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Pancrácio – A lenda da primeira arte marcial mista e o início do MMA

Pancrácio - A lenda da primeira arte marcial mista e o início do MMA

Pancrácio ou Pankration (em inglês) foi uma modalidade esportiva criada pelos gregos e introduzida no 33º Jogos Olímpicos Antigos, por volta de 648 a.C., ou seja, há mais de 2600 anos. Em grego, significa “todos os poderes”. É considerado um dos precursores do MMA (Mixed Martial Arts). Os gregos acreditam que este esporte foi criado por dois semideus, filhos de Zeus e Poseidon.

A história do pancrácio

Antes de mais nada, na Mitologia Grega, foi dito que os heróis e primos, Hércules (1.286 a.C.) e Teseu (1.252 a.C.), inventaram o pancrácio como resultado da combinação da luta livre e do boxe em seus confrontos com os adversários.

Conhecido na lenda, Hércules estrangulou (ao melhor estilo Gracie) o Leão de Neméia, pois o leão tinha uma pele quase invulnerável, na qual o herói não conseguiu matá-lo nem com sua clava ou tampouco com seu arco.

Teseu, seu primo, usou suas extraordinárias habilidades de pancrácio para derrotar diversos adversários, a maioria humanos. Além, é claro, do temido Minotauro do Labirinto de Creta, apesar de ter matado o monstro com uma espada.

Pancrácio - A lenda da primeira arte marcial mista e o início do MMA

Hércules e Teseu (primos inventores do pancrácio) | Reprodução / Crestonhall

As técnicas do pancrácio

Em primeiro lugar, os atletas usavam técnicas de boxe, luta-livre (wrestling), além de chutes, pegadas, travas nas articulações e estrangulamento no chão (antes mesmo da criação do jiu-jítsu), sendo este o primeiro movimento do MMA no mundo.

Tudo era permitido, exceto enfiar os dedos nos olhos, atacar a região genital, arranhar ou morder. Ao contrário do boxe, as mãos ficavam nuas no pancrácio. A vitória ocorria quando um dos atletas já não conseguia continuar a luta. Logo, levantava um dedo para que o juiz parasse a luta.

“Você poderia fazer qualquer coisa que pudesse para incapacitar seu oponente”, explicou Paul Christesen, professor de História da Grécia Antiga no Dartmouth College, nos Estados Unidos. “E os gregos achavam que isso era a coisa mais legal de todas”, concluiu.

Há evidências de que, embora os nocautes fossem comuns, a maioria das lutas de pancrácio acabavam sendo decidida com base da desistência. Estes atletas eram grapplers altamente qualificados e extremamente eficazes na aplicação de uma variedade de quedas, estrangulamentos e travas de articulação.

“Sabemos que algumas pessoas morreram”, disse Christesen. “Nosso palpite é que houve muitos ferimentos realmente graves, mas não muitas mortes, porque ou você desmaia num golpe ou se rende antes de morrer”.

Estrutura da competição

Não havia divisões de peso nem limites de tempo nos combates. Nos Jogos Olímpicos Antigos, especificamente, havia dois grupos de idade: homens e meninos. O evento para meninos iniciou-se nos Jogos Olímpicos de 200 a.C.

Os árbitros ficavam armados com fortes varas ou interruptores para fazer cumprir as regras. Apesar da rendição ser o tradicional término, os juízes tinha o direito de interromper uma competição sob certas condições e conceder a vitória a um dos dois atletas. Bem como declarar o empate do concurso.

Pancrácio - A lenda da primeira arte marcial mista e o início do MMA

Lista de esportes ascendentes dos Jogos Olímpicos | Reprodução / Britannica

Campeão póstumo pela glória no pancrácio

Não é de hoje que lutadores não se entregam numa finalização para não perder a luta. Arrichion de Phigalia foi um tricampeão de pancrácio nos Jogos Olímpicos Antigos. Ele morreu em 564 a.C. enquanto defendia com sucesso seu terceiro título no esporte na 54ª Olimpíada. Arrichion foi descrito como “o mais famoso de todos os pankratiastas”.

Pego em um terrível estrangulamento, Arrichion agarrou o pé de seu oponente e, com as últimas forças, esmagou-o, deslocando o tornozelo. Incapaz de suportar a dor, o homem anônimo ergueu o dedo indicador para sinalizar submissão. No mesmo momento, Arrichion ofegou seu último suspiro e acabou condecorado postumamente com a vitória porque seu rival já havia se rendido.

Filóstrato de Atenas, escrito grego, escreveu em seu Gymnasticus que a falha de Arrichion em se submeter ao seu oponente foi o resultado de seu treinador, Eryxias, gritando para ele: “Que epitáfio nobre! Ele (Arrichion) nunca foi derrotado em Olimpíada”, o que estimulou a continuidade do lutador e levou a sua morte.

Uma estátua vitoriosa de Arrichion foi erguida em Phigalia, o que se acredita ser a mesma estátua agora está em exibição no museu de Olympia. É uma das mais antigas estátuas de um vencedor olímpico. Seu corpo foi coroado com a coroa de oliveiras e voltou para a Phigalia como um herói.

Pancrácio nos exércitos gregos

Os combates eram utilizados, por exemplo, para treinamentos militares e costumava durar até o oponente ficar incosciente. Em casos extremos, uma competição de pancrácio poderia resultar até na morte de um dos oponentes, o que era considerado uma vitória.

O pancrácio fazia parte do arsenal de soldados gregos – incluindo os famosos de Espartas. A lenda conta que os espartanos, liderados por Leônidas I (do filme 300), em sua posição imortal, durante a Batalha das Termópilas, lutaram com as mãos e os dentes nus depois que suas espadas e lanças se quebraram.

Inclusive, em Esparta, era o único lugar onde nessa luta era permitido arrancar os olhos e morder, afinal, os fins eram mais de sobrevivência do que esportivos. Dessa forma, os feitos dos antigos lutadores viraram lendários nos anais do atletismo grego.

O fim do pancrácio

Em 393 d.C., o pancrácio, junto com o combate de gladiadores e todos os festivais pagãos, acabou abolido por decreto do imperador cristão bizantino Teodósio I. O esporte foi um evento nos Jogos Olímpicos por cerca de 1.400 anos.

Possível volta do esporte

Decerto, na época do renascimento dos Jogos Olímpicos (1896), o pancrácio não foi reintegrado como um evento olímpico. Mas, decerto, é um dos precursores dos esportes de luta, bem como a luta-livre e o boxe. A volta do esporte como Neo-pankration (pancrácio moderno) surgiu do atleta de combate grego-americano Jim Arvanitis, em 1969. Mas só em 1973, quando apareceu na revista Black Belt, é que ganhou notoriedade.

Assim, o grego refinou o esporte a reconstrução com referência às fontes originais. Portanto, Jim é considerado o Homem da Renascença do Pancrácio e o fundador deste novo esporte, que mistura os resquícios do antigo combate e elementos encontrados em fontes modernas, como boxe ocidental, savatê, luta greco-romana, muay-thai e judô.

De fato, o Comitê Olímpico Internacional (COI) não lista o pancrácio entre os esportes olímpicos. Contudo, em 2010, o esporte de combate acabou aceito pela FILA (Fed. Intern. Lutas Associadas), conhecido hoje como United World Wrestling, que rege os códigos da luta olímpica, como uma disciplina associada e uma “forma de arte marcial mista moderna”. Por fim, o pancrácio então acabou reconhecido pela primeira vez nos Jogos Mundiais de Combate em 2010.

Foto destaque: Reprodução / Olympics

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