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Lance Livre: foi um prazer ver esses Warriors; agora falta a concorrência

Warriors comemoram

Crédito: Instagram/reprodução

O previsto aconteceu: o Golden State Warriors dessa vez não deixou uma liderança de 3 a 1 fugir e venceu o título da NBA na temporada 2016/17. É inútil agora falar sobre o fator Kevin Durant e se é justo ou não ele ter chegado em uma equipe que já era histórica. Por mais que na história da NBA os astros não façam isso (normalmente, tem um certo jogador do outro lado que também saiu de sua “casa”), como você vai negar a uma pessoa a escolha de sair para uma situação melhor?

Outra coisa: sempre que lembrarmos de Charles Barkley, Karl Malone, George Gervin, etc, etc e mais etc, sempre citaremos a falta do título. Durant estava em um time que jogava um basquete da idade média comparado com os renascentistas da Califórnia.

Imagina você ser bom, inegavelmente bom, e poder participar de algo que está na vanguarda de sua atividade. E ainda você pode retirar essa marca de “nunca ganhou o que importa”. Pelo amor de Deus, não há o que pensar. Eu gostaria que todos os jogadores ficassem em um só time, mas não há como exigir isso.

Só que para chegar em um time e dar certo não adianta ser só bom. Estrelas já foram pareadas antes sem um final feliz.

Warriors: a junção perfeita

A história dos egos em um time esportivo é a mais antiga possível. E a questão não é só egos, porque não estamos falando de FIFA 17, Madden 25 ou NBA 2K16, que é só colocar o jogador com overall 99 no meio de uma seleção e apertar o X até não poder mais.

Química é o fator mais importante em uma equipe, um coletivo. Se você colocasse Kobe Bryant no auge nessa equipe dos Warriors, ela não daria tão certo como Durant. Não só pela personalidade de Kobe, mas porque o basquete dele não encaixaria com o que os californianos fazem: blitz, movimentação frenética, cortes secos, pick n’ roll, ausência completa de bolas de 2 longas e de “isolação” (isolation), presença completa de bolas de três até certo ponto ridículas, mais pick n’roll, passes rápidos e um pouco mais de pick n’roll.

Durant chegou de um time que basicamente colocou ele e Westbrook passando a bola, um para o outro no ataque, e isolando, isolando e isolando, deixando as estrelas decidirem perante marcações duplas, triplas com o talento. Isso pode até dar certo, mas até um certo ponto.

Esse certo ponto chegou ao máximo no fim da temporada passada. Mesmo um cara de 2,14 m- 2,16 m, que sabe arremessar de longa distância e ainda tem habilidade para partir para cima, ou seja, um talento nunca antes visto, não conseguiu bater os Warriors mesmo com uma vantagem de 3 a 1 nas finais do Oeste.

Poucos jogadores chegariam tão bem a uma equipe como os Warriors de 2016 quanto Kevin Durant. Na verdade, só consigo pensar em Dirk Nowitzki no auge. Ele é a combinação perfeita de tamanho, que os californianos não tinham tanto, com qualidade de arremesso, defesa acima da média e altíssimo QI de basquete.

E aí volto para os egos.

Eles só querem vencer

É muito fácil você ouvir de um jogador que ele só quer saber de vencer. Mas isso sempre vai até a página 2 sempre. Stephen Curry passou de MVP unânime, após ter sido MVP na temporada anterior também, para cara que mal era comentado na temporada regular, apesar de não estar fazendo papel de ridículo. Parecia que na NBA de Russell Westbrook, James Harden, Kawhi Leonard, LeBron James e Isaiah Thomas, o camisa 30 era um pangaré.

Curry pode até ser desligado disso. Mas, com certeza, familiares, agentes e a Under Armour, que tem ele como estrela suprema, levaram isso em conta. A Under Armour ainda com certeza teve no radar que Durant é o segundo maior nome na ativa da Nike. Aliás, depois da decisão do jogo 5, veio um anúncio gigante da Nike com o camisa 35 como estrela.

E Klay Thompson? Ele disse que não abriria mão de merd* nenhuma (palavras um pouco parafraseadas dele, não minhas) para acomodar Durant. Mas só há uma bola e um tanto de arremessos por jogo. Nos playoffs, isso ficou claro e sua média de pontos caiu 8 pontos em relação à pós-temporada anterior, com ele arremessando quase 5 bolas a menos, 3,6 de três. Só que no ataque ele não brilhou tanto, isso evidenciou para o mundo o quão importante ele sempre foi no lado defensivo: ele ficou um micro-degrau abaixo de Kawhi Leonard, marcando LeBron James, Kevin Love e Kyrie Irving na mesma série, depois de marcar as estrelas de perímetro em todas as séries anteriores. Você pode até falar que LeBron e Kyrie mesmo assim incendiaram o placar nas finais, mas quando um time precisa tanto de dois nomes para pontuar, a combinação “cansaço + algumas bolas erradas das estrelas + e a falta de ritmo dos coadjuvantes = morte de uma equipe, de um coletivo.”

