NFL

Opinião: eu errei na relação quarterback – Super Bowl

Nick Foles, quarterback do Philadelphia Eagles, segura o Troféu Vince Lombardi

Sinto que desde que começamos o Quinto Quarto, os textos que mais escrevi são sobre eu estar errado. Tem o texto que fiz logo após a aposentadoria de Tony Romo, um podcast com meus erros nas apostas esportivas em uma semana específica da temporada da NFL (que aliás é um dos podcasts nossos mais baixados no iTunes) e agora este. Hoje, o assunto é quarterback.

Pensando no banho sobre home…. refletindo sobre os últimos Super Bowls e a criação de times campeões por cada uma das franquias, eu notei que uma linha de pensamento que sempre usei nas minhas colunas na verdade tinha muitas exceções. O chavão “não se ganha Super Bowl sem um quarterback muito acima da média” é verdade e bastante usado em uma era onde 17.488 passes foram tentados contra 13.755 corridas na temporada 2017.

Mas como explicar que Nick Foles é o atual MVP do Super Bowl? E que Joe Flacco fez o mesmo há cinco anos? Que Colin Kaepernick chegou em um Super Bowl? Falar apenas “ah, eles pegaram fogo no momento certo” é até compreensível, mas sempre que algo é tão simples, você deixa espaço para mais questionamentos ainda.

Se a NFL é a liga dos quarterbacks, porque o melhor – ou segundo melhor, calma fãs dos Patriots – deles, Aaron Rodgers, só chegou a um Super Bowl e não disputa a grande final desde que a Dilma estava no seu segundo mês de mandato?

É muito simples e eu não estava vendo. Agora eu fui iluminado pela luz divina de Chad Ochocinco. E posso dizer que neste momento, tudo está claro.

Não é (só) ser um quarterback bom, estúpido

É ser um quarterback bom e “barato”. Então quando você for lembrar da entidade que possuiu o corpo de Joe Flacco, fazendo ele ter 11 passes para TD contra 0 interceptações, batendo Andrew Luck, Peyton Manning e Tom Brady em sequência, não pense só “como raios ele fez isso?”.

Pense no fato que ele foi um quarterback da NFL que recebeu US$ 6 milhões naquela temporada, o equivalente para nós mortais a 1200 reais e um vale-refeição de 12 reais. E por isso o time manteve por anos um dos melhores safeties da história da liga (Ed Reed), um dos melhores linebackers da história da NFL (Ray Lewis), pode trazer e pagar um cara como Anquan Boldin, manter uma boa linha ofensiva, enfim, montar um time. E assim possibilitar que Joe Flacco tenha sido o melhor Joe Flacco possível rumo a um anel de campeão.

Agora sabe porque os Ravens basicamente deixaram de ser um time TOP (a palavra TOP tem que ser escrita dessa forma, por ênfase) e Joe Flacco virou o Joe Fracco de sempre?

 

Joe Flacco contrato

Quando Joe Flacco recebe US$ 21 milhões de uma folha salarial de US$ 158 milhões (2017) e você ainda tem que pagar mais 52 caras, não dá para colocar tanta gente boa ao redor do camisa 5. E isso que o GM da franquia, Ozzie Newsome, é um dos melhores da posição. E vai sair. Calma fãs dos Ravens.

Enfim, para resumir, com Flacco recebendo tudo isso, o time corre o risco de não conseguir reposições no mercado e ao mesmo tempo perde outras peças importantes. Como perdeu o guard Kelechi Osemele, um dos melhores da NFL, na offseason de 2016.

Tem mais um exemplo claro dessa relação quarterback – Super Bowl

O Seattle Seahawks teve um dos melhores trabalhos de criação/reformulação/montagem de elencos que eu já vi. De time que não fazia muito sentido para defesa inacreditável (e insuportável de ouvir) e ataque que te punia passaram menos de três anos.

Talvez olhando para trás a gente até subestime o fato que eles pegaram o melhor ataque da história da liga em números, com Peyton Manning MVP, e simplesmente acabaram com a vontade deles de viver em pleno Super Bowl. E não só anularam até o espírito e alma desse ataque, como ainda enfiaram 43 pontos goela abaixo do outro lado.

Só que esse elenco tinha um sério problema. Além de ter alguns jogadores com muitos parafusos perdidos, a maioria desse talento estava em seu contrato de calouro.

Quando você lembra daquele time, você lembra de Richard Sherman, Earl Thomas, Russell Wilson, Bobby Wagner, Marshawn Lynch, certo? Pois bem, olha os maiores contratos daquela folha salarial.

Seattle Seahawks contratos

Hilário, não é? Nosso Brenão Giacomini recebia mais que o quarterback, um dos melhores safeties da NFL basicamente desde que pisou na liga (Thomas), um cornerback que foi 4x para o Pro Bowl e por aí vai.

