NBA

Tropeçadas dos Lakers são mais uma prova de mérito de Steve Kerr e Bob Myers

lebron james lakers

O Los Angeles Lakers perdeu na segunda-feira para o Memphis Grizzlies, um time limitado que não esconde que perder é melhor que ganhar para conseguir uma boa escolha no Draft. A equipe californiana está em 11º no Oeste, com mais derrotas do que triunfos (29-31) e três vitórias atrás do San Antonio Spurs, por enquanto o oitavo e último na zona de classificação dos playoffs.

Mesmo que LeBron consiga acender o modo playoffs que ele disse ter dentro dele, dá para dizer tranquilamente que a temporada dos Lakers é um fracasso. E não digo isso nem porque pensava que a franquia ia voltar a brigar pelo título, mas por causa do ano de basquete ruim, turbulento e cheio de polêmicas.

E isso que LaVar Ball ficou basicamente calado durante toda essa trajetória turbulenta.

Com o cenário pintado, eu só consigo pensar em uma coisa sobre os Lakers: nós não valorizamos suficientemente Bob Myers, o GM do Golden State Warriors, e especialmente Steve Kerr, treinador da franquia.

“Que por$#$ de relação é essa, Miguel?”, você deve estar se perguntando.

Já respondo.

A dificuldade de fazer as “estrelas” jogarem

Nós estamos em plena era do empoderamento das estrelas de basquete. Os salários são absurdos e garantidos, diferentemente da NFL. Todos eles pensam na sua plataforma e no seu legado. Eles não jogam com um capacete na cabeça. A liga permite que eles falem, enterrem, reclamem e troquem de time.

Só que muito poder nunca é bom, mesmo que isso seja melhor que 50 anos atrás, quando donos faziam o que queriam. Esses atletas muitas vezes não sabem lidar com os holofotes, microfones, o poder de sua palavra e todas as benesses.

Ninguém pode falar do LeBron James atleta. O corpo dele é um trabalho meticuloso de anos e anos e seu envolvimento sempre parece ser superior ao dos outros. Tanto que já brincamos várias vezes sobre o LeBron GM e agora é algo a se preocupar o LeBron “agente”.

Mas podemos analisar e criticar o LeBron líder, que bate de frente com treinadores, que diminui atletas jovens e fala coisas na imprensa e Twitter que são passivo-agressivas. E também precisa ser cobrado pelo desempenho ruim do time, especialmente porque ele claramente se poupa na defesa em diversos momentos.

É muito legal ficar falando “tem que cobrar mesmo”, “fazer o povo entender o que é a camisa do Men..Lakão”… duro é pensar em como deve ser um pé no saco chegar para trabalhar e ter um cara que dá indireta a todo momento via imprensa e basicamente te colocou em um pacote para ser despachado para Nova Orleans.

É notório que o vestiário dos Lakers parece algo bastante distante de um grupo feliz e animado para entrar em quadra.

E isso dá para notar no comportamento dos atletas e também em como os jovens mais uma vez deram uma pausa na evolução que deveria ser natural.

Brandon Ingram está jogando bem ultimamente, mas mais uma vez sua metade inicial de temporada foi decepcionante. Lonzo Ball não é tão ruim quanto muitos querem achar, mas ele ter sido escolhido em segundo geral e D’Angelo Russell estar brilhando em Brooklyn não ajuda.

Mas não acho que eles sejam o grande problema.

E aqui chegamos no segundo ponto.

A importância dos papeis

Falei disso com meu convidado, o grande Marquinhos, na edição 164 do Quinto Quarto Expresso. Todo bom time tem jogadores com papéis bem delimitados. Especialmente na NBA, times talentosos naufragam porque o limpador de trilho acha que é pontuador, o pontuador não toca na bola no último minuto e o treinador não sabe controlar os minutos e egos.

Nos Warriors, Draymond Green não tem dúvida do que é. Ele até pode querer pontuar mais, dar passes que não existem e gritar na cara de um pontuador Top 10 da história da NBA. Mas quando chegar a hora da verdade ele vai marcar até a sombra do cara da primeira fileira, ser o coração da equipe e encher o box score.