E Draymond Green pode não ter aberto mão de tanto, mas seu trabalho defensivo foi brilhante. Qualquer pessoa que tente comparar Green com um gigante do basquete vai fracassar. Ele não parece Pippen. Ele não parece Rodman. Ele é um free safety que se posiciona por trás da defesa e sua função é voar para a bola e comandar quem está à sua frente. Ou seja, ele é uma mistura de Earl Thomas com Rogério Ceni. Se você desconsiderar seu charlatanismo, vê-lo defender é um prazer.

Quando Durant foi para a Bay Area, eu disse que queria assistir todos os jogos. Não fiquei longe disso, ainda mais com meu gosto por uma contravenção que não citarei aqui. Foi um prazer tremendo ver o que de mais moderno há no basquete por jogadores que deixaram o ego de lado e simplesmente somaram forças e tentaram ao máximo não se limitar. Até tinha como dar errado e é bom que tenha dado certo. Eu vi o Barcelona de Guardiola com Messi, Xavi, Iniesta. Eu vi (vejo) Rafael Nadal e Roger Federer. Eu vi Michael Phelps e Tom Brady. Eu vi Tiger Woods. LeBron James faz a discussão “quem é maior da história da NBA” ter sentido de novo. E eu vi o Golden State Warriors de Kevin Durant, Stephen Curry, Draymond Green e Klay Thompson.

Mas…

Precisamos de concorrência

Uma situação insólita permitiu que o Golden State Warriors, maior time da história de uma temporada regular e que não foi campeão por uma junção de fatores que me fez mudar de ideia sobre Deus odiar Cleveland. O primeiro é Stephen Curry ter um contrato ridículo, completamente defasado. O segundo é o time ter achado um jeito de se livrar de contratos (Andrew Bogut) e ter outros acordos finalizados (Harrison Barnes, Festus Ezeli, Leandrinho, Marreese Speights). E o terceiro foi o aumento exponencial do teto salarial que permitiu acomodar uma superestrela como Durant.

Essa janela não estará mais escancarada para ninguém.

E voltando à questão do ego diminuto dos “guerreiros”, Durant e Curry podem abrir mão de um salário ‘hipermáximo’ para manter esse núcleo com Thompson e Green junto. Ou seja, esse time pode ficar mais quatro, cinco anos junto.

E isso é uma evidente ameaça à paridade da NBA. E o equilíbrio é algo que importa demais para as ligas americanas.

Dinastias sempre existiram: é de uma hipocrisia gritante reclamar de Warriors x Cavaliers III e como isso faz mal para a NBA e toda vez que lembrarmos do passado, termos orgasmos múltiplos com os anos 80, que tinha Lakers x Celtics como donos, ou dos anos 90, que nem antagonista à altura tinha para os Bulls de Jordan.

O problema é a falta de perspectiva.

Não é (só) porque perdeu a final, mas os Cavaliers são inferiores aos Warriors seja entre os titulares ou no banco. Se você me pergunta o que pode ajudar os Cavaliers, eu diria que ligar para 28 franquias para saber o valor de Kevin Love em uma troca não machuca. Um jogador de perímetro top e mais físico pode ajudar a fechar a diferença. Andrew Wiggins faz uma falta, amigo….

E o resto está muito atrás. Os Spurs tem Kawhi mas não podem ter Aldridge de número 2 e um rombo para o 3º melhor jogador, 4º, 5º, etc. Os Celtics sempre estão a um ano de distância, os Raptors não subiram o escalão que deviam este ano, os Clippers sempre decepcionam e etc, etc, etc. Milwaukee Bucks, Philadephia 76ers e outros estão ainda muito distantes.

Essa janela de oportunidade que os Warriors pularam para entrar no mundo encantado é ruim para a NBA. E até as coisas parearem de novo, só há duas possibilidades: algo acontecer entre Durant, Curry, Thompson e Green que eles não possam continuar juntos. Ou a formação de mais supertimes.

Pelo visto, caso os Warriors realmente consigam manter esse núcleo e os 4 aceitem deixar dinheiro na mesa, nós precisamos que o equilíbrio da liga seja ainda mais prejudicado. Gordon Hayward para os Celtics, mais Markelle Fultz? Pode ter certeza! Paul George para os Lakers com Lonzo Ball e talvez uma troca marota que os caras sempre conseguem (Kareem Abdul-Jabbar, James Worthy, Kobe Bryant, Pau Gasol, etc e tal)? Que tal mais uma estrela para os Cavs? Carmelo está a fim de tentar uma dispensa negociada com os Knicks e ir para o Ohio? Seria bom.

Eu quero ver os Warriors nos próximos anos. Mas eu quero que existam rivais. E pelo visto, só teremos isso se jogarmos para o alto por alguns poucos anos essa questão do 20º poder bater o 6º. Assim como precisamos achar uma companheira para o amigo feio na balada, precisamos achar um rival a mais para o Golden State Warriors. Ou dois. Ou quem sabe uns três.

PS: acertei Warriors em cinco na lata. Mandem emails para [email protected] me dando parabéns. É só isso que posso ganhar com esse palpite cagado.

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