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Lance Livre: opinião/prévia sobre Warriors x Cavaliers com Q&A falso

Curry LeBron NBA

Crédito: Instagram/reprodução

O dia de Super Bowl pode ser legal. É animal para falar a verdade. Ainda mais quando no fim, temos na memória fresca um jogo espetacular que você nunca vai esquecer nunca, como foi a edição 51. Só que as finais da NBA, ainda mais quando o duelo tem tudo para ser histórico, reserva pelo menos quatro jogos e até sete deles.

Eu já fiz algumas prévias para Super Bowl, algumas para finais de NBA, conferência, antes da temporada. Sou o Michel Temer das prévias: breve, ninguém concorda comigo e no futuro ninguém vai lembrar delas.

Por isso, dessa vez farei uma seção de perguntas e respostas (Q&A), que eu não planejei e não abri para vocês, meus caros leitores, mandarem suas sugestões.  Como um gordinho solitário no ensino médio, eu vou ficar falando comigo mesmo, sozinho.

Vamos lá então. Elas vão aumentando de importância a medida que passam.

P: Qual é a melhor piada relacionada às finais da NBA?

R: Nenhum treinador sabe parar tão bem um ataque liderado por LeBron James como Mike Brown.

Caso você não tenha entendido, aqui está (parte do) currículo de Mike Brown.

20052010Cleveland Cavaliers

Para ser justo, a equipe de Brown bateu o Detroit Pistons no Leste e teve que encarar o San Antonio Spurs de Tim Duncan, Manu Ginobili, Tony Parker com Larry Hughes, Sasha Pavlovic, Drew Gooden e Zydrunas Ilgauskas complementando LeBron.

É como se Messi fosse transplantado, com 22 anos, para Florianópolis para jogar pelo Avaí (desculpa Guga), mesmo assim chegasse na final do Mundial. Só que qualquer empolgação é jogada no lixo porque do outro lado estão Cristiano Ronaldo e seu Real Madrid.

P: Miguel, por que eu devo assistir as finais da NBA se eu não gosto de basquete ou até de esportes?

R: Você gosta de filmes ou livros? Pense em um filme que a trama tem vingança. O Golden State Warriors perdeu as finais do ano passado depois de ter uma mão e meia no título. Nunca uma equipe tinha perdido um 3 a 1 nas finais. E perdeu em casa ainda. E para esse Cleveland Cavaliers.

Pense em uma história de herói: LeBron James chega a sua sétima final seguida, algo que não acontece desde os anos 60, quando a NBA não tinha nem metade dos times hoje e sem teto salarial. Com seu currículo, muitos voltam a discutir se ele é maior ou igual a Michael Jordan (não acho, ainda).

Pense em um vilão: Kevin Durant para muitos é pior que o PMDB para a República. Ser uma estrela e deixar a equipe que o draftou para ir jogar em outra que é melhor é visto como um crime para muitos que acompanham esportes americanos. Mesmo que você faça o mesmo na sua vida profissional, trocando de trabalho como uma stripper troca de lingerie.

Pense em uma história de redenção: Stephen Curry foi mal nas finais da temporada passada, gerando até uma especulação que estava machucado. Nesta temporada regular, ele nem foi citado na discussão sobre MVP, após ter vencido duas vezes seguidas, a última delas de forma unânime. Mas, nas semanas finais de temporada, ele começou a recuperar seu ritmo. E a volta de Durant não tirou ele desse ritmo, com os dois coexistindo na melhor forma até o momento nestes playoffs. Ou seja, foi um 12-0 (varridas contra Blazers, Jazz e Spurs) com os últimos três vencedores de MVP (Curry e Durant) jogando muito.

E finalmente, pense em história sendo feita: nunca uma final se repetiu três vezes seguidas na história da NBA. Esses dois times, juntos, tem sete All-Stars, algo que nunca aconteceu antes. Desafio você a ver o All-Star de 1987 e notar que Boston Celtics e Los Angeles Lakers tinham seis All-Stars.

