Gui Santos fala em ‘deixar marca’ nos Warriors e planeja futuro na NBA

Eduardo Barão | 09/03/2024 - 12:25

23 de junho de 2022, Barclays Center, Brooklyn, Nova York. O mundo do basquete acompanhava o Draft da NBA e viu o Orlando Magic escolher o ítalo-americano Paolo Branchero como número um.

A primeira rodada é cercada de muita expectativa, tanto dos jogadores como dos torcedores, e para muitos, a escolha correta pode salvar uma franquia em decadência. Trinta picks foram feitos naquela noite, apenas cinco nascidos fora dos Estados Unidos – entre eles, Nikola Jović. A expectativa do brasileiro ia aos poucos virando frustração. 

Na segunda noite do Draft, outros vinte e oito nomes foram chamados – vinte e quatro antes de Mark Tatum, vice-comissário da NBA anunciar que o Golden State Warriors, campeão da temporada anterior, escolhia Gui Santos.

Nascido em Brasília e filho de jogadores de basquete, Guilherme Carvalho dos Santos havia sido nomeado Sexto Homem do Ano no NBB poucos meses antes. Ele atuava pelo Minas Tênis Clube, onde teve a oportunidade de dividir os vestiários com Leandrinho Barbosa, que depois viraria membro da comissão técnica do Golden State e seria peça importante na chegada do Gui nos Warriors (hoje Barbosa está com o Sacramento).

O ala passou a treinar com o time que fez história na NBA (tem quem fale em dinastia), e fechou contrato com o Santa Cruz Warriors, equipe da liga de desenvolvimento dos Warriors. Ele terminou a temporada 2022-2023 com média de 12.7 pontos por jogo e um aproveitamento de 50% dos arremessos de quadra. O suficiente para ser “promovido” ao time principal, carente de renovação.

Em entrevista exclusiva ao Quinto Quarto, Gui Santos contou como é o dia a dia do Golden State Warriors, o contato com as principais estrelas do time, o futuro da franquia e qual a sua projeção para o futuro na equipe.

Nesta entrevista exclusiva com Gui Santos, você também vai ler sobre:

  • Chegada ao Golden State Warriors;
  • Relação com Curry, Green, Klay e Kerr;
  • Domínio estrangeiros na NBA;
  • Brasileiros históricos na NBA.
  • Legado na NBA.

Confira a entrevista exclusiva de Gui Santos no Quinto Quarto:

Como foi a sua adaptação no Golden State Warriors?

Chegar em um time com estrelas já consolidadas, tem o lado bom, que é o lado deles já terem muita experiência, deles já estarem consolidados na liga e eles poderem passar um pouco do ensinamento deles para vocês. Mas tem um lado mais complicado, que você tem que entrar e contribuir imediatamente para eles, porque para você estar dentro da quadra com caras desse calibre, você tem que render, você tem que ir ali e fazer coisas que nenhum outro jogador quer fazer, porque independente de tudo, quem vai estar dentro da quadra ali para ajudar eles é você. Então, você tem que render muito, muito mesmo.

O Golden State Warriors é um dos times de maior torcida no Brasil, você imaginou que seria draftado por eles?

O Warriors é muito grande no Brasil, principalmente pela época em que eles estouraram. Foi na época que as grandes mídias e as redes sociais iam crescendo também. Isso acarretou que no Brasil tem muitos fãs dos Warriors, e eu acho isso muito bacana. Assim que eu fui draftado, eu recebi diversas mensagens, várias pessoas me seguindo, falando que era muito legal ver um brasileiro representando o país no time do coração deles. Isso com certeza dá aquela saudadezinha de casa também, do Brasil, daquela hospitalidade. Mas o trabalho aqui é importante, visando o futuro não só meu, mas da minha família também. Isso só me dá mais gás.

O Steve Kerr já fez parte de diversos super times […] então ele com certeza sabe de como as coisas funcionam e vindo de um moleque novo, de um moleque que está entrando no primeiro ano de liga, o que ele quer dele é só vontade

Gui Santos
Contra o Brooklyn Nets, Gui Santos esteve em quadra por 18 minutos e anotou 9 pontos e 5 rebotes. Foto: Icon Sport

Além de um time com Stephen Curry, Klay Thompson e Draymond Green, você está trabalhando para Steve Kerr, um dos técnicos mais vitoriosos da história da liga – e que também foi campeão como jogador, ao lado do Michael Jordan. Como assimilar o máximo de um supercampeão como ele?

O Steve Kerr já fez parte de diversos super times, já fez do supertime do Chicago, do Spurs, já fez do Warriors como técnico, então ele com certeza sabe de como as coisas funcionam e vindo de um moleque novo, de um moleque que está entrando no primeiro ano de liga, o que ele quer dele é só vontade que ele jogue bem, que ele entre sem errar na defesa, que no ataque ele continue mexendo a bola para a bola encontrar os melhores jogadores. Que no caso do nosso time é o Stephen Curry e o Klay Thompson, os caras que vão pontuar de uma maneira mais fácil.

