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Lance Livre: a bola de três, a falta de pivôs dominantes e para onde vamos

(Foto: Reprodução/Facebook)

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Para a Lance Livre desta quarta-feira eu ia escrever um texto intitulado “eu gosto de NBA, não de basquete”, visando cliques, polêmica, dinheiro, Panicats e Mercedes. Tudo isso ficará para uma próxima semana. Obviamente não ia escrever sobre a pré-temporada da NBA, porque isso é tão interessante quanto ver um debate de centro acadêmico. Mas até debates de centros acadêmicos tem algumas falas dignas de nota, assim como alguns fatos na pré-temporada são dignos de serem lidos. Por isso, clique aqui e aqui.

Hoje vou falar sobre o atual estado das coisas dentro das quadras da NBA.

A bola de três

Não é a toa que o atual MVP é o mago das bolas de três e futuro dono do recorde de bolas longas feitas na história. Para efeito de comparação, Ray Allen tem 2973, Stephen Curry tem 1191 e mesmo se cair de ritmo tem total condições de chegar em Allen quando tiver por volta de 33 a 35 anos.

É fácil dizer que nunca na história da NBA as bolas de três foram tão valorizadas. Nunca foi tão bom ser Kyle Korver na história da humanidade. O mesmo não se pode dizer de seu irmão gêmeo Ashton Kutcher depois de sua escolha de filmes e séries.

Voltando, um dado que vai te causar choque.

Jogador A: 1082 jogos, 1778 bolas de três tentadas, 581 certas.

Jogador B: 911 jogos, 3671 bolas de três tentadas, 1256 certas.

LeBron James não é um especialista de três. Os mais maldosos o chamavam (chamam) de LeBrick. E mesmo com cento e muitos jogos a menos, ele tentou mais do que o dobro de bolas de três que Michael Jordan. LeBron tem 2% a mais de aproveitamento. Aliás, Curry, com 400 jogos nas costas (600 a menos que MJ) tem 1000 bolas longas tentadas a mais que o camisa 23.

Isso quer dizer muito. Antes que os jordanistas inundem minha caixa de mensagens, como fizeram com o último post do Top Quinto (link abaixo), já defendo o camisa 23. Jordan não acertava e nem tentava tantos arremessos de três porque ele simplesmente fazia isso.

Isso é conhecido como hero ball: momentos finais, seu time precisa de um arremesso, você pega a bola, coloca embaixo do braço, manda todo mundo do seu time vazar da sua frente, cria seu próprio arremesso e reza. E quantas vezes isso deu certo para Jordan? Muitas.

Mas hoje ninguém quer mais isso. Um, porque Jordans não dão em árvore. E segundo porque como este texto brilhantemente explica, os arremessos de dois longos, criados sem assistência, são os mais inefetivos possíveis (38% de aproveitamento). Mais vale dar dois passes para trás e tentar de três. Ou seja, resumindo, esse lance acima do Jordan é para os engenheiros da NBA atuais como para nós, geração Y, ver um vídeo de uma pessoa escrevendo em uma máquina de escrever, colocando em um envelope e despachando para o correio.

Top Quinto: cinco monstros prejudicados pela Era Jordan

Muitos já entenderam a mudança dos tempos. Steve Kerr levou isso à enésima potência com os Warriors na temporada passada. Por anos, equipes tentavam mais produção ofensiva colocando mais um arremessador/jogador de backcourt no lugar de um ala-pivô, por exemplo. Isso é conhecido como small ball. Kerr nas finais do ano passado tinha quatro arremessadores (Curry, Thompson, Shaun Livingston/Harrison Barnes mais Andre Iguodala) e um ala-pivô como 5. Criou-se o super small ball.

E Gregg Popovich, com seu ataque passando a bola insistentemente, trocando bons arremessos por ótimos arremessos também é um homem atualizado. E claro, tivemos os pioneiros. Voltando 20 anos no tempo, uma equipe que foi bicampeã sabia da importância da linha de 3. À frente de seu tempo e ainda subestimado, o Houston Rockets de Rudy Tomjanovich colocava quintetos em quadra com quatro arremessadores. Mas tinha um pivô. E que pivô amigos.

Os pivôs dominantes

Hakeem Olajuwon era um senhor pivô. E na temporada do bi, seus Rockets eliminaram o San Antonio Spurs de David Robinson na final do Oeste e bateram o Orlando Magic de Shaquille O'Neal nas finais. Outros pivôs naqueles playoffs: Dikembe Mutombo (Nuggets) e Patrick Ewing (New York Knicks). 5 jogadores do Hall da Fama ou que vão entrar lá.

Melhores pivôs hoje, 20 anos depois: Dwight Howard, Brook Lopez, DeMarcus Cousins e… Al Horford. E… Joakim Noah. E…. MARC GASOL (esse sim). E…DeAndre Jordan 🙁

Deu para entender que não é nem de perto a comparação. Pode-se começar uma discussão Tostines: se arremessa mais de 3 porque não há pivôs dominantes ou não há pivôs dominantes porque se pede que eles saiam do garrafão e façam outras coisas que não sejam esmagar qualquer um e enterrar na cara de todo mundo.

Para quem espera mudanças este ano, esqueça. DeMarcus Cousins está, e isso saiu nos “jornais”, desenvolvendo um arremesso de três. Logo ele, o que mais lembra um pivô dos 90. E todo ala basicamente é um potencial stretch 4. LeBron James e Carmelo Anthony fizeram isso before it was cool. Agora Paul George será o próximo.

Para onde vamos

Deu para notar que meu tom é saudosista. Não é algo racional, é como ver o UFC atual: todo mundo luta um pouco de tudo. Mas não era legal quando chegava um gordo lutador de sumô de 200kg para enfrentar o brasileiro mestre de jiu jitsu de 80kg e nós vermos esse espetáculo bizarro para tirar alguma conclusão sobre que arte marcial era “melhor”?

Com a NBA era o mesmo. O pivô ia encarar o pivô adversário e os dois iam disputar terra embaixo do garrafão como um sem terra contra um latifundiário grileiro. O armador ia no armador e os dois iam apanhar do pivô adversário se sequer pensassem em fazer uma bandeja. Esse era a NBA. Hoje temos brutamontes que marcam desde o pivô até o armador passando pelo roupeiro e a cheerleader e caras de 2,10 m tentando uma bola de três do canto da quadra.

Malditos Dirk Nowtizki e Pau Gasol.

Mas tem um cara que pode fazer tudo voltar ao normal. Por que sabe o que é melhor que uma bola de três com 45% de chances de entrar? Jogar a bola na besta da natureza, que consegue segurar 13 bolas de tênis em uma mão, embaixo da cesta para uma bandeja de terceira série com 100% de chance de entrar.

Com essa fissura de abrir espaços, distanciar jogadores, posicionar vários jogadores longe da cesta, um feudo vai se abrir em posições vitais. E Jahlil Okafor pode ocupar esse feudo e só sair de lá depois de 15 anos e 30 mil pontos.

A porrada não irá voltar, feliz ou infelizmente dependendo de seu ponto de vista e humor. Mas a tara por três pontos hoje pode significar a volta do jogo de pivôs amanhã.  Ou tudo junto e misturado, como os Rockets de 94/95. Veremos as novas tendências da moda outono/inverno a partir do dia 28.

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