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Redzone: contratos na NFL, a queda da classe média e possíveis soluções

contrato Earl Mitchell 49ers

Crédito: Twitter/reprodução

Falar de contratos é tão sexy como uma ratazana saindo do restaurante árabe onde você acabou de comer um kebab. Principalmente na NFL, saber como contratar um jogador sem maltratar o teto salarial de seu time é uma arte que, de todos os 32 general managers, apenas alguns sabem.

Eu não vou dar notas para os times na free agency, como muitos gostam de fazer, e eu não tenho nada contra que eles façam. Mas assim como dar notas em relação a como um time draftou, pontuar o desempenho agora é uma ciência mais do que inexata.  Eu pensava que os Giants estavam fazendo uma cagada homérica em pagar US$ 62,5 milhões, com US$ 28 milhões garantidos, por Janoris Jenkins na offseason de 2016. E ele calou a minha boca, pelo menos no primeiro ano.

Tá bom vai, falarei de dois:

  • Matt Kalil por cinco anos, US$ 55 milhões, com US$ 31 milhões garantidos, parece uma insanidade. Boa sorte, Panthers!
  • E como já tinha dito na semana passada, Robert Woods por US$ 34 milhões, com US$ 15 milhões garantidos, é uma loucura. E mais loucura ainda quando você vê que os principais wide receivers do Los Angeles Rams são ele e Tavon Austin. Por enquanto…

Ok, agora voltarei com minha postura sóbria.

Os contratos na NFL são uma coisa horrível

Quem acompanha o Quinto Quarto há mais tempo sabe que falo de forma igual de NBA e NFL. E cada vez que chega a free agency da segunda, eu fico triste por não ser como a primeira. Nesta temporada até que a diferença diminuiu, com o Houston Texans e o Cleveland Browns fazendo uma típica troca que acontece na liga de basquete: “você aceita o contrato horroroso que fiz com este jogador e ganha em troca uma escolha de Draft”.

Mas a confusão que são os contratos da NFL é algo difícil de explicar e algo que eu realmente acho que machuca os jogadores.

Escuta, eu vou ser o último a dizer que tem que rolar uma canetada à la Getúlio para que jogadores devam receber X, Y ou Z, sem falar com os donos e ainda chamar eles de exploradores. Porém, o que acontece hoje na NFL machuca o jogo em campo. E eu explico o porquê.

Tyrod Taylor era reserva em Baltimore quando ganhou uma chance de ser titular no Buffalo Bills e agarrou essa oportunidade. Ninguém pensa em Tyrod Taylor como um gênio do esporte, mas foi bem em sua primeira temporada na franquia e assinou uma extensão de contrato de seis anos e US$ 92 milhões em 2016.

O que isso significa? Posso ir pedir US$ 30 milhões para ele? Nem tanto.

Sua segunda temporada, na qual ele ganhou US$ 9,5 milhões, um salário de reserva na NBA, foi bem pior. Mas tudo bem, ainda tem mais cinco anos, né? Não. Os Bills colocaram no contrato que em 2017 poderiam rever o acordo e rasgar se necessário. Não rasgaram porque Taylor não é horrível e o mercado não está bom para QBs. Vitória para Taylor e US$ 27,5 milhões na conta (15 milhões de bônus e 12 milhões de salário)? Não também.

Ele teve que aceitar uma reestruturação de seu contrato, já que os Bills até estariam dispostos a cortar ele, mesmo com a falta de quarterbacks disponíveis, já que o pagamento seria muito caro em 2017 e também 2018. Em vez de US$ 40 milhões somados, ele aceitou um desconto de 25%, ou US$ 10 milhões. E o jogador aceitou porque ele não acharia muita coisa no mundão da NFL, ou pelo menos algo melhor que US$ 30 milhões e uma vaguinha de titular em Buffalo.

Com certeza eu não vou passar um saquinho na próxima missa para Tyrod ou iniciar um crowdfunding de algum tipo, mas a verdade é que a free agency da NFL não passa de um engodo com seus valores. Todos os contratos têm mais saídas que a marginal Pinheiros e quase todas elas favorecendo os times. Não é como na NBA, que um contrato ruim vai te perseguir pro resto da vida. Na MLB, também é assim. Basta ver o caso de Alex Rodriguez.

E, além disso ser chato para os jogadores, é chato também para a liga e torcedores. É sempre bom saber que erros vão custar caro e que podem prejudicar uma equipe, em vez de sempre ter uma saída fácil que favorece as franquias e apenas as franquias. Novamente, não estou aqui hasteando a bandeira da União Soviética, mas apenas pedindo clareza e para que os burros sejam punidos por burrices.

