NFL

Running backs em 2015: mais desvalorizados que a Petrobras

Virou comum se discutir o estranho cenário da posição de running back na NFL. Esta semana tivemos três notícias que me chamaram a atenção a ponto de fazer este post e apelar no título: a aposentadoria de Maurice Jones-Drew, a troca chocante de LeSean McCoy e os Cowboys deixarem DeMarco Murray testar o mercado.

As razões para um running back ser uma das peças que treinadores e general managers mais estão dispostos a abrir mão são conhecidas: auge rápido, carreira curta e grande disponibilidade no mercado. Isso puxa o preço para baixo, é claro, mas chegamos a um ponto em que há uma clara distorção. Explico.

Coitado do Murray

DeMarco Murray foi vital para a campanha do Dallas Cowboys na temporada 2014/15. Claro que ter uma boa linha ofensiva ajuda, assim como um quarterback de alto nível, que faz o jogo terrestre não ser previsível. Mas futebol americano é um jogo coletivo, óbvio que o desempenho de um atleta dependerá de uma série de fatores. Uma certeza é que um running back na média, digamos, Chris Ivory, entrasse no lugar de Murray, os Cowboys teriam uma queda relevante na produção ofensiva.

Pois bem, 1.845 jardas terrestres, 2.261 da linha de scrimmage e 13 TDs vieram ao preço de 1 milhão e meio de dólares. Sabe qual é o equivalente a isso no nosso mundo real? Um salário de 1.500 reais como pessoa jurídica. Para os padrões da NFL, Murray é um boliviano trabalhando no Brás. E ele produziu tudo isso. Mas agora ele está sem contrato, com 27 anos. Vai ganhar muito, certo? Errado. Provavelmente errado na verdade, sempre tem um time imprevisível.

O fato de Murray ter corrido tudo isso pode jogar contra ele, já que o impacto no corpo foi grande. Tanto que ele teve uma lesão na mão, que não o impediu de jogar, mas foi uma preocupação para um jogador que nunca tinha feito os 16 jogos de uma temporada por causa de lesões. E com 27 anos, nenhuma equipe vai se arriscar a dar muito dinheiro garantido para um running back, já que a carreira dele pode estar nos últimos estágios.

Quer um exemplo? Maurice Jones-Drew em 2009/10, 2010/11 e 2011/12 pelo Jacksonville Jaguars correu para 1.391, 1.394 e 1.606 jardas. Antes da temporada 2012/13 ele fez uma greve e só se apresentou à franquia em setembro. Depois daquilo foram dois anos medíocres em Jacksonville e um em Oakland. Nesta quinta-feira (5), ele anunciou sua aposentadoria aos 29 anos.  Não tinha mais gasolina no tanque.

É fácil explicar porque a carreira acaba tão rápido. O running back sempre levará porrada. Você pode me dizer “ah, isso não é verdade, os linhas ofensivas e defensivas que sempre estão se agredindo nas trincheiras”. Sim, de fato. Mas o RB quando não está correndo a uns bons quilômetros por hora e é derrubado de todas as formas possíveis por homens muito mais fortes, está bloqueando justamente esses homens. É algo descomunal sobre o corpo. Por isso não é improvável que a temporada passada de Murray seja como a de 11/12 para Jones-Drew e o contrato para garantir sua aposentadoria, com uns 20 milhões garantidos, não venha nunca. Aliás é provável que ele entre no mercado, não veja uma proposta realmente animadora e volte para Dallas para um acordo bastante benéfico para a equipe.