É claro que isso não ia durar muito tempo. Os Seahawks escolheram pagar alguns desses e outros tiveram que sair. Max Unger foi trocado, Golden Tate logo recebeu um bom contrato dos Lions e vazou, o time não pagou Brandon Browner e essa foi basicamente a melhor decisão que um homem de negócios tomou em Seattle, cidade de Starbucks, Boeing e Microsoft.

E no momento que o time teve que pagar Russell Wilson o que devia, depois de anos trabalhando em regime de semi-escravidão para um QB da NFL, é claro que a equipe não vai conseguir ter o mesmo nível de talento que teve em 2012. No caso dos Seahawks, as personalidades fortes de basicamente todo mundo, incluindo o roupeiro, também não ajudaram.

Vou fazer o mesmo com os Eagles?

Não, não vou porque você já entendeu. Os Eagles conseguiram reforçar seu elenco de forma brilhante – trazendo Alshon Jeffery e Torrey Smith, pagando as estrelas de sua defesa – porque Carson Wentz está em seu contrato de calouro e Nick Foles recebe US$ 7 milhões. No momento que Wentz exigir seu contrato devido (free agent em 2021), pode ter certeza que a equipe vai ter que fazer várias escolhas. O valor de mercado hoje do camisa 11, segundo o Spotrac, é de US$ 24,6 milhões/ano, que faria dele o maior salário da franquia.

Miguel, seu imbecil, você esqueceu de um certo time

Não, seu idiota, não esqueci. No texto sobre contratos que fiz há quase um ano eu falei sobre como o New England Patriots mantinha sua classe média. E essa era uma clara razão para seu sucesso constante, aberrante e simplesmente impressionante (pega essas rimas).

Isso acontece porque Robert Kraft é Deus, Bill Belichick é um mago e eles dois fazem algo que ninguém além dele e eu vemos? Claro que si… não. Eles fazem isso porque Tom Brady quer ser o Papa de Boston e abre mão de salários há anos para o time poder trazer reforços. O maior cap hit de Brady em sua carreira foi US$ 19,75  milhões em 2011. Em 2017 o cap hit dele foi de US$ 15 milhões. O de Derek Carr no próximo ano será de US$ 25 milhões.

Agora, se Carr recebe US$ 22,5 milhões de salário + bônus em 2018, quanto Tom Brady mereceria? O faturamento anual do Facebook?

Só que se ele exigisse isso, Danny Amendola teria que achar uma casa em New Jersey e receber passes de Josh McCown, Stephon Gillmore provavelmente não teria ido para New England e Devin McCourty poderia ter sido seduzido por um time oferecendo muito mais na última offseason, não apenas “mais”.

A questão não é ter um dos melhores quarterbacks da liga

Com certeza é muito mais fácil ganhar com Aaron Rodgers. Ou então ter um bom quarterback em excelente fase, como Matt Ryan ou até Matthew Stafford. Mas o lance não é ter um quarterback bom por US$ 25 milhões/ano. É ter um quarterback bom sendo pago abaixo do mercado, para você poder escolher a dedo na free agency e pagar seus melhores jogadores de defesa e de linha ofensiva. É ordenhar cada centavo de um contrato positivo apenas para o time e espremer o jogador até ele virar um bagaço.

É por ter dado um contrato de US$ 120 milhões para Joe Flacco que os Ravens só foram uma vez para os playoffs nos últimos cinco anos, mesmo com Newsome continuando fazendo bom trabalho. É por isso que o Seattle Seahawks coloca linhas ofensivas nojentas em campo e mesmo com Russell Wilson salvando a lavoura muitas vezes, o time perdeu força. É por isso que o Oakland Raiders vai torcer e muito para o teto salarial continuar aumentando para não se arrepender de dar a Derek Carr uma porcentagem tão grande de sua folha.

E é por isso que o San Francisco 49ers e o Cleveland Browns limparam absolutamente sua folha e até tem como pagar o novo preço que os quarterbacks cobram (US$ 20-25 milhões/ano) e ainda reforçar seu elenco, mas essa estratégia pode criar sucessos apenas de curto prazo e não uma dinastia.

Vamos imaginar que os Niners draftam muito bem em 2018 e ainda trazem boas peças para complementar Jimmy Garoppolo na free agency. O contrato do QB já está valendo para a próxima temporada e os contratos de calouro são obviamente limitados por tempo. Daqui a quatro anos, cinco anos, todas as boas escolhas no Draft precisam receber (como aconteceu com os Seahawks) e a equipe não vai mais draftar tão alto porque melhorou de desempenho. Vai chegar a hora de ter que escolher entre seus melhores jogadores para ver quem fica, perder disputas na free agency para equipes com mais dinheiro disponível e ter que draftar bem em rodadas baixas.

Por isso que o New England Patriots ter conseguido estabelecer essa classe média e Tom Brady se sujeitar a receber menos – ter uma esposa que ganha o mesmo que ele também ajuda a pagar as contas – é tão genial quanto o sack de Dont’a Hightower em Matt Ryan, a recepção de Julian Edelman e a interceptação de Malcolm Butler.

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