NFL

Derrick Henry e o drama do running back em 2020

Derrick Henry, running back do Tennessee Titans

Acho que tem poucos assuntos sobre os quais eu escrevi mais no Quinto Quarto do que running backs e seus contratos. Lá em 2014, publiquei um texto com o título “running backs, mais desvalorizados que a Petrobras“, que não só continua atual como ainda lembra de um período histórico da nossa estatal de petróleo. Palmas para mim (estou sendo irônico, pode me xingar).

Enfim, aqui estamos, 2020, Derrick Henry e o Tennessee Titans passaram de não devem fechar um acordo – e nós publicamos essa informação – para casados por, pelo menos, dois anos. O contrato, segundo Adam Schefter, da ‘ESPN’ americana, é de quatro anos, US$ 50 milhões de dólares, com US$ 25,5 milhões garantidos.

O futebol americano é um esporte difícil de entender os contratos e cada posição tem os seus valores e seus poderes de barganha. Por exemplo, se você está começando no entendimento da NFL, é complicado explicar porque Derrick Henry, principal jogador do Tennessee Titans em 2019, vai ter um contrato de menor valor anual que Taylor Lewan (left tackle), Kevin Byard (free safety), Malcolm Butler (cornerback) e menos da metade que Ryan Tannehill (quarterback). Chris Jones, defensive linemen dos Chiefs, acertou um contrato com US$ 60 milhões garantidos ontem. Mais do que o dobro do que a estrela dos Titans.

E pior: Derrick Henry ainda precisa comemorar.

Os últimos anos foram de completas novelas quando chega a hora de dar um segundo contrato para um running back. Veja bem, eles seguem importantes para o sucesso de uma equipe, por mais que não sejam mais as estrelas absolutas que eram nos anos 60 a 80 (nível Barry Sanders, Jim Brown, Walter Payton etc). Os ataques hoje são mais aéreos, sem dúvidas, mas ter um running back de 1.000 jardas por temporada e que ainda possa receber passes é uma commodity.

O problema dos running backs é o contrato de calouro, que faz os atletas entrarem na liga e jogar por pelo menos quatro anos por um custo reduzido em relação ao que eles conseguiriam no livre mercado.

Sim, nós brasileiros não devemos ter pena que Derrick Henry recebeu US$ 5,4 milhões por quatro anos de trabalho. Convertendo para o real atual isso dá, somados, o Palácio da Alvorada, o Edifício do Itamaraty (a coisa mais linda que você pode ver no Brasil) e o MASP de troco.

Só que, comparado aos outros jogadores, Henry já tem no seu corpo o impacto de 804 carregadas, isso sem contar bloqueios, treinos e 57 recepções, muitas delas terminando com ele no chão, derrubado. O cara é um tanque de guerra, só que até um Panzer tem que se preocupar com o joelho, tornozelo, pé, costas…

O impacto que os running backs recebem é brutal, muito maior que quarterbacks e wide receivers. Você vê Drew Brees, Tom Brady, Philip Rivers, Ben Roethlisberger e teremos muitos mais desafiando os limites de idade, mas um Frank Gore é uma completa aberração.

Se uma carreira mais curta não bastasse para deixar os running backs tristes, ainda têm o fato que eles podem ser substituídos de forma mais fácil. O San Francisco 49ers chegou no Super Bowl LIV com Raheem Mostert deitando, mas durante a temporada dividiu espaço de forma igual com Matt Breida e Tevin Coleman (137, 123 e 137 carregadas, respectivamente).

O campeão Kansas City Chiefs abriu mão de Kareem Hunt, líder em jardas da NFL em 2017, e mal sentiu falta porque Damien Williams foi competente, com um belo jogo no Super Bowl. Williams custou na folha salarial US$ 2,7 milhões. Traduzindo: quase nada.

Por isso, toda offseason há pelo menos uma negociação com running back e time não concordando em um novo contrato. Le’Veon Bell é o caso mais icônico recente. O citado Mostert pediu para ser trocado porque não conseguiu acertar com os Niners um novo acordo.

Derrick Henry recebeu a franchise tag e junto com seus agentes foi esperto para entender que era melhor acertar logo um novo contrato do que jogar com a tag neste ano (por US$ 10,2 milhões). É uma boa ideia ter pelo menos mais um ano com dinheiro garantido do que prolongar algo que só poderia dar ruim (imagina se ele se lesiona em 2020?). 

Ele pode ter dois anos incríveis e depois continuar sendo ótimo? Sim. Mas isso não é nada provável. Só ver o histórico recente: Todd Gurley, David Johnson, DeMarco Murray e a lista continua. Triste situação dos running backs. Vamos nos unir em uma roda de lamentações porque Derrick Henry só tem US$ 22,5 milhões garantidos e não US$ 50 milhões.

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