Cairo Santos revela sonho sobre o Super Bowl: ‘Eu quero viver isso’

Estevan Ciccone | 09/02/2024 - 12:56

Na semana de Super Bowl não se fala em outra coisa nos Estados Unidos. Kansas City Chiefs e San Francisco 49ers estão em todas as conversas. Nas ruas, na mídia social, na TV e no rádio. O país respira a final da NFL.

E para esquentar ainda mais esse clima, nós conversamos com o representante do Brasil na liga norte-americana. Um dos melhores kickers da temporada e de contrato novo com o Chicago Bears, Cairo Santos é o único brasileiro presente em uma das 32 franquias da NFL.

Próximo de começar a sua 11ª temporada da NFL, Cairo Santos é o brasileiro na história que mais atuou na NFL. Ao todo, foram 66 jogos por cinco franquias diferentes. Apelidado carinhosamente pelos fãs brasileiros de ‘zica das bicudas’, Cairo terminou a temporada 2023-24 da NFL com o maior número de acertos da sua carreira, com 35 field goals anotados em 38 tentativas, seu segundo melhor ano em aproveitamento, ultrapassando os 92%.

No Chicago Bears desde 2020, recentemente Cairo teve o seu contrato com a franquia renovado até a temporada 2027, no valor de US$ 16 milhões (equivalente a R$ 79,5 milhões na cotação atual), e se tornou o 13° na lista de kickers da NFL superando os dois dígitos de salário.

O Quinto Quarto bateu um papo exclusivo de uma hora com o brasileiro. Na conversa, Cairo falou sobre qual é o favorito ao Super Bowl, o balanço da temporada, a qual a sua expectativa para a NFL no Brasil e ainda deu alguns conselhos a quem quer seguir a carreira de Kicker e chegar à NFL.

Nesta entrevista exclusiva com Cairo, você também vai ler sobre:

  • Balanço da temporada de Cairo Santos e análise do ano do Chicago Bears;
  • Renovação de contrato com o Chicago Bears;
  • Dificuldades na temporada de calouro;
  • O sonho de disputar e vencer um Super Bowl;
  • O retorno dos training camps no Brasil;
  • Conselhos para novos os brasileiros que querem se tornar Kickers na NFL.

Confira a entrevista exclusiva de Cairo Santos no Quinto Quarto:

Quinto Quarto: Cairo, pra começar, qual o balanço que você faz da sua temporada e do ano do Chicago Bears?

Cairo Santos: Meu ano começou especial. Minha décima temporada, um número expressivo. É bem significativo porque a gente sabe que a carreira na NFL é bem curta. Infelizmente pro nosso time, nos não tivemos o começo que precisaríamos. Demoramos um pouco para engrenar. Mas acabamos tendo um bom desempenho depois do meio da temporada. Foi legal ver o crescimento da nossa equipe. Pra mim, individualmente, ganhando ou perdendo, eu tenho que pontuar. Se eu não acerto meus chutes acabo sendo um peso a mais nas derrotas. Então é importante o time saber que pode contar comigo quando não está pontuando muito em um jogo. E foi isso o que aconteceu a temporada inteira. Consegui pontuar em chutes de 50 jardas, o que foi bem expressivo na minha carreira. E num ano que era o meu último de contrato nos Bears. E nós conseguimos renovar, então foi um ano muito especial, inesquecível.

Você imaginava, quando chegou a NFL, ter todo esse tempo na liga e conseguir uma renovação de contrato como essa que assinou com os Bears?

Cairo: É surreal. Eu tenho 32 anos e me sinto no pico da minha performance. Ter mais 4 anos de futuro na NFL é uma nova jornada. É quase um beliscão que eu me dou todo ano pra acreditar que eu terei mais uma temporada de NFL. A cada jogo de início de temporada eu olho pra arquibancada e penso que sou um atleta profissional da NFL. Desde que eu estava na faculdade eu sonhava em entrar na liga. Depois que eu entrei eu vi o quão difícil é pra ficar. A competição é muito forte. Todo ano é um ano de contrato. Você tem que produzir. Se você não produz, vão procurar alguém que o faça. Ter esse foco nunca me deixa ficar confortável. O time precisa saber que pode confiar em mim. Eu não posso fazer um lançamento ou dar um tackle para ajudar o time. Então quando chegamos na linha de 40 jardas, eles sabem que podem contar com os 3 pontos.

É surreal. Eu tenho 32 anos e me sinto no pico da minha performance. Ter mais 4 anos de futuro na NFL é uma nova jornada. É quase um beliscão que eu me dou todo ano pra acreditar que eu terei mais uma temporada de NFL.

