COLUNAS

Lance Livre: encontrando o melhor triplo-duplo na NBA usando análise estatística

Arte: Felippe Rodrigues

Por Felippe Rodrigues, Brooks Sutherland and George Redak

Triplos-duplos são raros na NBA—ou pelo menos assim foi até a temporada 2016/17. Russell Westbrook explodiu em Oklahoma após a saída de Kevin Durant, e quebrou um dos recordes inquebráveis da liga com 42 triplos-duplos em uma única temporada (Oscar Robertson, em 1961/62, teve 41).

James Harden, candidato do nosso editor Miguel Amado para MVP, teve 22 ao todo, mais do que dobrando seus números na carreira neste ano. LeBron James, Giannis Antetokounmpo, John Wall, Draymond Green, dentre tantos outros, também tiveram jogos com duplos dígitos em três estatísticas durante esta temporada, que será lembrada como o ano do triplo-duplo. Ao todo, foram 117 na temporada regular, e as estrelas seguem somando novos nos playoffs.

Mas o que esses números realmente nos contam? Nada além da vazia descrição do que é um triplo-duplo: o jogador X teve duplos dígitos em três estatísticas. Triplo-duplo soa imponente, mas não passa de uma invenção de um diretor de relação públicas: Bruce Jolesch, ex-Lakers, e Harvey Pollack, ex-76ers, reivindicam a criação do termo.

É por isso que resolvi investigar a verdadeira qualidade de todos os triplos-duplos já anotados na NBA. Confira a metodologia ao fim do texto para mais detalhes.

Com a ajuda dos colegas Brooks Sutherland (Estados Unidos) e George Redak (Canadá), criei o TDR, ou Triple-Double Rating, estatística que avalia a eficiência de um jogador na suposta noite inspirada dele em que anotou um triplo-duplo. Para isso, utilizamos usamos as estatísticas em cada partida normalizadas pelos minutos jogados pelos jogadores.

Os resultados tem um quê de surpresa, e tudo será explicado no decorrer dessa coluna, mas uma coisa já posso adiantar: 2016/17 foi mesmo um ano espetacular.

Qual é o melhor triplo-duplo da história?

Eu não acredito em destino. Mas se existe algo que se aproxime disso é o que Russell Westbrook fez na noite de 9 de abril de 2017, no Pepsi Center, em Denver. Ao quebrar o recorde histórico de Robertson com o 42º triplo-duplo da temporada, Westbrook também teve a performance mais eficiente de todos os tempos pelo TDR, com 123,24. É claro que é pura coincidência, mas… será que é mesmo?

Sim, é.

Mas é uma baita de uma coincidência, e que não para por aí. O Oklahoma City Thunder já tinha a vaga nos playoffs assegurada, mas fez um jogo parelho contra o Denver Nuggets, que àquela altura ainda tinha chances de classificação. E não bastassem os 50 pontos, 16 assistências e 10 rebotes de Westbrook em 37 minutos jogados, o armador do Thunder ainda acertou um buzzer-beater quase do meio da quadra para vencer o jogo por um ponto. Não dá para negar que ele tem estilo.

Westbrook, o ex-melhor amigo de Kevin Durant, aparece outras duas vezes entre os dez primeiros. Apenas James Harden também tem mais de um triplo-duplos no Top 10 (incluindo o 3º mais eficiente, com TDR de 120,26). Curiosamente, esses 5 triplos-duplos dos armadores foram anotados durante a última temporada regular. E que temporada!

A explosão ofensiva na NBA durante a última década claramente se reflete nessa lista, que tem apenas quatro triplo-duplos com mais de 10 anos—e apenas 3 anteriores aos anos 2000.

O que a análise dos dados também nos conta é que o segundo melhor triplo-duplo da história—e o líder da lista quando começamos o estudo no final de março de 2017—foi anotado em 1987 por um jogador semi-obscuro da NBA: o armador Lafayette “Fat” Lever.

E foi uma noite e tanto para ele: 21 pontos, 13 rebotes e 14 assistências em 28 minutos. Sim, 28 minutos (!!!) que renderam a ele TDR de 120,71.

Lever, à época jogador de Denver, também teve passagens pelos Mavericks e Trail Blazers. Escolhido na primeira rodada de 1982 por Portland, o jogador teve bons momentos mas não se manteve entre a elite da liga. Foi All-Star duas vezes e terminou a carreira com média de 13,9 pontos e 6,2 assistências. Foi o famoso “médião”.

Ao lado de Kevin Love, são os únicos dois dessa que não são certezas no Hall da Fama. Love ainda teve seus anos dignos de destaque em Minnesota e tem pelo menos mais meia década de NBA em alto nível. O site Basketball-Reference calcula uma chance de 42,7% de que ele esteja no Hall da Fama. Lever, aposentado há mais de 20 anos, tem míseros 2,6%.

O mais antigo dos triplos-duplos, e quarto mais eficiente, é de Larry Bird na quase histórica noite de 18 de fevereiro de 1985. Bird ficou a apenas um roubo de bola do quadruplo-duplo—feito alcançado apenas quatro vezes na história. 30 pontos, 12 rebotes, 10 assistências e 9 roubos de bola em apenas 33 minutos são os números de uma das maiores atuações de Bird em todos os tempos.

E as outras lendas, onde ficam?

Causa surpresa não ver nomes como Magic Johnson (155 triplos-duplos), LeBron James (73), Michael Jordan (30)e Kobe Bryant (21) dentro. Johnson, Jordan e James figuram já no Top 20, com TDRs acima de 100.

