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A narrativa Kevin Durant nos Knicks: os fatos, as ilusões e no que ficar de olho

kevin durant nos knicks

Graças a LeBron James (versão 2010), toda superestrela que se aproxima da free agency na NBA é uma fábrica de boatos. Desde a primeira saída do camisa 23 de Cleveland, vários outros All-Stars trocaram os times que o draftaram por outro, seja via mercado ou então forçando uma troca. Kevin Durant se encaixa no primeiro caso. E Kevin Durant nos Knicks é meu novo boato favorito.

Depois de uma semi-provocação minha no Instagram e Facebook, alguns comentários vieram me inquirir sobre porque fiz o comentário que Kevin Durant seria um futuro knickerbocker.

Bom, eu fiz isso várias vezes ano passado sobre LeBron James nos Lakers. Não porque tinha como fonte o primo de LeBron e sim porque acreditava em toda a narrativa “LeBron tem casas em Los Angeles + Lakers e L.A. é difícil de recusar + LeBron não gosta do dono dos Cavs + os Cavs são uma bagunça + ele cumpriu seu objetivo no Ohio (título inédito + ele nunca se comprometeu com o time além de 2018”.

Agora eu não confio tanto nessa narrativa Kevin Durant nos Knicks. Em uma escala 1 a 10, estou em 3. Com LeBron estava em sete. Então neste texto vou separar os fatos dessa história: o que pode ser relacionado, mas é meio uma ilusão, e o que é uma total viagem. Vamos nessa.

Os fatos na narrativa Kevin Durant nos Knicks

1 – O contrato de Kevin Durant com o Golden State Warriors nesta offseason pode ser rasgado por uma player option, com o ala voltando ao mercado. Isso é normal, ele já foi um agente livre outras vezes, inclusive desde que trocou Oklahoma City pela Bay Area.

Mas uma declaração dele nesta semana é para ficar antenado. Ele disse que não está pensando em nada da free agency (reuniões, mimos, etc) além de…

“Eu não penso em nada dessa mer**. Eu estou pensando no dinheiro que vou conseguir. Eu nunca tive o contrato (gigantesco). Eu vi um monte de caras na liga em minha volta fazendo tanto dinheiro. E estou feliz por eles. Mas eu sei que mereço também. Essa é a única coisa que estou pensando sobre, para ser honesto”.

Durant está mais do que certo. Nos Warriors, ele já assinou três contratos, todos de um ano com um salário bom, mas nunca teve o contrato máximo que um zilhão de outros jogadores tiveram (Russell Westbrook e James Harden inclusos). Ele até abriu mão de dinheiro, especialmente no seu segundo contrato (aprox. US$ 10 milhões) a menos, para o time conseguir manter Andre Iguodala e Shaun Livingston.

Em 2017, Stephen Curry assinou um contrato de cinco anos e US$ 201 milhões. E Durant quer o mesmo, pode ter certeza. O problema é que os Warriors estão acima do teto e pagando multa atrás de multa. E se o atual balanço do elenco começa a ficar muito “ricos em cima, salários mínimos para completar”, Klay Thompson também é free agent nesta temporada. Draymond Green é free agent em 2020.

Os Warriors podem arranjar dinheiro, claro, e pagar mais multas. Mas é possível que o time tente entrar nas negociações pedindo para que Durant não consiga o máximo. E pode ter certeza que outros times na NBA vão oferecer tudo que eles puderem.

2 – Kevin Durant tem a todo momento jogado na cara dele o fato que ele deixou sua “missão” para se juntar a um time que teve 73 vitórias na temporada regular. E ele se importa com isso, tanto que discute no Instagram e até contas falsas fez para ficar batendo boca no campo virtual. Nas entrevistas, dá para notar o incômodo dele com isso também.

A ideia do “time X é do jogador Y” é intrínseca à NBA. Não se discute isso porque é evidente. E isso fica claro toda vez que você está dois pontos atrás com oito segundos e precisa de uma cesta da vitória ou do empate. A bola precisa ir para o franchise player.

Durant já decidiu muito para os Warriors, inclusive sendo duas vezes o MVP das finais. Mas alguém duvida de quem é esse time e qual é o jogador favorito do torcedor? Dica: é do armador, camisa 30, duas vezes MVP pela equipe, que tirou a franquia da draga, deu o primeiro título nessa sequência de três e ainda é divertido, nada egoísta e foi draftado pela organização.

Neste caso não dá para saber tanto se essa narrativa isso incomoda Durant porque Curry sempre afastou qualquer papo sobre o assunto e parece ser o franchise player ideal, avesso a novelas e focado na quadra. Mas é inegável que ter um time para chamar de seu é algo que importa para as estrelas e, se você acha que não, pergunte para Kyrie Irving.

3 – O agente e parceiro de negócios de Kevin Durant (Rich Kleiman) é um torcedor fanático dos Knicks. Inclusive já disse que gostaria de uma posição na organização. Não estou dizendo que isso é um fator fundamental, mas tem alguém no ouvido dele falando sobre Nova York e a tradição dos Knicks, que busca um salvador desde os anos 70 das formas mais patéticas possíveis.

Durant é hiperligado a esse agente, tanto que nas entrevistas para o podcast do jornalista Bill Simmons (foram quatro), onde o camisa 35 se abriu de todas as formas, o agente não só estava presente como ainda tinha um microfone e algumas vezes ditava a entrevista. Ou seja, é uma pessoa com peso na hora da decisão.

