Lance Livre

Lance Livre: é Kobe o principal responsável por esses Lakers 2-15?

(Crédito: Instagram/Reprodução)

(Crédito: Instagram/Reprodução)

Sim, duas colunas seguidas com os Lakers como tema. Mas calma lá, não tem como não falar de Kobe Bryant nesta Lance Livre. Em sua última temporada na NBA, e nada indica que ele vai voltar daqui a dois anos para jogar no Washington Wizards, o camisa 24 foi o verdadeiro sucessor do camisa 23, ídolo máximo de uma franquia gigante, multicampeão, MVP e odiado por muita gente. E não é isso que esperamos de um gênio?

Mas teremos tempo o suficiente para homenageá-lo e pode esperar uma Lance Livre especial no fim da temporada. Hoje quero abordar uma discussão que vem correndo há alguns anos: seria Kobe um dos grandes responsáveis pelos Lakers estarem na situação patética que estão, atualmente 2-15 e na rabeira da Conferência Oeste?

A resposta? Leia, seu folgado.

Kobe, o jogador de US$ 24 milhões

Não, não. Ainda não vamos falar disso.

Chris Paul nos Lakers

Fã que é fã dos Lakers odeia o maior comissário da história dos esportes americanos, o senhor David Joel Stern.

O ano era 2011. Os Lakers um ano antes tinham vencido seu segundo título consecutivo e o quinto na era Kobe. Só que o camisa 24 já tinha 33 anos e desde os 18 jogava na liga. Uma sucessão tinha que ser pensada. E Chris Paul era um ótimo sucessor: seria instantaneamente o melhor armador dos Lakers desde Magic. E com 26 anos, ainda teria uns 7 ou 8 anos de basquete. Ele jogaria com Kobe e no pós-Kobe.

Mas todos sabem o que rolou: a NBA, encabeçada por Stern, e na época dona do New Orleans Hornets, recusou a troca dizendo que ela não seria benéfica para os Hornets. E semanas depois ele era trocado para o Los Angeles… Clippers.

Kobe, o jogador de US$ 24 milhões

A partir dessa troca fracassada os Lakers entraram em uma espiral descendente. Derrota para o Thunder em cinco jogos nas semifinais do Oeste em 2011/12, trouxeram Dwight Howard e Steve Nash e foram varridos pelos Spurs na primeira fase em 2012/13, depois 27-55, 21-61 e agora 2-15. Depois do fracasso em manter Howard, mesmo podendo oferecer 30 milhões de dólares a mais que os Rockets, e a ausência completa de Nash em quadra, a equipe tinha dinheiro a mais no teto salarial e estrelas de menos.

E no fim de 2013, veio uma das extensões mais faladas da história do esporte: dois anos, 48 milhões de dólares para Kobe. Com 35 anos nas costas e problemas com lesões que se acentuariam na mesma temporada da extensão, quando só jogou seis partidas, muitos criticaram esse valor. Com um salário de 24 milhões de dólares hoje, Bryant é o segundo atleta mais bem pago da liga. O primeiro? LeBron James, Kevin Durant, Derrick Rose, Brian Scalabrine? Não. Joe Johnson.

Sigamos em frente.

O camisa 24 hoje não é um jogador que vale isso. Longe até. Mas aqui defendo os Lakers: Kobe está sendo pago pelo que ele traz para a franquia – inclusive eles fecharam um contrato televisivo de 3 BILHÕES DE DÓLARES, que quando Kobe está em quadra vale cada centavo –  e recompensado pela sua história. O problema não são os 24 milhões, até porque a equipe de Los Angeles não está apertada pelo limite salarial e não é por isso que não tem uma superestrela na equipe hoje.

Kobe, o tirano

Esse é o problema.

O plano era na free agency de 2014 solucionar essa questão da falta de estrelas e ser galáctico novamente. LeBron James e Carmelo Anthony eram os alvos mais óbvios. Kevin Love, Chris Bosh e Paul George os mais realistas.

No fim, nenhum deles veio. A ESPN americana procurou agentes, dirigentes e pessoas envolvidas com os Lakers e a NBA em geral para saber se Kobe era a razão para os free agents, que antes morriam para ir para os Lakers, agora ignoram Los Angeles, ou pelo menos a parte e roxa e dourada. E ficou bem claro que sim, especialmente nas palavras de agentes de outros jogadores, que não revelaram seus nomes. “(Kobe) é como uma pedra no quintal. Você não pode cortar a grama em cima, então você corta pelos lados”, disse um deles.