Andre Iguodala passou de jogador de contrato enorme e medalhista de ouro para o banco. Shaun Livingston sabe que toda vez que entrar vai pegar a bola na lateral do garrafão, fingir que vai para o lado, ir para o outro e encestar uma bola de 2 sem que ela nem encoste a rede. Mas quando o jogo for decidido, ele estará do lado de fora.

E até Klay Thompson, um Splash Brother, ídolo supremo na Bay Area, não terá problema em tocar na bola por um segundo a cada jogada e ter que marcar o craque de perímetro adversário.

Sabe quão difícil é fazer isso em um time com caras multimilionários, onde o oitavo melhor jogador ganha mais que o treinador e o GM? A resposta é muito difícil. Sabe quão difícil é fazer isso por anos? Ridiculamente difícil. Os Warriors estão no quarto ano. Se acabar por aqui, já foi um feito inacreditável. Ponto para Bob Myers e Steve Kerr.

Os Lakers não conseguiram fazer isso

Na NBA é difícil juntar astros porque existe o Draft e limite na folha salarial. Mesmo assim existem panelas. Mas as panelas não vão existir em todas as equipes. Não vai rolar panela em Milwaukee porque é frio para cacete e não tem nada para fazer. Não vai ter panela em Memphis porque é um mercado minúsculo.

Os Lakers têm a vida mais fácil. Mas Magic Johnson deve ter percebido que falar é de boa, mas fazer…. O Deus do sorriso falhou miseravelmente nesta temporada. Trazer LeBron é destacável, mas ao mesmo tempo estava tudo desenhado para o camisa 23 chegar, assim como esteve para os Cavaliers quatro anos antes. O difícil seria montar o time em volta dele.

Olhando agora para trás, o fato de Paul George ter logo no primeiro dia se comprometido com OKC e nem dado o prazer de uma mísera reunião foi algo brutal para o planejamento da equipe. Popovich não iria trocar Kawhi para L.A. DeMarcus Cousins era arriscado. Não sobrou ninguém.

E aí a equipe foi improvisar e entregou as contratações mais bizarras. Mais um ano de Caldwell-Pope recebendo 10x mais do que merece. Lance Stephenson, um cara que só funciona em Indiana e em doses homeopáticas. JaVale McGee, que passou de dono do papel “cara louco que merece umas pontes aéreas” que tinha nos Warriors – e era perfeito para ele – para jogador de importância.

E Rajon Rondo, que é o melhorzinho desses, mas também adepto de sumiços, atitudes idiotas e suscetível a lesões desde seus últimos anos de Celtics.

A ideia vendida foi criar um time cascudo e versátil defensivamente. Eu não estou inventando não, foi esse mesmo o argumento.

Resultado: a defesa tem momentos de pelada. E o plus-minus dos Lakers (saldo de pontos: -1,4) é o pior da NBA tirando os times que estão claramente tankando desde setembro (antes da temporada começar) ou dezembro no máximo.

Desculpa, errei. O Washington Wizards, que deveria estar tankando, tem pior (-3,2).

Magic e Rob Pelinka não souberam montar um time para jogar com LeBron James. E não digo nem que deveria ser um time com mais dois All-Stars. Julius Randle e Robin Lopez saíram dos Lakers e até agora eu não entendi o porquê, sabendo o que veio. Só esses dois já seria muito melhor que todo o pacote de loucos. E por que Ivica Zubac foi trocado?

É engraçado que Pelinka é um ex-agente (representou Kobe Bryant) que fez a transição para o front office de um time. Bob Myers era um agente que fez a transição para o front office de uma equipe. Por enquanto a diferença de qualidade é incalculável.

Luke Walton não conseguiu

Quando os Warriors começaram a temporada 2015/16 com 24 vitórias em 24 jogos e Steve Kerr não conseguia sentar em uma cadeira, quanto menos dirigir uma equipe, Luke Walton era o treinador. Ai começou o papo que qualquer um conseguiria treinar aqueles caras. É óbvio que isso é absurdo.

