NFL

Raheem Mostert e o dilema da posição de running back na NFL

Raheem Mostert, running back do San Francisco 49ers

Seis times em dois anos e o mesmo destino: a lista de dispensados. Essa foi a vida de Raheem Mostert entre 2015 e 2016.

Mas, no mesmo ano de 2016, ele desembarcou no San Francisco 49ers, onde sua vida no futebol americano profissional começou a mudar vagarosamente.

Em 2016, pouquíssimo tempo de jogo. Em 2017 e 2018, suas temporadas terminaram na lista de lesionados (injured reserve).

Mas então veio 2019.

Em março, ele assinou uma extensão de contrato de três anos com os Niners. Era a franquia californiana dando mais um voto de confiança ao jogador.

E ele respondeu participando pela primeira vez de todos os 16 jogos de seu time na temporada. O camisa 31 correu 137 vezes para 772 jardas e oito touchdowns, sendo uma arma importante no ataque liderado pelo quarterback Jimmy Garoppolo.

Membro de um time que terminou com 13-3 e a melhor campanha da Conferência Nacional (NFC), Mostert foi aos playoffs e, na vitória sobre o Minnesota Vikings, na rodada de divisão, foram 12 corridas para 58 jardas. O RB ainda conseguiu recuperar um fumble perdido pelo retornador Marcus Sherels, dos Vikings.

Mas foi mesmo no dia 19 de janeiro, exatos quatro dias atrás, que tudo mudou.

Free agent que entrou na liga em 2015 sem ser draftado, originário da Universidade de Purdue, Mostert deixou de ser o patinho feio. Foi na final da NFC que ele deixou de viver nas sombras.

Muitos jogadores da NFL vivem no escuro. Atrás de grandes astros como Tom Brady, Drew Brees e Garoppolo, há os jogadores que lutam a cada dia para se provar. Provar que merecem fazer parte de uma liga tão competitiva e tão volátil quanto a National Football League.

Mostert certamente fazia (ainda faz, na verdade) parte deste grupo.

Entretanto, ao menos por um jogo, ele viveu o sonho de todo jogador: estar no centro dos holofotes e colocar seu nome no livro dos recordes.

No triunfo por 37 a 20 sobre o Green Bay Packers, no Levi’s Stadium, Mostert foi o maior responsável pelo atropelo do seu time. O principal nome de uma classificação para o Super Bowl LIV.

O running back, nascido em Daytona Beach, na Flórida, correu nada menos do que 29 vezes para 220 jardas e quatro touchdowns.

As 220 jardas são um recorde dos 49ers em pós-temporada. E os quatro TDs terrestres o deixaram em segundo na história da franquia (atrás apenas de Ricky Watters) e empatado em segundo na história da NFL com LeGarrette Blount.

Também foi a segunda maior quantidade de jardas corridas na história dos playoffs da NFL (atrás apenas de Eric Dickerson, que correu para 248 em 1986).

Philadelphia Eagles, Miami Dolphins, Baltimore Ravens, Cleveland Browns, New York Jets e Chicago Bears. Os seis times que o chutaram como uma casca de banana jogada no meio da praça.

Mas não vamos aqui ser os videntes da desgraça já concretizada e falar: “tá vendo o que vocês fizeram, bando de idiotas?”.

De jeito nenhum. Afinal, igual a Mostert, vários running backs (e jogadores de outras posições) surgem todos os anos. E muito mais do que a metade sequer consegue se firmar na NFL. Vamos ser claros.

O que Mostert pode nos fazer refletir, na verdade, é como a posição de running back representa um verdadeiro dilema no futebol americano profissional.

Vamos mencionar brevemente o caso de Le’Veon Bell. Ele travou uma disputa com o Pittsburgh Steelers, boicotou toda a temporada 2018, não acertou o contrato que eles estavam oferecendo e preferiu testar o mercado.

O resultado? Contrato selado com o New York Jets. Com um valor inferior ao que ele teria acertado se tivesse permanecido nos Steelers.

Depois de ser um canivete suíço em um time com uma das melhores linhas ofensivas da NFL na última década, Bell sofreu em seu primeiro ano em Nova York, correndo para 789 jardas e três touchdowns e fazendo 66 recepções para 461 jardas e um TD. Todas essas marcas foram as piores de sua carreira profissional (tirando a temporada 2015, quando ele disputou apenas seis jogos).

Inegavelmente, a posição de running back está desvalorizada. A linha fatal dos 30 anos de idade vem se provando, ano após ano, que é real.

(Frank Gore, me desculpe por isso, mas você é uma das raras exceções…)

E caras como Mostert mostram que, na NFL da atualidade, talvez seja uma burrice completa despejar um caminhão de dinheiro em cima de um running back. Talvez seja até inteligente, do ponto de vista de negócios, encontrar um cara não draftado, saído de Purdue, e pagar um contrato de valores irrisórios para extrair o que for possível.

Se não der certo, mais uma dispensa. Infelizmente, é a vida dos running backs na NFL.

As exceções a essa regra talvez sejam os Christian McCaffreys e Derrick Henrys da vida. Mas até com eles todo cuidado é pouco na hora de avaliar. É muito mais fácil fazer o que eles fazem no início de seus 20 anos de idade.

A título de curiosidade, se pegarmos as estatísticas completas de Mostert em sua carreira profissional até agora, teremos isso:

  • 43 jogos em temporadas regulares;
  • 178 corridas;
  • 1069 jardas terrestres;
  • 9 touchdowns.

Isso sem falar nas 20 recepções para 205 jardas e dois TDs.

Em um mísero jogo de playoffs, o camisa 31 dos Niners correu mais de 20% do que ele havia corrido em toda a sua carreira. E anotou quase 50% dos TDs terrestres que havia feito até então.

Mas a NFL não vai ser mais boazinha com ele por isso. Se, no Super Bowl LIV, ele tiver mais uma atuação apagada e a isso se somar um training camp de pouco destaque em 2020, Mostert pode estar na fila de desempregados em agosto.

É a realidade nua e crua desta liga…

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