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Opinião: Por que Bill Belichick é mais importante que Pep Guardiola

(Crédito: Instagram/Reprodução)

Nota do editor: este texto foi publicado originalmente no site Testosterona, em agosto de 2016.

Belichick e Guardiola são dois profissionais superimportantes em seus esportes. Mas vamos imaginar que temos que criar uma lista dos maiores treinadores da história dos esportes.

Para esclarecer, estou usando o termo treinador aqui, mas vou citar muito o processo de contratar um jogador. Estou ciente que existem dirigentes envolvidos e outras pessoas nessa área, mas tanto Belichick como Guardiola tem gigantesca influência no processo de escolha desse jogador. Vou continuar usando a palavra treinador, mas pode entender ela como manager (Vanderlei Luxemburgo aprova).

Como montar um elenco na NFL e porque Belichick se destaca

Eu vou recorrer sempre a uma comparação com Guardiola não porque odeio ele, mas porque com esse exemplo eu vou conseguir mostrar melhor meu ponto.

Quando Guardiola chega a uma equipe, ele pode reforçar ela de dois jeitos. O primeiro é entregando uma lista de reforços. Como o Barcelona, Bayern de Munique ou Manchester City cagam dinheiro, a possibilidade de ele ter esse reforço, ainda mais sendo um treinador de nome, é boa. Por mais que exista a lei do fair play financeiro na Europa, ela é muito menos restritiva que o teto salarial da NFL. Guardiola pode ver um jogo de Gabriel Jesus no Palmeiras, pedir ele e tê-lo no dia seguinte (no caso de Jesus, seis meses depois).

E a segunda possibilidade é a categoria de base de sua equipe. Especialmente no Barcelona, meninos do mundo inteiro querem jogar com a camisa de uma grife desse peso e poder ter seu nome gritado no Camp Nou.

Ou seja, são duas fontes bem definidas, e que como comandante de um grande time e ele mesmo sendo um atrativo, chamam craques para jogar na sua equipe. Ele pode liderar verdadeiros esquadrões da morte pelos gramados da Europa.

Na NFL existem essas mesmas duas fontes – mercado e “juventude” – mas funciona completamente diferente. Para começar pelo mercado, cada time tem um teto salarial. O do New England Patriots, quatro vezes campeão, é o mesmo do Houston Texans, criado em 2002 e que nunca chegou nem perto de um Super Bowl. Isso, obviamente, cria uma igualdade que no futebol nem se aproxima de existir. Você só pode ter um certo número de estrelas, já que elas custam caro.

E o pior: times campeões são quebrados pelo teto salarial. Imagina se o Barcelona do Guardiola tivesse um teto salarial e seus principais jogadores ficassem sem contrato? O time teria que escolher quem manter entre Messi, Xavi, Iniesta, Daniel Alves, Busquets e companhia. Isso, obviamente, impede que times bons fiquem bons por muito tempo.

Os Patriots, mesmo com o restritivo e punitivo teto salarial, foi, repito, seis vezes ao Super Bowl e quatro vezes campeão desde que Belichick assumiu o time em 2000 (desde que o texto foi escrito, a equipe chegou a mais um Super Bowl e ganhou). Nos últimos cinco anos a equipe chegou na “semifinal” do torneio, chamada de finais de conferência em todas as disputas.

Mas isso não é o mais louvável.

Os Patriots nunca tiveram como ideal ir ao mercado buscar jogadores e formar assim um elenco. E a maioria dos times vitoriosos também não. Eles se reforçam pelo Draft.

Os times da NFL não tem categoria de base. Os jovens jogadores fazem sua formação nos seus colégios e universidades. E quando chega a hora que eles podem virar profissionais, acontece o Draft, que nada mais é que um evento onde as 32 equipes selecionam seus atletas favoritos saindo da universidade para compor elenco.

O problema: os melhores times da temporada anterior selecionam por último em cada rodada. Então na primeira rodada do Draft, o primeiro time a escolher é o pior time da liga. E os Patriots, como tem um histórico de sucesso, sempre escolhem por último.

Então, para Guardiola e o Barcelona, não teria nada de Messi caso o Draft fosse instituído. Imaginando que o argentino tivesse ido para a Espanha estudar e viver, desenvolvesse seu futebol na sua escola, fosse para a universidade e chamasse a atenção – como ele chamava na categoria de base do Barcelona e quando ainda passando pela adolescência no time principal -, ele seria selecionado aos 22 anos pelo Sporting Gijón. E teria a função de levantar essa equipe.

Ou seja, Belichick sempre tem que se virar com menos. O Denver Broncos, campeão do Super Bowl 50, teve uma temporada horrorosa em 2010 e por isso ficou com a segunda escolha do Draft de 2011. Com ela selecionou Von Miller, que cinco anos depois era o melhor jogador do Super Bowl 50. A primeira escolha do Draft de 2011 foi do Carolina Panthers, também horroroso em 2010 e perdedor no mesmo Super Bowl 50; o escolhido foi Cam Newton, jogador mais valioso (MVP) da temporada 2015/16 da NFL.

É por isso que o futebol é tão estático na Europa e o futebol americano e sua NFL é uma montanha-russa. O Guardiola em seu Barcelona/Bayern/Manchester City tem o dinheiro para contratar quem ele quiser e ainda uma categoria de base que seduz todos os jovens do mundo. Belichick perde jogadores todo ano por causa de salários e só pode selecionar por último no Draft.

E aí que entra a genialidade do segundo. Ele selecionou Tom Brady, um dos melhores jogadores da história do esporte, na 199ª posição do Draft de 2000. Imagine isso no futebol brasileiro: bota, no ano de 2000, todos os jogadores nascidos em 1978 em uma sala. Trinta e duas equipes selecionam, uma por vez, um jogador. Depois de 198 escolhas, vai lá um time e seleciona o atleta que não só é melhor que todos os 198 anteriormente selecionados, mas melhor que basicamente todos que já jogaram futebol americano.

Por isso que Belichick é o melhor treinador da história de todos os esportes. Ele não só enxerga talento, monta o melhor esquema tático e é ultra-vitorioso. Ele tem sucesso todos os anos em uma liga que basicamente não permite isso. Imagina ele com um cheque em branco e as melhores promessas do planeta esperando sua ligação.

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