Basquete não é só jogar cinco coletes para o ar. Aliás, nenhum esporte é assim (pare de falar mal do Guardiola). Colocar Draymond Green na posição 5 e isso dar certo não é algo fácil. Curry e Klay não se tornaram Curry e Klay só porque eles são ótimos.

Aliás, a melhora subestimada dos Warriors foi na defesa, com a equipe passando a ter melhor rating defensivo no primeiro ano de Kerr no comando.

Sim, é claro que Steve Kerr tinha mais talento e um front office melhor montado, como já foi dito acima. Mas o que ele trouxe foi uma ideia, um conceito. E isso foi o que fez os Warriors instantaneamente passarem de time bom para espetacular.

Walton veio para esta temporada com uma ideia de jogo. Um time que podia fazer o switch em todas as posições e não ficar em matchups desfavoráveis. E um ritmo de jogo alucinante, eternamente jogando na transição. Walton chegou a testar Kyle Kuzma na 5, assim como Michael Beasley, no training camp. No fim, o jeito foi mesmo trazer Tyson Chandler depois que a temporada começou.

Os problemas, obviamente, são o cansaço, o elenco não tão profundo e a falta de arremessadores e especialistas. O time é o quarto pior em aproveitamento nos arremessos de três. Melhor apenas que, novamente, três times tankando: Suns, Grizzlies e Knicks.

A culpa não é só de Luke Walton

É claro que é ele que vai perder o emprego. Magic não será demitido pela sra. Buss e Pelinka deve ganhar mais um ano. Walton está lá desde antes desse duo assumir o controle do basquete e isso sempre é um problema nos esportes americanos; GMs e dirigentes gostam de ter seu cara treinando.

Mas as peças entregues a Walton este ano foram completamente bizarras. E mesmo os jovens, eles não são complementares a LeBron. Dá para jogar com Ingram, Kuzma e LeBron ao mesmo tempo e ser bem-sucedido? Não sei. Acho que não. Um quinteto com esses três, mais Ball e Rondo foi chamado de quinteto da morte, imitando a versão “warriorica”.

Ela não entrou em quadra nem por 10 minutos nesta temporada. Eu enchi o saco de procurar ela na lista, então me desculpem. Com certeza alguma razão tem e ela passa pela completa incapacidade de arremesso e espaçamento.

Voltando à possibilidade de playoffs, a tabela dos Lakers realmente não ajuda. O time vai receber os Bucks, Nuggets, Celtics e terá que encarar Raptors, Bucks e Jazz  fora. Isso até chegar nos cinco jogos finais. Quer que eu diga? Ok, eu digo.

Thunder fora, Warriors em casa, Clippers “fora”, Jazz e Blazers em casa.

Amarrando tudo isso nos Lakers

Para variar eu fiz um texto de 2 mil palavras que começou falando de bananas e passou para a NASA. Os Lakers deste ano são um fracasso, mesmo que cheguem nos playoffs. Só que analisando a situação, quem começa dessa posição – o desejo de montar um time campeão depois de anos sem playoffs – tem uma ladeira horrorosa pela frente.

Os Warriors em 2012 tiveram tarefa similar. Draftaram bem, montaram um time em volta de seus craques, trouxeram um treinador com um conceito que se encaixava com esses jogadores e foram adicionando veteranos e peças interessantes. Há muito, mas muito mérito em tudo que eles fizeram, com doses cavalares desse mérito para Myers e Kerr.

Os Lakers, desde que escolheram Julius Randle em sétimo em 2014, não draftaram bem (e nem seguraram as peças), montaram times estranhos, entraram em 37 polêmicas diferentes envolvendo celulares, pai de atletas, briga de irmãos pela propriedade do time…

O treinador não conseguiu implantar seu estilo de jogo com sucesso, o vestiário está contaminado e os veteranos contratados não trouxeram nada.

Tirando isso, os Lakers estão fazendo tudo certo.

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