Você não da tackle, mas deu carrinho, né?

Cairo: Toda vez que eu preciso dar um tackle eu penso no carrinho primeiro. É instinto de ‘zagueirão’. Mas depois que eu fiz o primeiro eu sei que não posso fazer de novo.

Mirando o Super Bowl: Cairo Santos revela sonho na NFL

Uma curiosidade: qual a distância que você, em uma quarta descida, chamaria a responsabilidade e tentaria fazer o ponto ao invés de ver o time devolver a bola pro adversário?

Cairo: Em um clima perfeito, sem vento, com a temperatura ideal, geralmente 60 jardas. Eu garanto que a bola vai chegar. A mira depende do meu trabalho, mas ela vai chegar. Esse ano teve um chute muito legal, que os jogadores me olharam impressionados no vestiário. Foi contra os Panthers, contra o vento, e eu já tinha feito um chute de 49 jardas. E ai, depois, teve um lance de 54 jardas e eu acertei de novo. Eu senti uma adrenalina que é muito difícil de explicar. Eu tinha dito ao técnico que eu poderia chutar ate umas 52 jardas contra o vento. Fui lá e acertei com 54 jardas. O público se levantou de uma forma diferente, os jogadores me abraçaram de forma diferente. Eles viram como aquilo foi impressionante.

Cairo Santos, jogador do Chicago Bears
Contra o Minnesota Vikings, o Brasileiro Cairo Santos anotou todos os pontos da vitória do Chicago Bears e foi ovacionado pelos companheiros da NFL. Foto: Icon Sport

Quinto Quarto: Bom, vamos falar de Super Bowl. Aqui nos Estados Unidos já é clima de final de Copa do Mundo. Como você vive esse clima de Super Bowl e qual o seu palpite pra esse jogo?

Cairo: Eu fico sempre impressionado com esse clima. Eu fui apenas a um Super Bowl, aquele famoso Patriots e Falcons. Foi o ano que a gente perdeu para o Patriots no Divisional Round. E estando ali presente, como um time que foi eliminado, não chegou, me deu uma sensação de que eu não deveria estar ali, daquele jeito naquele momento. Sentindo que nós poderíamos estar ali jogando. Mas isso também me deu muita motivação. Eu quero viver isso, sentir essa semana de Super Bowl. É muito diferente. É outro nível. É um espetáculo, a energia é demais. O que mais me impressiona é ver no Patrick Mahomes, apesar de esse ser o quarto Super Bowl dele, já ganhou dois, e também no Travis Kelce, é o tanto que eles querem estar de novo. Já ganharam duas vezes e nunca se cansam dessa jornada pra chegar lá todo ano. E sobre palpite, eu acho que da Chiefs. Os 49ers tem uma equipe melhor, mas os Chiefs tem mostrado nesses playoffs que quando há pressão eles sabem jogar. Eles sabem ganhar o jogo. Acho que vai ser apertado, mas os Chiefs levam. Talvez tenha faltado isso para Ravens e Bills.

Eu quero viver isso, sentir essa semana de Super Bowl. É muito diferente. É outro nível. É um espetáculo, a energia é demais.

Início difícil e superação: Cairo Santos revela momento tenso no início da sua carreira na NFL

O Jake Moody, dos 49ers, vem tendo um começo difícil, com erros em jogos importantes, e há uma certa desconfiança com ele. Você sentiu essa mesma pressão que ele parece estar sentindo no seu início na NFL?

Cairo: Eu senti um pouco sim. No meu primeiro ano eu senti essa diferença. Na faculdade a gente tinha cerca de 15 mil pessoas no estádio em um jogo bom. Quando eu fui para o Kansas City Chiefs, na pré-temporada, chega a ter 40, 50 mil, mas ainda não tem aquele calor porque o jogo não vale muito. Mas quando começa a temporada, eu senti o sufoco que a torcida dá, você sente o que significa um jogo de temporada regular da NFL. E isso mexeu comigo. Eu não tinha a mesma confiança pra chutar que eu tinha na faculdade e na pré temporada. E demorou um pouco pra pegar. No primeiro jogo, em casa, eu acertei um chute e errei outro. No segundo, fora de casa contra os Broncos, com aquela parede laranja atras do gol, eu acertei um e errei outro. Ai na reunião seguinte desse jogo, após duas derrotas, o técnico de special teams falou na frente de todo mundo que eu só teria mais uma chance. E disse que a NFL funciona assim. Se você não faz seu trabalho, alguém tem que fazer. Ai fomos jogar contra os Dolphins e eu acertei todos os meus chutes. Depois, Monday Night, contra Tom Brady e os Patriots, acertei todos os chutes e a gente ganhou. Ai eu fui pegando confiança e fiquei 12 semanas sem errar um chute. Nesse meio eu acertei um chute de 48 jardas para a vitória contra os Charges onde os Chiefs não ganhavam há alguns anos. E me lembro de a imprensa de Kansas falando que naquele momento o Cairo virou o kicker dos Chiefs. E ali cresceu minha confiança pra me colocar entre os 32 melhores kickers do mundo. Sobre o Jake Moody eu tenho visto que ele está melhorando a técnica dele e está ganhando essa confiança também. Então acho que é totalmente normal ele passar por isso que ele tem passado nessa temporada de calouro e ele tem tudo pra fazer um grande Super Bowl.

