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Josh McCown: o quarterback que todos deveriam (mas não vão) lembrar

Josh McCown, quarterback da NFL

“Average”. Essa é uma palavra em inglês que se refere exatamente a mediano, na média. Aquela nota 5, sabe? É o que deveríamos caracterizar como “medíocre” em português, palavra que ganhou uma conotação diferente no uso no cotidiano aqui no Brasil. E, se abrirmos o dicionário Aurélio na palavra “mediano”, lá estará uma foto de Josh McCown.

Mas isso não é uma crítica. Nem de longe. Calma, eu vou explicar aonde quero chegar.

McCown anunciou sua aposentadoria da National Football League nesta segunda-feira (17), depois de 17 anos dedicados ao futebol americano profissional. O dia 17 de junho não poderia ter sido mais perfeito com essa coincidência de números.

Em um belíssimo (belíssimo mesmo) texto publicado no site ‘The Players’ Tribune’, o quarterback falou sobre sua decisão de pendurar o capacete e dizer adeus à NFL. E sugiro que você leia o artigo completo.

Enfim, McCown em campo foi o típico average QB. Em 17 anos se dedicando à liga, ele disputou 99 jogos de temporada regular (76 como titular) e acertou 60,2% de seus passes para 17.707 jardas, 98 touchdowns e 82 interceptações. Seu passer rating na carreira é de 79.7.

Para quem não acompanha futebol americano há tanto tempo, esses números são a definição perfeita de… medianos.

Mas McCown, agora quase com 40 anos de idade, não é um jogador que merece ser resumido a estatísticas. Não seria algo justo com ele.

Ele foi o que chamamos de jogador rodado aqui no Brasil. Ou “journeyman” lá nos Estados Unidos, rótulo que ele mesmo admite aceitar em seu lindo artigo.

A caminhada começou no Arizona Cardinals, time que o selecionou na terceira rodada do draft de 2002, com a 81ª escolha geral. Lá ele ficou até 2005. E ainda houve mais nove times na NFL: Detroit Lions (2006), Oakland Raiders (2007), Miami Dolphins (2008), Carolina Panthers (2008 e 2009), San Francisco 49ers (2011), Chicago Bears (2011 a 2013), Tampa Bay Buccaneers (2014), Cleveland Browns (2015 e 2016) e New York Jets (2017 e 2018).

(Pausa para meus dedos descansarem).

Fora esses 10 times na NFL em 17 anos, ele também teve uma breve passagem em 2010 pelo Hartford Colonials, time da extinta United Football League (UFL).

E McCown teve um impacto nessas equipes que extrapolou os números em campo. Ele foi um jogador que não disputou uma partida sequer de playoffs, mas que contagiou a todos com sua ética de trabalho. E profissionalismo extremo.

As palavras que o ex-defensive end Chris Long, outro recém-aposentado, direcionou a McCown em um tweet depois do anúncio da aposentadoria do QB resumem muito bem tudo isso: “aposentadorias acontecem durante todo o verão e, com certeza, Josh McCown teve uma carreira de DEZESSETE anos que eu respeito muito. Eu principalmente admirava sua resistência (ele podia tomar uma pancada do melhor deles) e sua postura franca sobre problemas que não afetam ele. A NFL precisa de mais como ele. Parabéns, irmão”.

McCown, infelizmente, será aqueles QBs esquecidos por muitos. No final deste ano já é capaz que muitos não se lembrem dele.

É o que acontece com muitos que não enchem as folhas de estatísticas com passes para TDs (e os bolsos de dólares). Mas ele merece muito mais!

O (mais recente) camisa 15 dos Jets passou a maior parte de sua carreira como aquele quarterback de transição. O famoso ‘tapa buraco’ para times que não tinham um franchise quarterback à disposição naquele momento.

Franchise QB, aliás, que é uma alcunha que McCown nem chegou perto de beliscar durante sua caminhada na NFL.

Mas ele foi aquele cara que serviu como mestre de muitos QBs. E que conheceu uma imensa quantidade de playbooks ao redor da liga. Por esse mesmo motivo é que seu conhecimento do futebol americano deve ser imenso. Para nosso azar, não é possível mensurar isso de maneira exata.

McCown teve o melhor ano de sua carreira em 2017, quando disputou 13 jogos com a camisa dos Jets e acertou 67,3% de seus lançamentos para 2.926 jardas, 18 touchdowns e nove interceptações. Ele foi eleito por seus companheiros o MVP do time, mesmo tendo perdido os últimos três jogos devido a uma fratura na mão.

Mas, já em 2018, ele perdeu sua vaga de titular na pré-temporada para o jovem Sam Darnold, selecionado com a terceira escolha geral do draft daquele ano. E voltou ao posto que lhe foi peculiar durante sua caminhada.

Retornou à sua função não-oficial mais nobre: a de professor.

Os Jets sempre gostaram de ter McCown por causa de sua atitude pouco egoísta e disposição para ensinar os jovens QBs. E foi por isso que o time nova-iorquino deu um contrato de um ano, com valor de US$ 10 milhões, a ele em março de 2018.

Foi um “dinheiro bem gasto”, como observou Christopher Johnson, CEO do NY Jets.

McCown não merece ser comparado a Tom Bradys, Peyton Mannings e Joe Montanas. Nem vamos entrar nesta discussão.

Nem mesmo merece ser comparado a outros QBs medianos da NFL como Tony Romo, Joe Flacco e Alex Smith.

Mas ele é um QB que merece ser mais lembrado do que será. Um cara que demonstrou vontade nos jogos em que as lesões não o impediram de entrar em campo. Um atleta de cara limpa, sem marketing e simples de tudo.

Um cara de uma cidade pequena que conseguiu entrar na NFL. E, mais do que isso, que conseguiu jogar impressionantes 17 anos na maior liga esportiva dos Estados Unidos. Não é mesmo para qualquer um.

Um rapaz que chegou ao futebol americano aos 22 anos e sai de lá perto de completar 40.

E um cara cujos 17 anos serão esquecidos em 17 segundos por muitos.

Agora, McCown se prepara para uma carreira de comentarista de NFL na ‘ESPN’ dos Estados Unidos. E o caminho natural para ele será o de treinador de quarterbacks no futuro. Seria uma injustiça não ter um cara desse como mentor nas sidelines.

Foi mesmo uma “baita de uma jornada”, como você mesmo disse, Sr. McCown…

 

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17 seasons. 10 teams. @joshmccown12 announces his retirement from the NFL. 👏 📷: AP

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