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Lei Tai – O primeiro evento de MMA

Lei Tai - O primeiro evento de MMA

MMA chinês vem crescendo no cenário das artes marciais mistas, principalmente quando a lutadora Zhang Weili tornou-se campeã do UFC. Como quase tudo no mundo pode ter surgido na China Antiga, afinal, os registros mais distantes de qualquer coisa está por lá, é do país mais populoso do mundo que surgiram as artes marciais, há mais de 7 mil anos. E é justamente da China vem um dos primeiros eventos de combate de artes marciais mistas (MMA): o lei tai.

A história das artes marciais chinesas

De acordo com a lenda, as artes marciais chinesas se originaram durante a semi-mítica Dinastia Xia (2.100 a.C.), há mais de 4.000 anos. Diz-se que o Imperador Amarelo, Huangdi, introduziu os primeiros sistemas de luta na China, sob o nome original Wushu, literalmente arte marcial. No século XX, o nome ficou mundialmente conhecido como Kung Fu.

Porém, o termo Kung Fu em chinês acabou se aplicando a qualquer habilidade adquirida por meio do aprendizado ou da prática. É uma palavra composta pelas palavras “trabalho”, “realização” ou “mérito”. Logo, podemos entender o Kung Fu numa tradução não formal como poesia. Decerto, Kung Fu significa, literalmente, “caminho do tempo de habilidade”.

O Imperador Amarelo é descrito como um famoso general que, antes de se tornar o líder da China, escreveu longos tratados sobre medicina, astrologia e artes marciais. Mas é certo que a origem das artes marciais chinesas pode ser rastreadas até a sociedade primitiva.

A origem do lei tai

Na China Antiga, o primeiro evento de artes marciais mistas apareceu sob o nome de lei tai (lutar na plataforma), uma arena de luta elevada, sem grades, onde costumavam ocorrer combate fatais e torneios de artes marciais sem proteção. Ou seja, não era um esporte, mas, sim, um evento.

Este evento sem barreiras combinava artes marciais chinesas, boxe e luta livre. Logo, o lei tai pode ser considerado o primeiro evento de artes marciais mistas. Bem como o pancrácio, a primeira arte marcial mista, ambos precursores do MMA.

De acordo com o Instituto Kuoshu Chinês (Reino Unido), estima-se que o lei tai tenha sido criado durante a Dinastia Qin (221 a.C.) para manter competições de lutas entre soldados imperiais. O vencedor seria escolhido para atuar como guarda-costas do imperador ou instrutor de artes marciais do Exército Imperial.

 

As dimensões e regras de lei tai

Os duelos tinham um árbitro na plataforma e juízes nas laterais. A área de combate era quadrada, mas seu tamanho exato varia, afinal, cada lutador construía o seu. A medida mais aceita vem de acordo com o livro Chinese Fast Wrestling for Fighting, onde o palco media entre 7,3 e 8,0 metros de área. Às vezes tinha uma altura que poderia variar até 1,5 metros.

Os lutadores perderiam se render se fossem incapacitados, jogados ou forçados a sair do “palco”. O vencedor permaneceria na arena (como seu dono) a menos que fosse eliminado por um oponente mais forte. Se não houvesse mais desafiadores, ele se tornaria o campeão. Os duelos não tinham muitas regras e às vezes eram travados até a morte. De acordo com o famoso lutador de kickboxing e MMA vietnamita Cung Le, ex-UFC:

“Antigamente, se você quisesse ser o lutador de uma nova aldeia, você construía um lei tai, subia nele e convidava todos os visitantes a tentarem lhe vencer. Alguns lutadores lançavam seu desafio na forma de uma carta escrita à mão para a pessoa que desejavam enfrentar”.

Lei Tai - O primeiro evento de MMA

Plataforma de Lei Tai no desenho Dragon Ball Z (Reprodução / The Dao of Dragon Ball)

Os desafios de lei tai foi parar nas telonas

Esta forma de desafio foi ilustrada no filme O Mestre das Armas. Baseada em fatos, na obra cinematográfica, Jet Li interpreta Huo Yuanjia (1868-1910), um real artista marcial que utilizou o lei tai como resistência. No filme, Huo foi o maior e mais famoso mestre de toda a China. Porém, após uma grande guerra, o país acabou dominado por estrangeiros.

Decididos a acabar com a auto-estima do povo chinês, os novos governantes organizam um torneio (lei tai) que contaria com guerreiros de vários países. A ideia era mostrar a todos a superioridade dos estrangeiros frente aos chineses. Mas o que eles não esperavam era que Huo decidisse também participar da competição.

Huo Yuanjia: o primeiro grande guerreiro de lei tai

Considerado um herói na China por derrotar lutadores estrangeiros em lutas altamente divulgadas em um momento em que a soberania chinesa estava sendo ameaçada pelo imperialismo estrangeiro.

A fama de Yuanjia se iniciou em 1902, quando respondeu a um desafio anunciado por um lutador russo que abertamente chamou os chineses de “homens doentes da Ásia” porque ninguém aceitou seu desafio para uma luta. Contudo, o russo desistiu quando Huo aceitou seu desafio.

Entre 1909 e 1910, Yuanjia viajou a Xangai duas vezes para aceitar um desafio aberto apresentado por um boxeador irlandês, Hercules O'Brien. Os dois discutiram sobre as regras que regeriam as lutas e acabaram concordando que quem derrubasse seu oponente seria o vencedor. A vitória local foi uma grande inspiração para o povo chinês e os fez questionar a base do domínio imperialista.

O lei tai inspirou o vale-tudo

Resumidamente, lei tai é uma plataforma de luta construída para provar aos adversários que suas habilidades de artes marciais mistas são melhores que a do rival. Dessa forma, em 1904, o judoca japonês Mitsuyo Maeda, conhecido como Conde Koma, um dos cinco maiores especialistas nos fundamentos do judô, treinado pelo fundador do judô, Kano Jigoro, viajou ao exterior para demonstrar e divulgar sua arte ao mundo.

Assim, visitou vários países dando demonstrações de judô e, ao melhor estilo lei tai, aceitou desafios de lutadores de boxe, savatê e vários outros artistas marciais. Logo, chegou ao Brasil em 14 de novembro de 1914. Dois anos mais tarde (1916), o circo ítalo-argentino Queirolo Brothers, do influente empresário Gastão Gracie, ajudou Maeda a estabelecer-se ao permitir apresentações do artista marcial em seu circo.

O judô na Família Gracie

Para demonstrar sua gratidão, Maeda prontificou-se a ensinar o judô (jiu-jitsu de Kano) a Carlos Gracie, filho mais velho de Gastão. Carlos aprendeu por alguns anos e, depois, passou seu conhecimento para os irmãos. No entanto, Hélio Gracie, irmão mais novo de Carlos, acabou dando um refinamento técnico da arte japonesa, o que o levou a ser conhecido como o “Criador do Jiu-Jitsu Brasileiro (BJJ)”.

Hélio era o mais novo de seus oito irmãos e possuía a saúde mais debilitada e frágil, por isso adaptou a modalidade para que qualquer um pudesse lutar. Assim, para demonstrar a eficácia de seus métodos, Hélio Gracie desafiou todos os principais representantes de cada arte marcial praticada no Brasil, vencendo todos. Por fim, nascia um combate de diferentes estilos marciais a fim de provar qual a melhor modalidade, sendo conhecido como vale-tudo.

Foto destaque: Divulgação / Quinto Quarto BR

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