E claro, temos que perguntar como é jogar ao lado de Stephen Curry. O seu lado fã apareceu?

Quando eu tive a oportunidade de receber uma assistência do Curry, foi como um sonho, né? Pra mim. Porque eu sempre assisti ele jogando. Desde 2014, quando o Golden State começou a despontar. Eu comecei a realmente assistir NBA por conta do Golden State. E logo, alguns anos depois, já estar aqui dentro da quadra com eles. E poder estar fazendo parte dessa história toda é muito bacana.

Já tomou alguma bronca do Draymond Green, como foi?

Não, graças a Deus nunca (risos) Sempre entreguei meu máximo em quadra. Na verdade, eu só ganhei elogios dele por ter entrado bem e espero que continue assim.

A NBA começou a temporada 23/24 com um número recorde de 125 jogadores internacionais, vindos de 40 países. Todas as equipes têm pelo menos um estrangeiro no elenco. Nos últimos 5 anos, os prêmios de MVP da temporada também foram para gringos (dois anos para Giannis Antetokoumpo, dois para Nikola Jokic e o último para Joel Embiid). Por que você acredita que chega de fora tem “dominado” a liga?

Os estrangeiros estão ganhando cada vez mais prestígio na NBA. Eu digo isso porque aqui nos Estados Unidos, desde pequenos, os jogadores são criados pra jogar um contra um. Mas quando você é estrangeiro e joga o basquete da FIBA antes de vir pra cá, eles te ensinam o que é o basquete realmente, como se deve jogar basquete. Acho que essa é a principal diferença entre jogadores que vêm de fora e jogadores que são criados para jogar aqui na NBA.

Nos Estados Unidos, desde pequenos, os jogadores são criados pra jogar um contra um. Mas quando você é estrangeiro e joga o basquete da FIBA antes de vir pra cá, eles te ensinam o que é o basquete realmente, como se deve jogar basquete

Não podemos falar de brasileiros e de Golden State sem mencionar Leandrinho Barbosa e Anderson Varejão, dois jogadores que fizeram parte de campanhas de título em San Francisco e justamente na época de maior visibilidade da história da franquia (Scott Machado foi outro brasileiro que passou por lá). O sarrafo é alto, que marca você quer deixar na NBA?

Eu quero fazer o mesmo, quero deixar meu legado aqui. E acho que a melhor forma de fazer isso é sendo campeão, então se eu puder fazer o que tiver que fazer dentro da quadra pra ajudar eles a ser campeão, eu acho que não tem nenhum legado maior que esse.

Gui Santos
Gui Santos durante jogo contra o Brooklyn Nets, da NBA. Foto: Icon Sport

Mas nem tudo são flores na ensolarada Califórnia. O Golden State Warriors hoje luta para se manter na zona de play-in. Klay Thompson, multicampeão, All-Star e futuro Hall da Fama, tem tido um desempenho inconstante e perdeu seu lugar na rotação principal. Com isso, Gui Santos, Jonathan Kuminga e Brandin Podziemski têm ganhado cada vez mais espaço. Como está sendo esse momento interno de passagem de gerações?

Isso é importante para o futuro da geração, porque os jogadores que eram supertime já estão ficando um pouco mais velhos e já já eles vão, como todo jogador no planeta Terra, uma hora tem que se aposentar do esporte que joga. E isso é importante porque vai abrir novo espaço pra gente, pra gente mostrar um pouco mais. Mas por enquanto é só aproveitar, jogar ao lado desses caras, porque com certeza é uma honra.

Eu vim pra criar minha própria marca, pra mostrar o que eu sou capaz de fazer dentro de quadra.

Para conquistar espaço de vez nessa rotação depende muito de jogo pra jogo. Às vezes um jogo precisa mais de alguém que chute mais a bola, ou alguém que defenda mais, ou alguém que seja mais infiltrador, que seja mais criador de jogadas. Depende bastante, eu acho que é uma coisa que aos poucos eu vou ganhando mais confiança e mais confiança dos treinadores, para quando eles precisarem, independente do que for que eles precisem de mim, eu estar dentro de quadra para poder ajudar.

Podziemski disse que ele se considera o mini Draymond Green. Você se compara com alguém do elenco?

Na verdade, eu me denominaria como o Gui mesmo. Eu vim pra criar minha própria marca, pra mostrar o que eu sou capaz de fazer dentro de quadra. É isso.

Escrito por Eduardo Barão
Eduardo Barão é jornalista, radialista, escritor e palestrante brasileiro, com mais de 20 anos de experiência. Atualmente, é correspondente internacional do Grupo Bandeirantes de Comunicação nos Estados Unidos. Apaixonado por esporte, cobriu nos ginásios as últimas finais da NBA.