Sem Tom Brady e os Patriots, você acha que os Chiefs tem a chance de criar uma nova dinastia na NFL?

Cairo: Eu acho que sim. O que o Brady e os Patriots fizeram, colocaram aquela marca lá em cima e esses jogadores dos Chiefs querem chegar ali. Eu tenho certeza que eles vão atrás disso.

 

Como é sua rotina nesse período sem jogos? Desde o dia que o Chicago saiu da NFL ate o inicio da próxima temporada?

Cairo: Quando acaba nosso último jogo, nós fazemos uma reunião do time no dia seguinte com o técnico e o general manager para encerrar o ano. Todo mundo já empacota as coisas no vestiário e leva pra casa. Eu venho pra Jacksonville, porque ficar no frio de Chicago nessa época é difícil. A gente precisa do nosso período de descanso porque a temporada exige demais, é muito desgastante. A gente treina de abril a janeiro com muita intensidade. No começo, no meu primeiro ano, quando acabava a temporada eu já queria começar a treinar, pra melhorar. Comecei chutar no final de fevereiro ate o final da temporada seguinte. Mas eu acredito que isso acabou me machucando aos poucos. E eu aprendi que eu tenho que controlar a quantidade de chutes. Agora, eu venho sentindo o que meu corpo precisa. Agora, eu só volto a chutar em abril. Mas eu começo a preparação muscular no final de fevereiro para o corpo aguentar o desgaste da temporada. Então, eu aproveito esses meses de fevereiro, marco e inicio de abril, para descansar, fazer esse trabalho de fortalecimento, ficar com a minha família e eu também comecei a jogar golf. O golf tem muitas partes que eu uso de treinamento psicológico para a minha posição de kicker. A importância de você resetar a sua mente após errar uma tacada para se concentrar na próxima. Algo que pode acontecer no jogo se eu errar um chute. Em abril, o time volta a se reunir de maneira voluntaria. Mais de 90% se reapresenta junto para iniciar a preparação da temporada.

NFL no Brasil: Cairo Santos fala sobre o jogo e revela desejo de realizar projeto no país

NFL no Brasil. Como você recebeu a noticia? Qual a chance de você estar na Neo Química Arena como um embaixador ou convidado?

Cairo: Eu espero estar lá. Fiquei sabendo junto com todo mundo, praticamente. Eu fiquei muito animado. Foi um dos dias mais felizes que eu tive na NFL. O crescimento no Brasil da NFL, com as pessoas me acompanhando. Pra mim, ter uma certa influência nessa popularidade no Brasil, foi muito legal ver essa noticia. Foi engraçado porque umas duas semanas antes do anuncio, um repórter da ESPN México (John Sutcliffe) veio falar pra mim na beira do campo, no meio de um jogo, que tinha a chance de a NFL confirmar um jogo no Brasil. Eu acho que ele já estava por dentro e ficou difícil me concentrar no jogo. A gente infelizmente não vai jogar essa partida. Nós vamos para Londres na semana 6, provavelmente. Eu espero que a partida no Brasil seja em uma data que eu não tenha jogo. Se for assim, certamente eu estarei lá pra acompanhar. Também quero voltar ao Brasil em junho ou julho para começar a esquentar esse jogo. Será um sonho realizado pra milhares de pessoas.

O que você achou de o Eagles ser confirmado no jogo?

Cairo: Vai ser bem legal. Eles tem um jogador de origem brasileira. Tanner McKee, QB reserva. Vai ser sensacional.

Eu espero que a partida no Brasil seja em uma data que eu não tenha jogo. Se for assim, certamente eu estarei lá pra acompanhar.