Os três nomes também aparecem entre os 20 melhores pela estatística career TDR (ou TDR na carreira, mínimo de 10 triplos-duplos), com Jordan em 3º (73,69), James em 10º (64,78) e Johnson em 12º (62,37). Bryant é apenas o 21º, com 55,95.

O caso do camisa 24 dos Lakers, aliás, é bem diferente dos demais que colocamos entre os melhores de todos os tempos. Kobe, ao menos nesse quesito, está longe dos seus pares: na sua noite mais inspirada anotando um triplo-duplo, ele tem apenas o 70º melhor (TDR de 91,71).

Não bastasse isso, o Black Mamba ainda detém o pior triplo-duplo de todos os tempos, com 11,63, registrado em 2004 numa daquelas noites desesperadoras para os torcedores dos Lakers—no fatídico dia, o ala-armador acertou apenas 25% dos arremessos de quadra. Tinha que ser o Kobe, né?

Os torcedores dos Celtics que se controlem: Larry Bird vem logo em seguida, com um triplo-duplo tão ineficiente quanto. TDR de 13,11 e apenas 4/17 (23,5%) nos chutes em 1990. Jason Kidd, atual técnico do Milwaukee Bucks e máquina de triplos-duplos em seu tempo de jogador (118 no total), aparece três vezes entre os dez piores.

David Robinson é quem tem o melhor TDR na carreira, 76,59. O Almirante é dos poucos que combinava performances ofensivas e defensivas espetaculares, algo bem particular aos pivôs—vale destacar o triplo-duplo de 1991 anotado por ele com tocos no lugar de assistências (43 pontos, 12 rebotes e 10 bloqueios) e o fato de que o ex-jogador dos Spurs tem um dos quatro quadruplos-duplos oficialmente registrados na NBA.

Os mais consistentes

O TDR na carreira, porém, não nos conta toda a história. Alguns jogos super-eficientes podem mascarar performances apenas medianas em várias partidas, como é o caso de Westbrook, Harden, Robinson e Hakeem Olajuwon.

Oscar Robertson aparece estranhamente com o segundo melhor career TDR (73,94), mesmo sem nenhum triplo-duplo entre os 50 melhores. Dono de nada menos do que 181 triplos-duplos em temporada regular, Robertson tem uma das menores variações entre todos os jogadores. Isso, combinado com a alta eficiência de seus triplo-duplos (alto career TDR), faz dele o melhor em nosso estudo.

O baixíssimo desvio padrão de Robertson, porém, pode ser explicado pela ausência de estatísticas nos dados de seus triplos-duplos que obtivemos (confira metodologia para mais detalhes). Roubos de bola e bloqueios não foram registrados pela NBA por vários anos, assim como turnovers e faltas. Também tivemos de usar valores médios de minutos jogados pelo armador para normalizar suas estatísticas.

Com dados completos, é provável que Robertson tivesse o melhor TDR na carreira entre todos e, possivelmente, alguma noite com TDR superior a 100. O desvio padrão de suas estatísticas também tenderia a crescer, comportamento esperado na proporção em que aumenta o total de triplos-duplos de um atleta. Mas acredito que seja possível apontar Robertson como o melhor “anotador”de triplos-duplos de todos os tempos.

Caso Robertson seja tirado da conversa pelas razões metodológicas explicadas acima, Jordan, Charles Barkley, LeBron, Chris Paul e Pau Gasol aparecem como os atletas que consistentemente tiveram triplos-duplos eficientes.

No quesito consistência, James Harden também aparece à frente de Russell Westbrook por margem razoável: 10,95 contra 13,99. A diferença, porém pode ser explicada pelo maior número de triplos-duplos do armador de OKC durante a carreira. Westbrook tem 85, Harden, 32.

Considerando apenas a temporada 2016/17, Westbrook tem pequena vantagem sobre Harden, sendo mais consistente e tendo um TDR médio melhor, mesmo anotando o dobro de triplos-duplos que o rival.

Metodologia

A base de dados contempla todos os triplos-duplos anotados a partir da temporada 1983-84. Os demais anteriores a essa data têm dados incompletos e não representam todos os triplos-duplos do período.

TDR, ou Triple-double rating, é a normalização do GameScore, estatística criada por John Hollinger, pelos minutos jogados por cada atleta. Sua fórmula é: TDR = (GmSc/MP)*100

Para os triplos-duplos de Oscar Robertson na temporada 1961-62 utilizamos valores médios de minutos jogados e estimativas de rebotes ofensivos e defensivos com base em série histórica para o cálculo do TDR.

A diferença de desvio padrão de TDR (DDP) é calculada em relação ao desvio padrão de TDR da população, que inclue todos os triplos-duplos de jogadores com 10 ou mais triplos-duplos.

Legenda

P/PTS: pontos; PTSG/PG: pontos/jogo
R/TRB: rebotes; TRBG/RG: rebotes/jogo
A/AST: assistências; ASTG/AG: assistências/jogo
S/STL: roubos; STLG/SG: roubos/jogo
B/BLK: bloqueios; BLKG/BG: bloqueios/jogo
T/TOV: turnovers; TOVG/TG: turnovers/jogo
M/MP: minutos jogados; MPG/MG: minutos jogados/jogo

TDR: Triple-double Rating
avgTDR: TDR médio na carreira, ou Career TDR

FG%: média de arremessos de quadra
3P%: média de arremessos de 3
FT%: média de lances livres

Pos: posição
Tm: time
Opp: time oponente

DDP: Diferença de desvio padrão de TDR

Comments
To Top