Bullpen

Marge Schott, uma mulher que falava muito. Até o que não devia.

Depois de dias de repercussão e de investigação, no início desta semana o novo comissário da NBA, Adam Silver, tornou públicas as penalidades sobre o dono dos Clippers, Donald Sterling, após este ter sido flagrado fazendo comentários racistas e discriminatórios com sua namorada. Entre as punições, a que mais chamou a atenção foi a banição permanente e a imposição da venda de suas ações da equipe. Não foi o primeiro caso nas grandes ligas americanas (e também não será o último) em que um individuo foi banido permanentemente por suas ações. O caso Sterling, entretanto, ressoa um outro personagem infame da história do esporte norte-americano, porém, da MLB: Marge Schott, ex-dona e presidenta do Cincinnati Reds.

Marge Schott foi uma pioneira ao se tornar a primeira mulher a comprar uma porcentagem majoritária de uma franquia da MLB. Ao contrário de outras donas de sua época, como Joan Payson, dona dos Mets, Joan Kroc, dos Padres e Jean Yawkey, dos Red Sox, Schott não herdou a posição ápos a morte de seu marido como todas as citadas previamente. Seu marido, Charles Schott, foi um grande empresário e, quando este morreu, Marge herdou um império de concessionárias automobilísticas, seguradores e materiais de contrução.

Com a fortuna, Marge, em 1981, comprou uma pequena parcela das ações dos Reds, por 1.1 milhão de dólares e se juntou aos irmãos Wiliam e James Williams, que também eram donos da outra equipe da cidade: o Cincinnati Bengals, da NFL. Já no fim de 1984, época em que a equipe dos Bengals sofria de problemas financeiros, Schott adquiriu, dos irmãos Williams, a porcentagem majoritária da franquia por 64 milhões de dólares, temendo que os dois vendessem a franquia para um grupo de outra cidade e, em 1985, Schott se tornou dona e presidenta dos Reds.

Marge era conhecida por sua capacidade ofender as pessoas, o que levou o comissário da MLB, Bud Selig, a suspendê-la por duas ocasiões nos anos 90 e, por fim, forçá-la a vender parte da franquia, assim como Sterling.

Antes de ser suspensa, a presidenta dos Reds já era conhecida por sua exectricidade. Os Reds tinham menos olheiros e funcionários do que qualquer outra equipe e Schott relutava em assinar cheques de valores maiores que 50 doláres. Quando Eric Davis, um dos principais nomes da equipe campeã de 1990, sofreu uma lesão no rim durante a World Series, o jogador teve que arcar com os custos de seu retorno de Oakland para Ohio. Quando o time foi campeão no mesmo ano, nem festa teve. E quando Bob Quinn, general manager que montou a equipe campeã, quis ir para o All Star Game, também teve que pagar a viagem do seu bolso. Mesmo sabendo de suas atitudes controversas, Selig nada podia fazer sobre isso. Porém, quando alegações citando práticas discriminatórias e declarações racistas e anti-semitas de Marge foram expostas por um ex-funcionário dos Reds, que entrou na justiça alegando sido demitido injustamente, Schott começou a ter problemas.

Segundo Tim Sabo, ex-chefe financeiro da equipe, Schott chavama os outfielders Eric Davis e Dave Parker de “million dollar niggas” (negros de um milhão de dólares) e que ela apresentava atitudes racistas nos escritórios da franquia. Roger Blaemire, ex-diretor de operações, e Cal Levy, ex-diretor de marketing e hoje consultor de marketing da equipe, também vieram a público na época e alegaram que Schott havia, em certa ocasião, dito: “pelo amor, Judeus são todos iguais”, que ela não conseguia entender porque ter uma suástica nazista em casa era algo ofensivo para alguns e que ela não apoiava minorias a exercerem funções nas operações diárias da franquia. Ao tentar explicar a presença de uma bracadeira nazista em sua casa, Schott disse ao New York Times que isso havia sido um presente e ainda revelou que “Hitler foi bom no início, mas depois foi muito longe”.

Foi o basta que Selig prescisava ouvir e, imediatamente após as declarações, o comissário abriu uma investigação e, no início de 1993, com apoio de um comitê formado por outros donos de franquias da MLB, Selig suspendeu Schott por toda a temporada de 1993, proibindo-a de participar das decisões da equipe e multando-a em 25 mil dólares. Além disso, Selig ordenou que a dona dos Reds participasse de “programas de treinamento multi-cultural”.

Marge Schott chegou a doar milhares de dólares para organizações que defendiam as minorias na região de Cincinnati, se desculpou por sua “insesibidade” e alegou que pensava que sua linguagem pudesse ajudá-la a ser aceitada em uma indústria dominada por homens.

No final de 1993 Schott voltou às operações da equipe e logo voltou a ser a polêmica pessoa que era. Em maio do ano seguinte ela chegou a dizer que “apenas frutinhas usam brincos”, se referindo a tendência cresencente de jogadores de beisebol usarem brincos e jóias. No fatídico primeiro de abril de 1996, quando o árbitro John McSherry teve um infarto e morreu logo no início do jogo de abertura dos Reds, no Riverfront Stadium (então casa dos Reds), Schott foi flagrada dizendo: “Neve de manhã e agora isso. Eu não acredito”.

Em maio de 1996, a dona dos Red voltou a exaltar Hitler em uma entrevista com Sal Paolantonio: “Quando ele chegou, ele era bom. Eles construíram tremendas estradas e fizeram várias fabricas andarem. Aí ele ficou louco, fora de controle. Todo mundo sabe que ele foi bom no começo, mas acabou indo longe demais”, disseNo mesmo ano, declarações de Schott menosprezando a mulher no mercado de trabalho também foram reveladas em uma reportagem de Ricky Reilly para a Sports Illustrated. “Vou te contar uma coisa querido. Alguns dos maiores problemas nessa cidade vem das mulheres querendo deixar suas casas para trabalhar.”, disse Schott, que ainda falou sobre a presença de repórteres femininas nos vestiários: “Porque essas repórteres tem que entrar no vestiário? Porque elas nao podem esperar lá fora? Eu realmente não acho que o beisebol é um mundo feminino querido. Realmente não acho. Acho que ele deveria ser deixado com os meninos”.

Em junho de 1996, novamente apoiado por outros donos, Selig voltou a suspender Schott, desta vez por dois anos e meio, até o fim da temporada de 1998. A punição, e sua duração em si, tiveram influência da punição anterior, já que ela a avisava para não se adotar condutas similares no futuro. Porém, ao contrário da suspensão anterior, desta vez Schott poderia ter a palavra final nos orçamentos operacionais da equipe e consultar as negociações do que viria a ser o novo estádio dos Reds, o Great American Ballpark. Selig também prometeu que ofensas futuras levariam a algo mais sério.

Mesmo com Schott suspensa, a liga não parou e constantemente a pressionava a vender a maioria de suas ações dos Reds, sob ameçadas de aumentar a suspensão. Finalmente, em abril de 1999, Marge concordou em vender a maioria de suas acões da equipe por 67 milhões de dólares, para um grupo liderado por Carl Lindner. O beisebol finalmente se livrou de Marge Schott, a dona e presidenta das opiniões e declarações fortes, ofensivas e polêmicas. Uma mulher que não media suas palavras, que falava muito e o que não devia, e que sofreu as consequências por isso.

Schott morreu em 2004, aos 75 anos, mas não antes de encontrar um tempo para processar o novo dono dos Reds, Carl Lindner, em 2003, por seu assento no recém-inaugurado estádio da franquia que chefiou por 15 controversos anos.

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