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Lance Livre: analisando a troca de Kyrie Irving por Isaiah Thomas (e +) nos mínimos detalhes

troca de Kyrie Irving

Crédito: Instagram/reprodução

Eu não estava nem em casa e nem perto de um computador. Graças a Deus, na nossa cobertura no topo do prédio da Gazeta, em São Paulo, estava nosso Bruno Bataglin, senhor NFL, para escrever sobre a bomba da troca de Kyrie Irving para os Celtics para a gente.

O resumo é: Kyrie Irving para o lado verde da força por Isaiah Thomas, Jae Crowder, o pivô Ante Zizic e a escolha do Brooklyn Nets no Draft de 2018. Quer mais completo? Clique aqui.

Como prometi no título, vou analisar esta bagaça nos últimos detalhes para você ler neste frio de fim de inverno, seja no transporte, no trabalho, no colégio/universidade ou embaixo das cobertas.

Troca de Kyrie Irving: a questão da “vantagem”

Toda negociação tem um fator por trás que influencia enormemente o acordo, algo que os americanos chamam de leverage e nós não temos uma palavra exata, traduzindo ela como alavancagem ou vantagem. Enfim, o que é essa desgraça?

É simples. Quando Paul George disse para o Indiana Pacers que testaria o mercado em 2018, o que significava basicamente, “um ano e estou fora”, e essa informação vazou para o mundo, os Pacers não tinham vantagem em uma negociação com absolutamente nenhum time. Por que o Boston Celtics ou o Los Angeles Lakers pagariam caro por George se daqui um ano podem pegar ele de graça? Por isso os Pacers conseguiram tão pouco pelo seu All-Star.

Os Cavaliers não estavam na situação dos Pacers, mas não estavam em uma situação boa também. Kyrie Irving fez exatamente a mesma coisa que George e a informação vazou do mesmo jeito. A diferença é que sempre ficou aberta a possibilidade de uma reconciliação por alguns fatores: os Cavs são um time de sucesso, LeBron James, caso deixasse o orgulho de lado, poderia estender a mão e Irving tinha dois anos de contrato e não um só.

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Portanto, os Cavaliers teriam que sentar na mesa de negociações com os outros 29 times, mas além de ter a melhor peça para negócio possível – jogador jovem, hipertalentoso, já comprovou que é decisivo e com contrato por mais de um ano – ainda podia argumentar para os compradores que uma reconciliação era possível.

Por que eu disse tudo isso? Porque desde que soube da notícia ao voltar para casa e ser xingado por meu colega Bruno, eu fui procurar meus gurus de basquete, fóruns de opinião e qualquer coisa que falasse sobre a troca de Kyrie Irving, chegando finalmente até a Ana Maria Braga. E muitas vezes vi que os Cavs ganharam essa negociação porque os Celtics pagaram caro.

Discordo. Pagaram barato.

Danny Ainge está sempre no limite

Critiquei Danny Ainge por janelas seguidas por não ter aberto mão de alguns de seus assets para conseguir uma estrela. Paul George, Carmelo Anthony, Jimmy Butler e muitos outros que sabemos e até que não sabemos foram balançados na sua frente e ele sempre preferiu esperar, assim como David Luiz.

Esperou até a noite de terça-feira, 22 de agosto de 2017. Eu acho que ele esperou certo.

Duas coisas legais de falar antes

– Não lembro de duas equipes que batem frente a frente na conferência trocarem seus All-Stars na offseason

– Kyrie Irving foi a primeira escolha do Draft de 2011. Isaiah Thomas a última.

Mais uma vai: Danny Ainge conseguiu Isaiah Thomas dos Suns por uma escolha baixa de 1ª rodada e Marcus Thornton, que hoje joga na Italia.  Jae Crowder veio na negociação que levou Rajon Rondo para Dallas, algo que durou nem seis meses. E as escolhas dos Nets já foram dissecadas o suficiente. Ele ganhou as três negociações com três times diferentes.

Tá, então vamos avaliar a troca Kyrie Irving por Isaiah Thomas (e +)

Como sempre em uma negociação dessas, vale apresentar os jogadores. Kyrie Irving é um dos 3 melhores armadores da NBA. Um mestre na arte da pontuação, ele provou nas finais de 2016 e nas de 2017 que é basicamente imparável embaixo da cesta e ainda tem um tiro de média e longa distância acima da média.

Ele é melhor ofensivamente que Isaiah Thomas.