Chega pra NFL o tamanho que a liga está no Brasil? O crescimento que está acontecendo no Brasil?

Cairo: Com certeza. Mais na organização NFL do que nos atletas. Eles já olham o Brasil como um mercado gigante há anos. Eu acompanho muito a imprensa do Brasil sobre a NFL. A liga produz aqui vários clipes com narrações brasileiras nos principais lances. A presença brasileira é muito sentida por aqui sim. Eu lembro, quando eu estava nos Chiefs, o dono da franquia, Clark Hunt, é muito fã de soccer, ele é dono do FC Dallas, da MLS também. Na Copa do Mundo no Brasil em 2014, ele ficava me perguntando sobre as cidades e os estádios. Ele acompanhou todos os jogos dos Estados Unidos. E ele esta no comitê internacional da NFL. E sempre quis conversar sobre o Brasil. Eu acredito que a NFL vai se apaixonar por esse jogo no Brasil.

Cairo Santos, Kicker do Chicago Bears
Cairo Santos acertou os dois chutes no jogo contra o Green Bay Packers. Foto: Icon Sport

Você tem planos de se conectar mais com o publico no Brasil que é fã da NFL? Em Training camps ou eventos?

Cairo: Sim. Eu fiz 3 ou 4 anos de camps. Pelos Chiefs e pelos Bucks. Mas depois veio o Covid, eu tive 2 filhos, e dificultou muito ir de novo. Ainda não voltei para o Brasil, desde 2018 não volto. Mas eu quero muito voltar a fazer esses camps. Era muito gratificante. No começo eu foquei em abrir pra todo mundo, pra todos aprenderem. Depois eu fiz só pra kicker. Vinha uma galera do Nordeste, fazendo vaquinha, pra ir à São Paulo participar. Quero muito voltar a fazer isso. Era minha parte favorita da off-season. Ver a paixão das pessoas pelo esporte, fazendo por amor mesmo, me sinto muito emocionado vendo isso. Quero voltar a me conectar com a galera que me acompanha em que torce por mim.

Quero muito voltar a fazer isso. Era minha parte favorita da off-season… Quero voltar a me conectar com a galera que me acompanha em que torce por mim.

Mais uma curiosidade. Vocês, jogadores, interagem? Tem um grupo de WhatsApp da NFL?

Cairo: O pessoal aqui não usa WhatsApp. Mas nos temos um grupo no iMessage com, não todos, mas alguns kickers. Com os que eu mais me aproximei ao longo dos anos. E a gente conversa sobre os jogos da semana, da temporada. O Chris Boswell, dos Steelers, é um dos meus amigos mais próximos e a gente se fala bastante. A galera torce muito um pelo outro. Sabemos a dor que e’ errar um chute, ter uma sequencia difícil…então no geral todos tem uma simpatia pelo próximo pra fazer um grande trabalho.

O que você aconselha pra quem quer tentar uma carreira na NFL? O melhor caminho é ir para uma high-school e depois uma universidade nos Estados Unidos?

Cairo: Eu acho que ainda é. Na posição de kicker, há algumas opções se abrindo em peneiras e camps que ex-jogadores da NFL estão abrindo. Os olheiros dos times tem ido nesses treinos observar os jovens. O cara que está na faculdade aqui, está acima de alguém que venha de longe e tem o mesmo potencial. Estando no college ele já estará mais testado, sabendo mais da pressão que acontece por aqui. Mas o espaço esta aumentando. Há outras ligas menores que estão aparecendo por aqui. E já há exemplos de kickers que vieram dessas ligas e camps e estão na NFL. Então as portas estão se abrindo cada vez mais. Nas outras posições já depende mais da técnica e da visão de jogo. Para essas, eu acho que passar pelo High School e pelo college é importante. Me lembro de quando eu jogava futebol no Brasil, na escolinha do Fluminense, tinha muito cara com chute mais forte que eu e que poderia estar aqui onde estou. Então tem muito potencial no Brasil.

Escrito por Estevan Ciccone
Estevan Ciccone trabalhou por mais de 20 anos no Grupo Band, onde foi estagiario, produtor, editor, coordenador, blogueiro, reporter, apresentador, comentarista e correspondente internacional. Ja cobriu Copas do Mundo, Jogos Olimpicos, Jogos Panamericanos, Formula 1, NFL e Finais de NBA. Passou tambem por TV Record, Revista Placar e Dazn. Atualmente na NBA Brasil e, agora, no Quinto Quarto.