Pobre LeSean

Com isso chego em LeSean McCoy. Ele é um dos últimos running backs realmente valorizados. Ele correu para quase três mil jardas nas duas últimas temporadas. Ninguém questiona a qualidade e atleticismo dele. Nem Chip Kelly. Mas isso não impediu que ele fosse trocado para o Buffalo Bills. E o mais impressionante não é isso. Com certeza a direção dos Eagles ligou para diversas equipes com a pergunta “ei, estamos interessados em negociar McCoy. O que você oferece?”. E a melhor resposta foi um linebacker, que apesar de extremamente talentoso, jogou apenas uma temporada na liga, porque a segunda ele perdeu com uma lesão no joelho. Não me entenda mal, Kiko Alonso é bom e pode ser ótimo, mas é uma aposta. McCoy é um dos melhores atletas da liga. Comprovado. Só que baterá 27 anos em julho, seu contrato era grande e segundo informações de repórteres, Chip Kelly acha que em seu sistema outro running back, mais incisivo e “trombador” (nunca pensei que usaria esse termo em um post sobre futebol americano), pode também render bastante.

Transição

Ou seja, o cenário é de total transição. Os últimos running backs estrelas com grandes contratos estão saindo de cena, seja por erros extracampo (Adrian Peterson, 7 anos, US$ 100 milhões, US$ 30 milhões garantidos), queda de rendimento  (Chris Johnson, que assinou um contrato de 30 milhões garantidos e hoje nem time tem) ou porque estão ficando velhos (Arian Foster fará 29 em agosto, Frank Gore 32 em maio e Matt Forte 30 em dezembro).

O mais surpreendente para mim é Marshawn Lynch, talvez o melhor da posição hoje. Qualquer Zé sabe a importância dele para Seattle: se ele não é o mais importante dos Seahawks, ele é o mais importante que não se chama Richard. Vide a lamentação por ele não ter sido O CARA quando todo mundo pensava que ele seria O CARA no 1º dia de fevereiro deste ano. Pois bem, Lynch começou a temporada em uma mini-greve para aumentar seu salário de 5 milhões. No final aumentou. Para 6,5. Menos da metade que Percy Harvin e menos que o tight end Zach Miller, que acabou renegociando, estavam previstos para ganhar.

Uma boa exceção é Jamaal Charles, que assinou uma extensão em 2014. Mas dá para justificar. O ataque dos Chiefs quando avança é basicamente por causa do hómi. O time passou a última temporada inteira sem um TD de wide receiver. E ele é uma ameaça constante recebendo a bola, algo que os running backs cada vez mais farão para continuar nos elencos.

A liga ainda não está no modo “usa e dispensa” dos Patriots na posição e agora o mais interessante será observar como Le’Veon Bell (1,1 milhão em 2015), Eddie Lacy (925 mil em 2015) serão tratados por Steelers e Packers, respectivamente.  Ambos poderão renegociar seus contratos apenas ao fim da próxima temporada por causa do acordo feito entre clubes, NFL e jogadores em 2011. Talvez seus melhores anos estejam acontecendo agora. Uma lesão séria, por exemplo, vai tirar a chance deles receberem um contrato grande. E no momento que a liga passa, a chance é que mesmo esse contrato grande venha com menos dinheiro garantido que viria para jogadores de outras posições e com uma série de metas a serem cumpridas.

Outro elemento que joga contra é o fato que não dá para ir direto do colégio para o profissional – medida que muitos jogadores da NBA adotaram nos anos 90 e hoje proibida – ou sequer entrar na liga depois de apenas um ou dois anos na universidade (o mínimo é três desde que saiu do ensino médio). E quando conseguem entrar nos profissionais, recebem salários “modestos” até o fim do terceiro ano, mesmo que a produção seja alta.

Como mudar (se é que tem como mudar)

Talvez uma boa proposta no próximo acordo entre todas as partes envolvidas seja deixar que RBs renegociem seus contratos já depois da segunda temporada, antes que os outros jogadores. Não proporia nada nem escreveria um texto com “dó” de marmanjos que ganham mais do que eu só porque eles ganham um milhão ao invés de oito. Mas neste momento, running backs, por causa de uma restrição impensada, estão sendo claramente prejudicados e jogando por muito menos do que deveriam devido à importância que eles têm para suas equipes. Eles ainda não são fullbacks.

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