Ok, aconteceu duas vezes, não consegui te enganar. Nas finais de 1983, Philadelphia 76ers e Lakers tinham sete e Celtics x Lakers em 1962 idem. Mas em 1962, a NBA tinha nove times. Em 1983, 23. Agora: 30.

Ou seja, as finais são históricas e estão cheias de narrativas.

P: Qual é a chance de Draymond Green ser MVP?

R: Não são ridículas. Primeiro, é claro, os Warriors precisam vencer as finais. Depois disso, Curry e Durant podem ter jogos apagados (separados) e mesmo assim os californianos vencerem. Mas Green precisa estar aceso em pelo menos quatro dos sete jogos.

Green aumentou ainda mais sua capacidade de encher o box score nesta temporada. Roubadas e tocos, mais rebotes, assistências e pontos fazem parte do jogo do camisa 23, além, é claro, de sua marcação. E ele pode marcar LeBron James, Kevin Love e até Tristan Thompson em pequenos períodos do jogo, quando os Warriors jogarem com sua formação super small:

  • Curry, Klay Thompson, Andre Iguodala (ou até Shaun Livingston), Kevin Durant e Draymond Green

Ou seja, um jogo de 20 e poucos pontos, um triplo-duplo, magro que seja (15, 11 e 11) e um lance icônico na defesa (como o toco de LeBron em Iguodala) podem dar o MVP das finais para Draymond Green. Os sacos de todo o mundo choram.

P: Qual é a chance de Kevin Love ser MVP?

R: Zero.

Mas…

Kevin Love está jogando seu melhor basquete desde que chegou em Cleveland. A gente ouviu muito sobre Durant ter que mudar seu jogo para atuar nos Warriors, mas a verdade é que ele já sabia fazer de tudo e ele só teve que fazer um pouco de tudo, em vez de bater a marcação isolada de seus tempos de OKC.

Já Love simplesmente foi jogado para o canto da quadra para arremessar de três.

Aí você, mais maldoso, que sabe algumas estatísticas, joga: “mas ele na última temporada de T-Wolves arremessou 6,6 bolas de três por jogo, mais que nas suas três temporadas de Cavs: 5,2, 5,7 e 6,5.

Mas, garanhão, não se esqueça que em Minnesota ele fazia tudo: ele passou de 18,7 arremessos para 12,7 no primeiro ano de Cavs e 14,5 em 2016/17.

Muito bem, nestes playoffs, Love tem uma média de acertos de 47,3% em bolas de três, algo simplesmente absurdo. São 17,2 pontos e 10,7 rebotes nos 13 jogos que os Cavs fizeram na pós-temporada. E um ano depois de perder para a união ofensiva absurda de LeBron James e Kyrie Irving, os Warriors agora podem ter uma grande surpresa com Love, que “no canto”, abre espaço para as penetrações de Irving e o atropelamento de LeBron James.

Mas, para mim, ainda é zero, porque ele é um complemento. Se ele fizer chover de três, mas LeBron e Kyrie forem mal ou apenas bons, os Cavs devem perder essa série.

P: Tem algo bom vindo do banco?

R: Nas duas primeiras partidas das finais do ano passado, o banco dos Warriors foi um grande fator para os dois triunfos. E Steve Kerr/Mike Brown sabe como usar esse banco com uma atitude que nem todos os treinadores fazem e acho burrice: dividir os minutos das estrelas com os reservas.

Por exemplo, no Thunder de Durant e Westbrook, muitas vezes quando um ia para o banco, logo o outro ia também, assim como a maioria dos outros titulares. Em OKC, você vai notar que na gigantesca parte do tempo, pelo menos duas das quatro estrelas ficam em quadra. E isso é possível também porque Andre Iguodala pode jogar como um ala ou até ala-pivô em formações mais baixas, Shaun Livingston pode fazer as duas posições de armação e dos titulares, Durant pode ser 3 ou 4 e Green 4 ou 5.

