969 até 1972, o running back foi uma decepção no futebol profissional, muito porque ele foi mal usado no ataque da equipe. Quando o treinador Lou Saban chegou, as coisas mudaram: OJ Simpson se tornou o combustível do ataque e depois de liderar a liga em jardas corridas em 1972/73, conseguiu passar a marca de 2 mil jardas corridas em 1973/74 (2.003), algo nunca feito antes. Desde lá, seis jogadores conseguiram isso, mas todos eles em 16 jogos, enquanto O.J. Simpson fez isso em 14. Por esse feito, ele foi o MVP da NFL na temporada 1973.

Nas sequência de sua carreira, o camisa 32 continuou dominando a liga, mas seu time não conseguia traduzir isso em vitórias. Os Bills chegaram aos playoffs apenas uma vez na era OJ Simpson, perdendo para o Pittsburgh Steelers (32 a 14) em 1975/76.

Mas enquanto os Bills perdiam em campo, a figura de O.J. só crescia. Garoto-propaganda de diversas marcas, figurinha carimbada na noite de Los Angeles na offseason e começando uma carreira de ator, ele começou a deixar o futebol americano para trás. Trocado para o San Francisco 49ers no fim dos anos 70, ele já não tinha mais a explosão de antes e não justificou as valiosas escolhas de Draft que os Niners cederam aos Bills, encerrando sua carreira em 1979.

Após a NFL

Com o legado no futebol americano pronto – Heisman Trophy, 1ª escolha do Draft, 2 mil jardas, 4x líder em jardas corridas em uma temporada, membro do Hall da Fama desde 1985 – O.J. Simpson partiu para novos desafios. Ele trabalhou como comentarista de futebol americano na ‘NBC’ e seguiu tentando carreira em Hollywood, tanto em dramas como a Torre do Inferno como na trilogia Corra que a Polícia Vem Aí, considerada uma das maiores comédias de todos os tempos.

OJ Simpson era visto como uma figura simpática e carismática para diferentes faixas etárias e sociais, além de ter fãs tanto na comunidade negra como também na população branca dos Estados Unidos. Uma das razões para isso, e que sempre gerou grande crítica no movimento negro, foi O.J. não ter adotado um discurso mais agressivo em relação à desigualdade socioeconômica no país e outros problemas como racismo e violência policial, como esportistas como Bill Russell, Kareem Abdul-Jabbar, Jim Brown e Muhammad Ali escolheram fazer.

Assim, o ex-jogador conseguiu imenso prestígio nos mais diversos meios, desde o artístico, empresarial, esportivo e até com as forças de justiça, sendo amigo de policiais e advogados.

OJ Simpson 1990

Crédito: Wikipedia Commons/reprodução

As mortes de Nicole Brown e Ron Goldman

Nicole Brown conheceu OJ Simpson ainda nos anos 70, quando ele era jogador de futebol e casado com sua primeira esposa. A diferença de idade, criações e até cor de pele não impediu o relacionamento e após o divórcio de O.J., os dois se casaram em 1985, gerando dois filhos nos anos seguintes.

Entretanto, apesar de parecer sempre tranquilo e sorridente para o mundo, OJ Simpson foi um marido abusivo em uma relação recheada de ciúmes e traições. Nicole e O.J. se separaram e voltaram diversas vezes, até que em 1992 o divórcio foi decretado. O ex-jogador chegou a ser fichado pela polícia após ter agredido a mãe de seus filhos e os policiais tiveram que ir até a casa do casal em Brentwood, subúrbio de Los Angeles, por causa de denúncias e ligações de emergência dela. Apesar do divórcio e de estar namorando outra mulher, O.J. continuou perseguindo Brown e intimidando ela e seus companheiros.

Até que em 12 de junho de 1994, a polícia foi chamada e encontrou dois corpos na casa de Brentwood: Nicole Brown foi esfaqueada múltiplas vezes e deixada em frente à casa, depois do portão. Ron Goldman, garçom de um restaurante de Los Angeles, também foi encontrado esfaqueado e morto. Ele teria ido até a casa de Nicole para devolver uns óculos que ela esqueceu no estabelecimento, segundo a versão construída pela promotoria.

A polícia encontrou uma luva ensanguentada no local e colheu DNA e amostras na cena do crime.

OJ Simpson e o julgamento do século

A polícia foi até a casa de O.J. para informá-lo da morte da mãe de seus filhos, mas vendo traços de sangue, os investigadores entraram na casa e após ter um mandado de busca, acharam a segunda luva. Com o decorrer das investigações, a prisão de OJ Simpson foi decretada, com ele aceitando se entregar.

O problema é que o combinado não foi cumprido. Tendo um acesso nervoso, o ex-jogador saiu do local onde estava junto com seu melhor amigo, o também ex-atleta da NFL A.C. Cowlings em um Ford Bronco branco. Isso gerou uma verdadeira perseguição policial pelas ruas e vias de Los Angeles, televisionada para o mundo inteiro.  O jogo 5 das finais da NBA entre New York Knicks e Houston Rockets chegou a ficar em segundo plano até na emissora que transmitia a partida (NBC) para acompanhar a perseguição, que acabou com O.J. chegando em casa e se entregando.

Apesar de ter tentado a fuga, ameaçado se matar e ter entregado uma carta que parecia uma confissão, O.J. mudou de postura após a prisão e manteve sua inocência, apesar das provas bastante fortes que ele teria sido o autor dos crimes.

