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Lance Livre: Warriors e Cavaliers III e nada mais no título

(Foto: Reprodução/Facebook)

Antes da temporada falei que Golden State Warriors e Cleveland Cavaliers caminhavam para a versão III de seu duelo. No meio da temporada pareceu menos inevitável, mas agora, com as duas equipes já classificadas – enquanto os futuros rivais estão no meio de séries nervosas que irão ter pelo menos seis jogos – , não resta mais tantas dúvidas.

Sim, eu sei que fui relapso nas colunas. Mas você não pode reclamar de nossos relatos e nem da coluna sensacional de Felippe Rodrigues, que achou uma forma de quantificar triplos-duplos e sua qualidade. Leia esse material exclusivo de qualidade e transforme-se você também em um fã de “Fat Lever”.

Golden State Warriors: não há como pará-los

Quando Kevin Durant foi atropelado por Zaza Pachulia, eu pensava que os Warriors teriam sérios problemas. Stephen Curry não era nem sombra do Stephen Curry bi-MVP e Klay Thompson é o maior da história na categoria “arremessador que pega fogo”, que tem Steve Kerr, Kyle Korver e vários outros brancos. Só que o problema dos jogadores dessa categoria, até o melhor deles, é que nem sempre eles pegam fogo. O jogo 3 contra o Utah Jazz mostrou isso: 1 de 9 e seis míseros pontos para o camisa 11.

Só que Curry acordou para a vida após a lesão de Durant e teve jogos sensacionais nas semanas finais de temporada e com a volta do camisa 35, eles finalmente alcançaram a sintonia esperada. Coisas difíceis como saber abrir mão do jogo para o outro assumir, aceitar a hora de puxar a marcação mas não receber a bola, espaços preferidos na quadra. Enfim, aspectos coletivos que estrelas quando jogam juntas sofrem para conseguir. LeBron James e Dwyane Wade só conseguiram isso no segundo ano juntos em Miami. Não sou só eu que digo isso, são os próprios.

Draymond Green é a cola de sempre e com o jogo subindo de intensidade ao chegar mais perto da hora decisiva, ele é o primeiro a pegar o lança-chamas. Ou seja, tudo está se juntando na hora certa, menos as palavras Steve Kerr e saúde perfeita sem um não no meio.

Ou seja, recapitulando, você tem o maior arremessador de três da história (desculpa Ray Allen), um top 5 na mesma categoria, capaz de quartos de 20 pontos e ainda excelente marcador (Klay Thompson), um ala-pivô que marca qualquer pessoa que estiver em quadra e ainda enche o box score (Draymond Green) e eu não citei o melhor jogador do time: um cara de 2,12m com um arremesso que beira a perfeição, habilidade de armador e que não se importa em jogar coletivamente. Aliás, a razão para ele ter saído de onde estava e ter ido para onde está é querer jogar em um sistema bem azeitado.

Você sabe como parar tudo isso? Eu não. Se soubesse, estaria trabalhando na NBA.

Cleveland Cavaliers: a resposta?

Quem pode ter a resposta para isso está no Ohio tomando um vinho neste momento. E o nome dele não é Tyronn Lue. Até o mais empolgado luezista sabe que a razão para os Cavs terem um título agora foi uma virada na intensidade de Kyrie e LeBron, que alcançou o nível 99 nos jogos 5,6 e 7, e se manteve nesses playoffs, e certas coisas darem certo: lesão de Bogut e suspensão de Draymond Green, só para citar duas.

O normal nas finais de 2016 era o Golden State Warriors ter vencido. O normal nas finais de 2017 é o Golden State Warriors vencer. Mas “coisas darem certo” e a sorte sorrir para seu lado é algo que pode acontecer duas vezes e há algo curioso com a palavra sorte: times que têm LeBron James têm mais dela.

