NFL

Qual Nick Foles veremos em Chicago?

Nick Foles, quarterback do Philadelphia Eagles

Não me lembro de um jogador que tenha sido Nick Foles antes de Nick Foles. Não existe uma carreira igual à dele.

Quarterbacks draftados na terceira rodada podem dar certo, claro. Mas Foles foi titular em alguns jogos no primeiro ano com Andy Reid e, no segundo ano, assumindo a posição depois da lesão de Michael Vick, teve números absurdos: 27 touchdowns, 2 interceptações (melhor proporção da história da NFL) e 119,5 de rating, terceiro melhor da história atrás de Aaron Rodgers e Peyton Manning.

Beleza, você já começou a ver que a carreira dele não é comum, já que conseguiu números de QBs draftados na primeira rodada e históricos. Mas, em vez de entrar nessa lista de mitos e se consolidar, Foles teve uma temporada seguinte bem “blé”, jogando oito partidas por causa de lesão e sem o mesmo impacto.

Tudo bem, uma temporada ruim todos têm. O problema é que nosso herói aqui saiu dos Eagles, foi péssimo nos Rams e acabou tendo que aceitar ser reserva de Alex Smith no Kansas City Chiefs. Queda astronômica.

Mas, mesmo assim, não estamos falando de algo único. Kurt Warner apareceu do nada, foi MVP, campeão, foi pros Giants, não jogou bem, foi para os Cardinals, comeu banco para Matt Leinart até finalmente voltar e quase ganhar mais um anel. Maldito Santonio Holmes.

Foles basicamente imitou isso. Ele voltou aos Eagles como reserva, assumiu a titularidade com a lesão de Carson Wentz, teve boas vitórias, chegou no Super Bowl, encarou Tom Brady de frente, destruiu a defesa dos Patriots e foi MVP do Super Bowl. Inacreditável.

Mas Warner não teve o ato seguinte, já que ele só jogou mais um ano depois da horrível derrota para os Steelers no Super Bowl. Sua carreira acabou com os Saints basicamente tirando sua alma em campo.

Foles continuou nos Eagles COMO RESERVA, mesmo tendo levado a equipe a seu único SB na história, assinou com os Jaguars, machucou-se logo de cara, voltou, virou reserva de Gardner Minshew III, um calouro escolhido na sexta rodada. Com um alto contrato, Jacksonville basicamente se livrou dele enviando-o para Chicago.

Enfim, usei todo este espaço de texto para dizer que Nick Foles tem uma carreira única. Já vimos casos de escolhas intermediárias se dando bem, já vimos jogadores terem uma boa temporada e depois despencarem, já vimos um atleta esquecido ascender e ser MVP do Super Bowl e já vimos um MVP do Super Bowl cair do penhasco. Mas ser tudo isso? Só vi uma vez.

Vamos para o texto agora.

Qual Nick Foles veremos em Chicago?

É óbvio que a resposta só pode ser “não sei”.

Foles começou bem a partida na semana 1 dos Jaguars até ter sua clavícula destruída. Sinceramente não dá para avaliar nada de sua volta depois de uma lesão tão chata e em uma equipe completamente disfuncional. Jacksonville tinha o vestiário mais insatisfeito da NFL.

Em Chicago, há uma certa estrutura. Sim, a franquia decepciona seus torcedores com maior frequência que a Juventus é campeã italiana, mas dois anos atrás era uma das forças da NFC. A equipe tem playmakers dos dois lados da bola e um treinador competente. Matt Nagy, aliás, foi parte da comissão técnica de Andy Reid nos Eagles e nos Chiefs. Mesma coisa que Doug Peterson, que treinou o QB nessas duas paradas e tirou o melhor de seu jogo na Filadélfia naquela conquista mágica.

Ninguém aguenta mais Mitch Trubisky, nem o próprio Trubisky. Não sabemos se ele perderá a posição no training camp ou se vai precisar rolar vaias e torta de climão no Soldier Field. É só uma questão de tempo.

Mas e as armas? O corpo de recebedores é bom. Allen Robinson é obviamente o cara depois de uma temporada de 1.147 jardas e sete TDs. Veremos se Ted Ginn tem alguma gasolina no tanque depois de participar dos ataques insanos de New Orleans. Anthony Miller é uma dúvida no slot. Falando em quanto resta a apresentar para um veterano, Jimmy Graham agora é um Bear. Dá para ficar empolgado? A equipe ainda draftou o tight end Cole Kmet na segunda rodada e tem mais 15 TEs no elenco.

Já entre os running backs têm David Montgomery – 889 jardas e seis TDs como calouro – e o canivete-suíço Tarik Cohen. É um bom duo.

Tudo beleza, mas Foles já provou que não é tanto os skill players que importam. Os Eagles tinham bom jogadores, mas nenhum gênio. O lance era a linha ofensiva, uma apelação completa com Brandon Brooks, Jason Kelce e Lane Johnson sendo basicamente isolantes térmicos.

Em Chicago, não será a mesma coisa. O próprio GM, Ryan Pace, disse que o setor decepcionou em 2019. Germain Ifedi foi trazido para uma posição que teve Kyle Long, um monstro quando saudável. Ifedi não deixa muitas saudades em Seattle. Bobby Massey se lesionou na temporada passada. Charles Leno Jr. caiu de rendimento. Cody Whitehair, Pro Bowler em 2018, mudou de posição (center pra left guard) e desmudou depois. Ou seja, foi uma bagunça.

E, para mim, aqui está um grande segredo de como será a vida de Foles em Chicago.

A lesão na clavícula é sempre complicada de superar, mas não destrói uma carreira como uma lesão no tendão de Aquiles, por exemplo. Apesar de tudo que ele passou, Nick Foles ainda tem 31 anos, a mesma idade de Russell Wilson. Bem protegido, com um treinador que o conhece e sabe ordenhar o melhor de seus jogadores – difícil tirar algo da teta de Trubisky – Foles pode ter sido uma boa e subestimada contratação.

Mas, no momento em que ele precisar correr por sua vida, ser destruído por Anthony Barr e não ter tempo para achar Allen Robinson, esse ataque vai derrapar como derrapou em 2019, mesmo tendo boas peças.

Qual Foles veremos em 2020? Depende da linha ofensiva. Mas para não dar uma resposta “depende”, eu acho que ele vai parecer com o Nick Foles que acertou cinco de oito passes para 75 jardas pelos Jaguars, antes de sua clavícula ir para o espaço na semana 1 da temporada 2019.

Comments
To Top