Você pode dizer “ah, mas Kyrie teve 25 pontos de média na temporada regular e Isaiah quase 30”. Isso com certeza tem muito a mais a ver com a forma que os atletas são utilizados e sua companhia que com o talento dos envolvidos. Kyrie tinha um dos maiores de todos os tempos ao lado e mais um ótimo jogador em Kevin Love. Isaiah era a principal arma ofensiva dos Celtics disparado. E os Cavs mais uma vez passearam pela temporada regular ao ponto que fizeram cagada e perderam a primeira posição.

Ambos, defensivamente, não são bons. Mas Kyrie não é uma verdadeira dor de cabeça para seus treinadores nesse ponto, enquanto Thomas é, não tanto por sua culpa mas também porque tem 1,75 m.

Passamos para Jae Crowder. O ala chegou como trocado de bolso na negociação por Rondo e se firmou nos Celtics como um marcador de perímetro incansável e além de jogar na ala pode também fazer a função de ala-pivô em formações small ball. É uma peça que todo time deve ter e com um excelente contrato, com mais três anos e um pouco menos de US$ 22 milhões a receber.

Ante Zizic é um pivô croata de 20 anos. Não vou falar tanto dele e por causa disso torcerei para ele não virar um Dirk 2.0 para este post ser relembrado pro resto de minha vida.

E por fim a escolha do Brooklyn Nets, a última que os Celtics tinham do roubo que protagonizaram em 2013. Em 2017, essa escolha resultou ser a primeira do Draft, que o time de Massachussets acabou trocando. Para 2018, é grande a chance de ser no topo ou perto dele, apesar dos Nets estarem com uma estratégia interessante e poderem ser melhores que Orlando Magic, Sacramento Kings e Atlanta Hawks, pelo menos.

Os Cavaliers então conseguiram o que queriam. Um All-Star em Thomas, um bom jogador de elenco em Crowder e uma escolha alta para um cenário muito possível: caso LeBron James vá embora, o time pode começar uma reconstrução já no primeiro instante, sem ter que ser horrível por um ano para conseguir uma escolha alta no Draft.

Só que apesar desse tempero extra (Crowder e a pick), os Celtics ganham essa troca porque além da qualidade de Kyrie Irving, superior à de Thomas, ele tem contrato por dois anos, enquanto o baixinho tem só mais um. E Thomas já disse que quer o contrato máximo ou perto dele.

O contrato de Thomas será um problema

Isaiah Thomas ia querer cinco anos e US$ 200 milhões do Boston Celtics e agora ele vai querer quatro anos e US$ 175 milhões do Cleveland Cavaliers. E aqui voltamos para o conceito de leverage. O armador tem toda, já que sai de uma temporada espetacular, onde ele elevou seu time a um novo patamar e os contratos na NBA estão com valores malucos. Você vai me dizer que ele não merece muito mais que Jrue Holiday, que ganhou cinco anos e US$ 125 milhões?

E caso Celtics antes e Cavs agora não queiram dar esse contrato, é provável que ele ache quem queira.

O problema: Isaiah Thomas terá 29 anos no verão (do hemisfério Norte) de 2018. Ele tem 1,75 m e o histórico de armadores baixos e que dependem muito da habilidade e agilidade para conseguir jogar é péssimo após os 30, com seu xará sendo um belo exemplo: com 32, o bad boy teve uma queda de rendimento grande e com 33 estava aposentado após uma lesão no Aquiles.  E o novo Thomas lesionou seu quadril nos últimos playoffs e preferiu não fazer uma cirurgia. Ainge admitiu que essa lesão pesou na sua mentalidade entrando na negociação.

É bem possível que um contrato longo para Thomas nesse cenário valha a pena na primeira e segunda temporada, mas seja um gigantesco problema no fim (quando ele tiver 33 e 34 anos), quando o camisa 4 representará um peso gigante na folha salarial.

Ainge se livrou desse possível problema ao não ter que sentar na mesa de negociações com Isaiah Thomas e pegar um armador ainda melhor, com um ano a mais de contrato e três anos a menos de vida vivida vivosa.

Para mim, os Celtics ganharam essa, por mais que os Cavaliers tenham conseguido o que queriam: um jogador para impactar imediatamente e uma peça para o futuro. E o melhor de tudo: ambos estão na mesma conferência, são favoritos para chegar nas finais do Leste e jogam pela primeira vez já no primeiro dia da temporada regular. A NBA é realmente demais.

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