Não vou falar sobre uma comparação com Jordan, deixando isso para agosto, quando precisamos de cliques para manter nossas mansões em Ibiza. Mas chega uma hora que falar sobre o Leste ser muito menos equilibrado, ter menos estrelas, que LeBron tem craques ao lado, enfim, argumentos que têm sentido, ficam insuficientes pelos ‘poréns’. LeBron James pode chegar à sétima final seguida. Por dois times diferentes. Em uma NBA com 30 franquias, teto salarial e onde o Los Angeles Lakers tem o mesmo para montar um time que o Milwaukee Bucks. Ou seja, completamente diferente da NBA de Bill Russell e aqueles Celtics dos 11 títulos.

O que ele está fazendo nestes playoffs é algo brutal de um homem que ainda tem algo a provar mesmo após três MVPs de finais, três anéis e quatro MVPs. São 34,4 pontos, 9 rebotes e 7,1 assistências por jogo.  Ele está simplesmente imparável até nos tiros de três, algo que nunca foi sua especialidade: 46,8% de aproveitamento arremessando 5,9 vezes por jogo em média, sua maior marca em pós-temporada. Se Draymond Green chega com um lança-chamas na hora dos playoffs, ele não tem muito o que fazer contra o lança-mísseis de Akron.

Qual o problema disso? Chega uma hora em que até LeBron James não pode ultrapassar todos os desafios. Aqui cito o exemplo do Seattle Seahawks na temporada passada: quando você não tem uma linha ofensiva e o desfalque de Earl Thomas, não importa que o sistema defensivo seja espetacular e Russell Wilson seja uma ameaça passando e correndo. Há coisas demais a superar na sua própria estrutura.

Quando metade de seus jogadores não defendem nem um cone, quando Kevin Love não entra na partida, J.R. Smith não está com a mão quente e nem seus arremessadores do banco (cof cof Kyle Korver), LeBron pode ser o maior da história que ainda falta algo. Nesta temporada, faltou tudo isso para os Cavs em muitos jogos, tanto que o time ganhou apenas 51, algo vergonhoso para quem investe acima do teto e tem tantos jogadores de qualidade.

A solução para os Cavaliers nas finais que começam em junho será tirar toda a rapidez do jogo frenético dos Warriors, marcar Stephen Curry de forma física (pensem em Pat Beverley e a forma como ele marca alguém), LeBron manter esse nível 99 com Kyrie pontuando e alguma performance não-esperada de um coadjuvante, uns 20, 25 pontos de J.R. Smith, 18 de Korver ou Channing Frye… enfim.

Ou seja, terá que ser um conjunto de fatores.

Ok, Boston Celtics, Washington Wizards, San Antonio Spurs e Houston Rockets

Já sei que vou ouvir todo tipo de xingamento dos torcedores dessas quatro franquias, mas algumas horas temos que encarar os fatos. Todos esses times já deram demonstrações de fraqueza enquanto Warriors e Cavaliers dilaceraram adversários. Nós pensávamos que o Toronto Raptors, que já era forte com Lowry e DeRozan, seria um pedregulho no sapato com as adições de Serge Ibaka e P.J. Tucker. Foi basicamente como o Palmeiras pensar que Eduardo Baptista seria suficiente.

No Leste, os Celtics me surpreenderam quando não tentaram absolutamente nada na janela da metade da temporada e isso quase se voltou contra eles já contra o Chicago Bulls. Nem digo que precisava abrir mão das escolhas cedidas por Brooklyn, mas pelo menos alguma escolha menor para trazer um pontuador teria sido inteligente. Se Rajon Rondo não tivesse se machucado, os Bulls poderiam ter passado de fase e todos nós estaríamos com quatro pedras na mão e olhando na direção de Danny Ainge.