Para ligar os pontos: os Knicks têm espaço para oferecer um contrato de quatro anos pelo máximo para Kevin Durant. Em Nova York ele seria o franchise player sem dúvida alguma. Se ele conseguir um título ali, todo o papo que ele foi fraco, que não liderou um time dele ao título simplesmente evapora. É exatamente a mesma coisa que LeBron passou em Miami – “só ganhou quando fez panela” – e superou na segunda passagem em Cleveland.

As ilusões: pontos que importam, mas também podem jogar um pouco contra

4 – Nova York é a terra prometida. É o maior mercado dos Estados Unidos. O Madison Square Garden é a Meca do Basquete. Os Knicks estão na Conferência Leste, mais fraca. Os Knicks são um time de imensa tradição, apesar da seca vergonhosa. Quem levar o título para a franquia vira o rei de Nova York até a sua morte. E todo erro cometido em vida será jogado para segundo plano.

Contra ponto: mas também é a cidade que derruba treinadores a ritmo alucinado, cheia de tentações, puxa-sacos e uma imprensa que tem quase prazer em jogar contra e fazer manchetes geniais.

5 – Os Knicks deram uma varrida em sua organização. Eu não acho que a era Phil Jackson foi um desastre, mas só porque para o padrão Knicks já teve coisa muito pior. Mas com Steve Mills (que fez parte da era Jackson) e o respeitado Scott Perry, que rodou bastante até conseguir sua chance como GM, o time é mais respeitado em sua organização, no fora de quadra.

Aliás, Perry estava no Seattle SuperSonics como assistente de GM em 2007. Sabe o que aconteceu na franquia nesse ano? Eles draftaram Kevin Durant.

Contra ponto: Mas todos eles são subalternos de um dos piores donos da NBA, James Dolan. Odiado por muitos jogadores, ele fez as piores contratações para diretoria possíveis e nunca conseguiu deixar o ambiente nos Knicks em um nível melhor do que abaixo de tóxico.

6 – Os Knicks têm talento jovem, com Kristaps Porzingis sendo uma realidade e talvez melhor posicionado para ser um excelente número 2 do que um franchise player. O time ainda tem Frank Ntilikina e Kevin Knox, draftado neste ano. David Fizdale também é bem visto na NBA.

Contra ponto: O problema é que Porzingis tem 2 metros e muito e lesões sempre são preocupantes para essas torres, especialmente uma ruptura de ligamento. Ntilikina é um excelente defensor, mas pode nunca se tornar um armador que pontua de forma constante, algo que basicamente todo time da NBA tem hoje.

Fizdale é bom, mas em sua única passagem como treinador tretou tão feio com Marc Gasol que foi demitido por isso em Memphis.

No que ficar de olho

Um ano depois de toda a experiência “último ano de LeBron em Cleveland”, nós temos que observar os sinais e aprender com o passado. Outdoors de fãs tentando convencer um jogador pode ser legalzinho, mas tem peso mínimo. O que importa para os Knicks é vender a franquia como um destino desejável.

Ter contratado David Fizdale é um ponto positivo, já que tirando Gasol, ele é querido no mundo da NBA. Como assistente do Miami Heat na época do supertime ele tinha contato direto com LeBron James, Chris Bosh e Dwyane Wade e todos eles gostam de Fizdale.

Vender a ideia de espaço no teto salarial, Kristaps Porzingis (que aliás precisa de um contrato na próxima offseason), o fato de estar em um Leste completamente aberto e ser Nova York, uma megalópole do cace** é também ideal.

Declarações vazias de Durant sobre continuidade na Bay Area também devem ser levadas em consideração. Ele adora dar indiretas e essa sobre querer receber um contrato máximo é o recado mais direto possível abaixo de “donos dos Warriors, tirem a por** do ESCORPIÃO DO BOLSO PARA MIM”

Conta contra o histórico recente dos Knicks? Claro que sim. Mas é só lembrar aqui de outra história similar: os Cubs. Com um front office bem organizado e movimentações claras para ter talento jovem e possibilidade de investimento, a ideia de ir jogar nos Cubs passou de loucura – “como vou jogar em um time virgem de 100 anos?” – para uma excelente escolha: “se eu encerro o jejum de 100 anos, eu me torno lenda”.

Kevin Durant vai ganhar seu terceiro título provavelmente nesta temporada. Voltar para um quarto não muda tanto na sua carreira porque ele vai continuar com a mesma nuvem sobre ele, não importa que ele seja Finals MVP fazendo 50 pontos por jogo.

Ele ainda vai ser chamado de fraco e sempre que falarmos sobre sua carreira e os títulos, não daremos o mesmo peso que o dado para Dirk Nowitzki em seu único título pelos Mavs, por exemplo.

Mas se ele aceita um desafio como os Knicks, recebendo o dinheiro que ele quer e com a possibilidade de encerrar um jejum de 40 e tantos anos no principal mercado americano, ele torna-se inegável. E assim seu legado – palavra que é quase um mantra para todos os esportistas americanos hoje – ficará mais do que completo.

Achar que isso vale 3 de 10 em uma escala é justo? Você acha que os pontos se conectam? Mande um comentário para nós então.

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