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Não fique surpreso com o boicote aos jogos na NBA: sempre houve ativismo na liga

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Bill Russell estava do lado de Muhammad Ali quando este tinha acabado de ter seus títulos no boxe retirados por recusar-se a participar da Guerra do Vietnã. Na foto histórica, há outro gigante em todos os sentidos possíveis: Lew Alcindor, que ainda não tinha mudado seu nome para Kareem Abdul-Jabbar. Ele já destruía a concorrência, mas em UCLA e não na NBA.

A geração dos anos 60 é a que mais marcou a NBA ativista, até porque os Estados Unidos estavam em ebulição. Há um milhão de filmes sobre aquela época, até porque esse período é fascinante. A luta pelos direitos civis, a Guerra do Vietnã, o Homem pisando na Lua, Woodstock.

Para citar mais um exemplo da NBA ativista, em 1964, os jogadores decidiram não atuar no Jogo das Estrelas, que seria realizado em Boston, a menos que os donos reconhecessem a associação (sindicato) dos atletas. Com medo de passar uma péssima imagem, já que o jogo seria televisionado e liga ainda capengava, os donos cederam.

O que Russell, Kareem, Oscar Robertson, Elgin Baylor e muitos outros atletas negros passaram é algo nojento, inacreditável em um país como os Estados Unidos, com a Constituição que tem e que já existia há quase 200 anos quando Baylor e dois atletas dos Lakers foram negados em um hotel porque eram negros. O resto dos jogadores se rebelou e ficou no motel reservado para negros na cidade de Charleston, na Virginia do Norte. Baylor decidiu boicotar a partida que o time faria na cidade.

Essas histórias seriam ainda mais poderosas se todas as atitudes enormes que esses atletas tiveram nesses anos tenebrosos tivessem acabado com a triste história do racismo no país. Isso não aconteceu. Avanços existem: Barack Obama foi presidente do país por oito anos. Independentemente se você morre de paixões por ele ou não esse é um sinal enorme.

Mas Obama veio, foi e um negro morreu porque um policial ficou com o joelho em seu pescoço por oito minutos, com tudo isso sendo filmado. Jacob Blake levou sete tiros de um policial com suas três filhas vendo. Não são casos isolados.

Os atletas atuais da NBA estão em uma bolha, mas ninguém pode acusá-los de fechar os olhos para os problemas do país. Muitos deles têm projetos sensacionais, com LeBron James sendo exemplo máximo ao criar uma escola na sua cidade natal de Akron. Qualquer time que você pegar têm jogadores com iniciativas maravilhosas.

O fato de eles ganharem milhões não faz sua mensagem ter menor valor. Eles fizeram por merecer e não tinham obrigação de doar, de ajudar suas cidades. Muito menos de se posicionarem publicamente.  Muitos atletas ficam calados, o que é um direito. Méritos para quem vê algo errado e tenta corrigir.

Temos inúmeros casos de eventos esportivos ajudando a sociedade a curar feridas. O New York Yankees jogando na sua cidade pouco depois do 11 de setembro, com o presidente Bush presente, é um caso vivo na memória da sociedade americana. Mas ali a mensagem era “precisamos seguir em frente e não sentir medo”. Como LeBron disse, medo é algo que ele sente como negro nos Estados Unidos. É difícil ficar empolgado em colocar uma bola na cesta quando o país está explodindo, seja em revoltas, casos e mais casos de violência, uma polarização política gigantesca na sociedade e um vírus sobre tudo isso.

Continuar ou não na bolha de Orlando será uma escolha para os próximos dias. Há bons argumentos para todos os lados e toda discussão é justa. O único que não é argumento é dizer que não adianta nada boicotar os jogos. Claro que adianta. Olha a atenção chamada para o assunto. Atletas têm poder enorme e, infelizmente, políticos e autoridades se importam com a imagem. Que esse receio deles de ficar mal na foto seja usado para o bem: os jogadores dos Bucks já fazem pressão para o policial que atirou em Jacob Blake seja responsabilizado, indo atrás do procurador-geral e do Governador do Wisconsin.

A NBA sempre teve jogadores ativistas e, com Adam Silver, os atletas têm liberdade para se expressar. Isso nunca será algo negativo.

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