David West e JaVale McGee também jogam com titulares e Durant adora um lob para McGee enterrar. O que quero dizer com isso é que o elenco tem maior sinergia, algo necessário depois que o time perdeu alguns jogadores de banco como Leandrinho, Marreese Speights e titulares como Harrison Barnes e Andrew Bogut.

Nos Cavaliers isso não é tão evidente, mas Tyronn Lue conseguiu achar uma formação que é simplesmente horrorosa de marcar: cercar LeBron James com quatro arremessadores, com Kyle Korver e Channing Frye. Deron Williams e Richard Jefferson – que aliás fez excelente final em 2016 – mais J.R. Smith (esse titular) também são ameaças de meia-distância.

Os Cavaliers têm mais potência vinda do banco para estas finais em comparação com o ano passado. Mas os Warriors ainda levam vantagem porque a integração parece maior e mais azeitada.

P: Que jogador “não-óbvio” eu preciso ficar de olho?

R: Tristan Thompson. E como Tristan Thompson é marcado. De início, Zaza Pachulia deve estar em cima dele mesmo, mas isso não deve evitar seu excelente trabalho sujo, lutando pelos rebotes como se sua vida dependesse disso.

Nas finais de 2015, Thompson foi vital para os Cavs terem uma chance apesar de não terem Love e Irving. Em 2016, com Draymond Green jogando na 5, ele sofre porque precisa sair de debaixo da cesta para marcar o camisa 23 mais longe, abrindo o jogo para os Warriors, mas ele é rápido o suficiente para não ser queimado em todos os pick ‘n rolls que os californianos jogarem nele. Sempre fique de olho nele e na movimentação dele. Porque é ele que vai fazer os jogadores dos Warriors escolherem entre uma bola de três ou uma penetração.

P: Você acredita em uma varrida dos Warriors?

R: Sim. O time está com 12 vitórias e 0 derrotas nos playoffs entrando nas finais, algo nunca feito antes. O Los Angeles Lakers de 2000/01 chegou nas finais invicto, mas na época a primeira fase era uma melhor de 5. E, na primeira partida, Allen Iverson fez 48 pontos e liderou seu horroroso Philadelphia 76ers a uma vitória, a única dos Sixers na série.

Eu não acho que será uma varrida porque estrelas como LeBron James tem sempre um jogo “nem foden** que eu perco” e os Cavs têm muitas armas. Mas os Warriors, trocando Harrison Barnes por Kevin Durant, têm um verdadeiro arsenal nuclear. Mesmo que não tenha Splash dos Splash Brothers, ainda sobra um arremessador exímio de 2,13m.

P: Qual é a hipótese dos Cavaliers vencerem?

R: Nos três jogos finais da temporada passada, Curry não estava arremessando bem e teve que encarar todo o poderio físico dos rivais, que parece ter tirado ele de ritmo. Klay Thompson também não estava afinado ofensivamente (não o subestime defensivamente) e Harrison Barnes simplesmente acabou com sua equipe com a falta de pontaria.

Então o que resta é ser uma pulga em Curry, trombando com ele e evitando que ele chegue livre nos seus lugares preferidos de arremesso, usando todas as mãos e empurrões possíveis no limite da falta. Klay é o típico cara que bem marcado ele consegue derrubar 9 bolas de três, mas mostrou muitas vezes nesta temporada que pode ser tirado de ritmo, mesmo que a marcação não esteja sobrenatural. Beleza, você tira esses dois e têm boas chances.

Mas aí entra Kevin Durant. E como você marca ele e ainda consegue ser físico com Klay e Curry, provavelmente usando LeBron? E quando LeBron precisa descansar e Durant fica em quadra porque os Warriors dividem os minutos de suas estrelas? E quando Shaun Livingston pega a bola, fica de costas, dá um giro rápido paralelo à cesta e sempre acerta o arremesso longo de 2 porque tem 2,01 m, mas braços que fazem ele parecer 2,15m? E ainda por cima Draymond Green gosta de acertar bolas de três e chutar sacos alheios.

Ainda bem que não sou Tyronn Lue.

Acho que os Warriors vencem em cinco jogos.

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