Se o caso já tinha tudo para gerar a atenção das pessoas e mídia por envolver O.J. Simpson, após a perseguição policial ele se tornou o assunto mais importante dos Estados Unidos, ganhando uma série de narrativas paralelas e um roteiro que parecia de cinema. Promotores, como Marcia Clark, se tornaram estrelas. O juiz Lance Ito idem.

Antes de começar o julgamento, a promotoria pensava ter um caso ganho em mãos, mas O.J contratou um time de advogados renomados, que ganhou a alcunha de Dream Team. Entre eles estavam Alan Dershowitz, Robert Shapiro, F. Lee Bailey, Johnnie Cochran, Robert Kardashian (amigo pessoal de O.J., que é padrinho de Kim Kardashian, filha de Robert), entre outros.

A promotoria podia trabalhar com várias questões: as evidências de DNA, a falta de álibi fiável de Simpson, os machucados na mão dele e o sangue no carro e na luva que batia com o dele e das duas vítimas. Mesmo assim a promotoria cometeu uma série de erros que foram destrinchados pelo time de defesa. Entre eles, a mudança do julgamento de um subúrbio para a cidade de Los Angeles – onde há maior presença de minorias e isso se refletiu no jurado, integrado por nove pessoas negras e uma latina, mais dois brancos – alguns erros técnicos nas coletas de amostras de sangue e provas e a dificuldade em explicar a importância do DNA.

Um dos momentos mais memoráveis do julgamento foi quando O.J. foi chamado para usar a luva de couro com a qual supostamente teria cometido o crime. Ela acabou não servindo, fato que pode ser justificado por diversas razões, mas gerou um momento de humilhação para os promotores, já que o ex-jogador soube se aproveitar do momento perfeitamente.

Mas a principal arma usada pelos advogados de O.J. Simpson, especialmente Johnnie Cochran – ativista e envolvido em diversas causas a favor da comunidade negra -, foi o histórico da polícia de Los Angeles (LAPD) de violência policial, especialmente nos bairros mais pobres e com grande presença da comunidade negra. Esse argumento fechou perfeitamente quando Mark Fuhrman, principal detetive do caso, teve declarações racistas que ele fez para uma roteirista, anos antes, vazadas. Nela o policial fala sobre o uso brutal de sua força como policial contra negros sem mostrar arrependimento.

A repercussão imensa de todo o julgamento, as falas de Fuhrman e também a lembrança do caso Rodney King – quando um negro foi agredido por quatro policiais por não ter parado seu carro e tudo isso foi capturado em câmera – fez os Estados Unidos serem completamente divididos. Essa divisão ficou clara em pesquisas da época, com a imensa maioria de branco acreditando que O.J. matou Nicole e Ron e a maioria da população negra acredita que foi uma conspiração da polícia para incriminar o ex-jogador. Essa divisão fica clara neste vídeo do programa de auditório de Oprah Winfrey. Uma pesquisa de de 2004, 10 anos após as mortes, indica que 27% dos entrevistados negros acredita que O.J. foi culpado, enquanto 87% dos entrevistados brancos acredita o contrário.

Em 3 de outubro de 1995, o veredito foi anunciado pelo júri: O.J. Simpson foi inocentado pelos jurados, que demoraram apenas quatro horas discutindo a decisão após meses de provas e debate, algo que causou surpresa. A promotora Marcia Clark acreditava que por ter 10 mulheres e apenas 2 homens no juri, ela conseguiria conectar com as mulheres no tema violência doméstica, algo que não aconteceu.

Como admitido após o julgamento por diversos membros do juri, que era composto por nove negros, um latino e dois brancos, a questão da raça foi muito mais importante. Uma das juradas chegou a dizer em entrevista ao documentário O.J. in America, da ‘ESPN’ americana, que sua decisão era uma vingança pelo caso King, que terminou com os policiais sendo absolvidos.

Após o julgamento do século

Em liberdade, O.J. prometeu buscar os assassinos de Nicole e Ron, mas eles nunca foram encontrados. Um julgamento civil, em 1997, decretou que Simpson era o culpado pelas duas mortes e teria que pagar uma multa de US$ 33,5 milhões para os familiares das vítimas.

Afastado de seus amigos influentes – Robert Kardashian disse ter dúvidas sobre sua inocência em entrevista marcante – e sem projetos fixos, O.J. Simpson se mudou da Califórnia para a Flórida para proteger parte de seu patrimônio, dilapidado por dívidas com advogados e a pena no julgamento, que nunca pagou na totalidade.

Em 2007, O.J. Simpson, acompanhado de mais três pessoas, entrou em quarto do hotel Palace Station em Las Vegas para tentar recuperar, segundo sua versão, itens esportivos e de coleção que foram roubados dele. Ainda segundo Simpson, ele não sabia que seus colegas estavam armados. Depois de ser preso, os outros três fizeram um acordo com a justiça e O.J. foi condenado a 33 anos de cadeia por formação de quadrilha, roubo armado e sequestro.

Depois de ter escapado no julgamento do século, OJ foi preso e está na penitenciária de Lovelock, em Nevada.

Audiência e possível liberação

A audiência para a condicional é no dia 20 de julho. Por causa de sua idade (70 anos) e bom comportamento na cadeia, além de algumas penas suas terem sido abrandadas em 2013, é bastante possível que OJ Simpson cumpra o restante de sua pena em outro regime que não o fechado. Dos sete comissários que vão analisar o caso, apenas quatro precisam aprovar para o ex-jogador sair da cadeia.

Caso esse seja o entendimento, ele poderá ser liberado já em outubro.

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