Como disse, sou contra a solução da canetada da NFL. Acho que a mudança deve partir do indivíduo. No caso, os jogadores. Quando o contrato de calouro de Russell Wilson estava acabando, surgiram boatos que o quarterback tentaria que todo o dinheiro ou uma grande parte dele fosse garantido. No fim, não foi 100%, mas dos quatro anos que ele assinou, por US$ 87,5 milhões, tem dinheiro garantido até o último ano e a soma de garantidos chega a US$ 60 milhões.

O contrato de Wilson representa o exemplo em que, sim, você pode encher a boca para falar que é UM CONTRATO. O de Taylor nem tanto.

Nesse caso, os grandes vão ter que puxar os menores, porque o que acontece hoje está acabando com a classe média da NFL.

A classe média da NFL

A classe média sofre mais na NFL que nas mãos da Marilena Chauí. Vou deixar claro já que odeio quando pessoas veem intelectualizar o que acontece na NFL com o que deveria acontecer no mundo real e dizer que a liga americana é uma espécie de socialismo. A liga é capitalista até o osso e essa é uma das razões para o sucesso dela.

Quando falo em classe média, me refiro aos jogadores que não são estrelas, mas não aos que devem sumir em um ano de liga. Danny Amendola é classe média. E os Amendolas da NFL são completamente ferrados pelo acordo coletivo atual.

Muitas pessoas trataram desse assunto, como o jornalista americano Peter King (MMQB) mais recentemente e o site The Ringer há alguns meses bate na mesma tecla. Eu também falei disso e concordo 100% com a teoria que o New England Patriots é sempre favorito porque mantém sua classe média. E os Browns o exato oposto.

Pois bem: na NFL atual, para ficar dentro do teto salarial, você sempre tem que fazer escolhas. E o custo de oportunidade é algo que tem que ser completamente entendido pelos dirigentes. Aplicando o custo de oportunidade de modo meio tosco para a liga de futebol americano, caso você gaste 20 com um wide receiver bom, mas não ótimo, você deixa de gastar 20 com dois defensores, dois recebedores jovens, enfim.

E essa é a grande questão: porque os calouros vêm com um contrato pré-definido por quatro anos, com uma opção de um quinto ano com preço também pré-definido, sempre vale a pena cortar o veterano e substituir por um jovem ou dois e ver no que dá. Não é à toa que cada vez mais calouros e segundo anistas ganham importância nos elencos logo de cara. Não é coincidência que os primeiros jogos da temporada são ruins: todos os times têm muitos novatos que ainda estão aprendendo o jogo profissional e cometem erros básicos.

Ezekiel Elliott, por exemplo, ganhou um salário de US$ 450 mil em sua primeira temporada. Isso é uma bênção para Jerry Jones. Ao fim de seu primeiro contrato de calouro, que dura quatro anos, ele terá ganhado US$ 24 milhões, um troco para o que ele representa e gera. E quando for negociar seu primeiro contrato “de verdade”, é um tesão estar do outro lado, porque você pode jogar com o argumento: “você é um running back, já tomou um monte de pancada. Quem disse que seus melhores anos não ficaram para trás?”.

Dá para entender por que calouros chegam com valores já fechados. Nem sempre foi assim e algumas barbaridades aconteciam. A maior delas foi Sam Bradford não ter jogado um snap pelos Rams e ter um contrato de US$ 50 milhões garantidos. Sim, quase o mesmo que Russell Wilson ganhou em seu segundo contrato como profissional, depois de ter chegado a dois Super Bowls e vencido um.

Um meio-termo tem que ser encontrado no próximo acordo coletivo. Para apagar essa canetada, vai precisar de outra, infelizmente. Mas não adianta compensar para o outro lado: caso assinar um veterano valha mais a pena que assinar um calouro, a liga não terá mobilidade, muitos jovens perderão oportunidades de vida e carreira ao sair da universidade e teremos mais casos no futuro de ex-jogadores com problemas cerebrais, já que eles vão jogar mais e estar mais expostos a pancadas e concussões.

Ai sim há uma grande similaridade com o mundo real: uma mudança da NFL/governo em uma lei/cláusula pode ter alterações das mais loucas possíveis.

Hoje, o fato de calouros ganharem tão pouco em comparação com o resto faz os veteranos serem vistos sempre como dispensáveis e a negociação por um segundo/terceiro contratos é sempre desfavorável, com pouco dinheiro garantido e muitos gatilhos de produtividade.

A NBA tem um modelo muito mais interessante. E por isso a janela de transferências da liga de basquete é algo pelo qual vale a pena separar a pipoca.

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