A liga inteira viu Kobe e Shaquille O’Neal se comendo vivos e acabando com uma parceria que rendeu três títulos. E nem precisa ser uma superestrela: o lendário armador, não por boas razões, Smush Parker, jogador dos Lakers por duas temporadas, disse não “gostar do homem que Kobe é”, até porque Kobe disse sem dó nem piedade em entrevista que Parker não deveria ter jogado na liga. Karl Malone também tem suas rusgas até hoje com ele e só jogou por uma temporada em L.A.

Claro, Kobe tem um comprometimento incrível, lidera por exemplo e no grito, é o primeiro a chegar e o último a sair, todo time campeão precisa de um cara assim e bla bla bla. É muito legal falar tudo isso, mas quando você chega no trabalho, quão bom é ter um chefe que tem picos de humor, é excessivamente exigente e te cobra não só pessoalmente mas também publicamente?

Ninguém gosta disso e não é porque jogadores da NBA recebem milhões que eles tem que se sujeitar a certas coisas. Kobe nunca dominou relações interpessoais por relatos de ex-companheiros, ex-técnicos e dele mesmo, em uma declaração das mais bryantnísticas possível: “amigos vem e vão, mas banners (de campeão) ficam para sempre.”

Kobe, o fominha

Nos esportes americanos em geral, a noção de “esse é o time de X” ou “jogador Y é o franchise player” é muito forte. Por causa do Draft, do teto salarial e a quantidade de talento disponível, toda equipe tem o privilégio de ter uma estrela ou algo próximo disso. E no basquete isso fica ainda mais maximizado, já que se o jogo está pegado, a bola irá para as mãos desse dono da equipe e ele vai arremessar para colocar a equipe no jogo ou tirar ela da partida caso erre.

Pois bem, Kobe é o símbolo máximo de todos os chavões da posição de ala-armador, o “shooter”: “shoot us in or shoot us out” (traduzido acima), “you don’t think, you just shoot” (você não pensa, só arremessa) e por ai vai. Só que essa não é mais a NBA de hoje, como falei na Lance Livre passada. Além da complicação de ter 37 anos e os limites físicos que isso pressupõe, seu estilo de jogo é mais facilmente marcado. Só que um tigre nunca perde suas listras; ele sempre foi assim. Vendo o inacreditável jogo dos 81 pontos contra os Raptors, fiquei curioso para saber quantas bolas ele arremessou.

46 é a resposta. 4-6. E isso nem foi o máximo dele na carreira: ele arremessou 47 vezes contra o Boston Celtics na temporada 2002/03 (17 certos, 41 pontos). E esses dois jogos não foram um ponto fora da curva. Na lista dos 10 maiores arremessadores em um único jogo da história da liga, Bryant ocupa cinco posições. Ele arremessou 47, 46, 45, 44 duas vezes, 41 três vezes, 40, 39 duas vezes e 38 quatro vezes. Ele é o maior fominha da história da NBA, sem dúvida nenhuma. E quantas vezes isso funcionou? MUITAS. O cara tem cinco anéis.

Só que hoje isso não funciona mais. Contra o Golden State Warriors ele arremessou 14 bolas e acertou uma. Contra Philadelphia, depois de acertar as três primeiras, ele errou 19 das 23 bolas restantes. Ele é o 12º em arremessos por jogo da liga hoje, mas com 30,1% de acertos, ele é disparado o menos eficiente no top 30 dos que mais disparam. Derrick Rose, o segundo pior, tem 35,7%. O terceiro, James Harden, já está na casa dos 40% (40,1%).

E isso não é só em razão dele jogar com jovens e coadjuvantes, que ele fecha o olho e manda ver. Na temporada com Howard, (bem) pouco de Nash e Pau Gasol, ele teve média de 20,4 arremessos por jogo. É duro achar uma superestrela que aceite de boa ver Kobe tentar arremesso atrás de arremesso, mesmo marcado, e ver seus próprios números murcharem e ficar com um sorriso no rosto, feliz da vida, depois dos 82 jogos de temporada regular.

Conclusão

Kobe não machucou mais os Lakers que os dois filhos de Jerry Buss, os herdeiros de uma das marcas esportivas com mais significado no mundo. Eles – mais Jim Buss que sua irmão Jeanie – tiveram uma sucessão de erros, como ter preterido Phil Jackson para contratar Mike D’Antoni, trazer Nash por duas escolhas de primeira rodada e dar três anos de contrato para um jogador de 38 anos, e muitas outras. Mas ter dado tanta liberdade a Kobe é mais uma. E Kobe tem uma grande contribuição no atual estado patético dos Lakers.

Eu prometo que farei uma Lance Livre em homenagem a Kobe, não fiquem bravos.

Comments
To Top