Isaiah Thomas está batalhando para ter uma estátua na porta do TD Garden, ainda mais pelo fato da tragédia pessoal pela qual ele está passando. Al Horford está fazendo uma ótima pós-temporada, o que muitos ignoram pelo seu contrato, o que é errado. Sim, é muito dinheiro, mas vamos lembrar que os preços estão loucos e o New York Knicks pagou 63% do valor de Horford por JOAKIM NOAH 2016. E o Los Angeles Lakers por TIMOFEY MOZGOV 2016.

Só que passando por Thomas e Horford, todos os jogadores interessantes e multifacetados dos Celtics – Avery Bradley, Jae Crowder, o desaparecido Jaylen Brown, o amaldiçoado por meia liga Kelly Olynyk, Marcus Smart e por ai vai – são adeptos de sumiços, péssimas fases nos arremessos e até bobeadas no sistema defensivo. Esse é um time que precisa de estrelas, de forma desesperada, porque você não ganha nada nesta liga sem pelo menos um cara muito acima da média. Um Thomas só não faz verão contra os Cavaliers.

Os Wizards tem uma estrela em John Wall, que está usando estes playoffs para dizer ao mundo “hey, não esqueçam de mim como O MELHOR ARMADOR-ARMADOR DO LESTE” e em Bradley Beal, que está usando estes playoffs para dizer ao mundo “hey, eu sou um ala-armador CHEIO DE TRUQUES E COM UM CORPO 100% SAUDÁVEL (DESTA VEZ)”.

O problema é que o banco está tenebroso apesar da boa adição de Bojan Bogdanovic na janela. O time vive e morre com Wall e Beal e eles não são Curry e Thompson. E até Curry e Thompson sem Draymond liderariam um time de semis de Conferência, mas que teria dificuldades para ser algo mais. Contra os Cavaliers, essa falta de armas ficará evidente quando LeBron colar defensivamente em Beal, e Wall, mesmo bom do jeito que é, ter menos companhia que um halterofilista na Campus Party.

Já no Oeste há candidatos maiores para o destrono. Eu achava que os Spurs, apesar das 61 vitórias, não eram um time de impor medo como em anos anteriores. Eu esqueci que Kawhi Leonard não para de melhorar e Gregg Popovich é o melhor treinador para fazer ajustes que existe na NBA. Depois da paulada no primeiro jogo, ele desistiu de jogar com duas torres, deu uns gritos na cara de LaMarcus Aldridge para ele acordar para a vida – o que ele fez no jogo 3.

A partida 5 ainda trouxe um toco de Manu Ginobili em James Harden. Logo o argentino, que pensava estar avançado na escala Paul Pierce “não aguento mais jogar, mas aqui estou”. Mas Kawhi Leonard machucou e mesmo que atue no jogo 6, como quer, ele deve fazer isso no sacrifício.

Vejo os Rockets ainda muito vivos por causa da inevitabilidade que o jogo deles traz: se as bolas de 3 caem, como caíram 19 no jogo 4, não há como bater eles sem jogar o mesmo jogo.

A seguir, jogos dos Rockets em 2016/17, playoffs incluídos, que eles perderam apesar de acertarem mais de 40% de suas bolas de três:

 

 

Tem mais esse aqui:

Jogos dos Rockets que eles acertaram mais de 40% das bolas de três e venceram (temporada regular):

 

3 points rockets

E nos playoffs:

3 POINTS ROCKETS

Ou seja, 23 jogos e 23 vitórias. E os Spurs até podem o jogar o jogo de 3, mas não nesse nível ultrahard. James Harden não parece 100% desde que ele teve uma entorse no tornozelo e foi divulgado que ele tem uma lesão no punho, mas ele continua produzindo e sendo o maestro de uma máquina interessante de se ver. Se os Cavaliers dependem de alguém vir do banco pontuando, os Rockets também, mas com Lou Williams e Eric Gordon, um ou o outro pode entregar isso com mais frequência.

Dito tudo isso, “Miguel, você acredita que um desses quatro times pode tirar Warriors e/ou Cavaliers das finais da NBA em 2017?”

Não, não acredito.

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