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Lance Livre: um jogo icônico demais para ser esquecido

Crédito: Instagram/reprodução

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Quem lê a Lance Livre, assim como a Redzone, as colunas de NBA e NFL respectivamente, sabe que eu gosto de falar de diversos tópicos, principalmente equipes ou jogadores em específico. Afinal, com 32 e 30 franquias, assunto simplesmente não falta. Mas para a coluna desta semana eu só vou falar de um jogo em específico. E não é nem um jogo entre as duas melhores franquias da NBA ou algo próximo disso.

O jogo foi entre uma equipe 15-0 e uma equipe 2-11. E ele veio carregado de significado.

Golden State Warriors x Los Angeles Lakers

Os 2-11 vestem o uniforme da franquia 15x campeã da NBA, com um remanescente dos tempos dourados, o cinco vezes campeão Kobe Bryant. Do outro lado, os 15-0, a um triunfo do recorde histórico de vitórias para começar uma temporada. Destaca-se também o fato que são os atuais campeões, dando um título a uma franquia que não vencia há quatro décadas.

O resultado era óbvio. Ainda mais que era na Oracle Arena, casa dos Warriors. Las Vegas, para “equiparar” a partida, deu 17 pontos de graça para os Lakers. Quem apostasse em Lakers +17 e visse o time de Los Angeles perder por apenas 15, ganhava a aposta. Não há desrespeito maior que dar 17 pontos. Para você ter uma noção, o Philadelphia 76ers, com um time de D-League, na sua viagem a San Antonio recebeu 16 pontos de graça. E PERDEU “SÓ” DE 9.

E a partida começou. A verdade é que se os cassinos dessem 30 pontos, ainda seria fácil para os Warriors baterem. O problema não são os jogadores, o quinteto titular e o banco. Claro que uma equipe que se dá ao luxo de vir com Andre Iguodala, Shaun Livingston, Festus Ezeli, Leandrinho e Marreese Speights na segunda unidade é superior a toda a liga basicamente, mas esse não é o principal ponto.

Mas estou me adiantando.

A partida começou. Não esperava uma performance espetacular de Kobe, mas o suficiente para ele dizer “hey, vocês querem um recorde, mas antes vão ter que passar por cima de mim. EU SOU KOBE FUCKI&%( BRYANT”. Só que o único que o camisa 24 mostrou é como o jogo simplesmente passou por ele como um ônibus às sete da manhã pulando seu ponto. Ele era o cara com uma máquina de escrever enquanto Stephen Curry e Klay Thompson estavam com tablets. O fato de ele ter arremessado 14 bolas e acertado uma não é só pelo fato de que ele arremessa mal. É que ele arremessa os piores arremessos possíveis. O primeiro do jogo foi um tiro longo de dois, bem marcado e sem assistência, o similar a ir no cabeleireiro em 2015 e pedir um mullet. Ele ainda teve três air balls vergonhosos, mas vergonhosos mesmo, daquelas que você vê no parque no domingão e até o atleta de fim de semana fica com vergonha.

Dá para contar nos dedos os arremessos bons que os Lakers tentaram no jogo, seja de 2 ou 3, mas rodando a bola, sem marcação tão forte. Enquanto isso, do outro lado, foram uma profusão de tiros sozinhos de três no canto da quadra – menor distância para a cesta. Só que no primeiro quarto, apesar de ter terminado 30 a 11, os tiros longos não caíram tanto para os mandantes.

A solução?

Penetrações e domínio no garrafão. Curry cansou de achar Bogut para enterradas e outros jogadores para bandejas fáceis, os famosos backdoor, livres de marcação por falta de comunicação e atenção da defesa dos Lakers. Os Warriors vão agredir de qualquer jeito e achar formas de pontuar. Depois que a vantagem já era grande o show de três rolou com mais facilidade.

Os visitantes deram 16 assistências e cometeram 14 turnovers. Os mandantes deram 32 assistências e cometeram 8 turnovers. Isso diz tudo: não só os Warriors rodam a bola incansavelmente, trocando arremessos fáceis por mais fáceis ainda, eles ainda cuidam da bola no processo. Os Lakers, com jogadores que tem cola na mão e seguram demais a bola, estão sujeitos a roubadas e passes onde há marcação.

Olhem o lance abaixo. Quatro jogadores dos Lakers olhando o rebote, Kobe dá a mensagem para as pernas (“PEGA O REBOTE”), as pernas dizem “cara, você tem 37 anos, VAI SE F&$(“, Harrison Barnes pega o rebote, passa para Curry e vai para a linha de 3 imediatamente. O atual MVP penetra. O que ele faria se fosse Kobe?

  • Tirei o primeiro marcador, estou dentro da linha de três e mesmo não muito livre, tento o arremesso.

O que Curry fez? Viu Barnes absolutamente sozinho, já que quatro adversários marcavam o nada. E este, LIVRE, teve um tiro de três dos mais fáceis na carreira.

 

@hbarnes boards, dishes, splashes on TNT

Um vídeo publicado por Golden State Warriors (@warriors) em

A verdade é que o garbage time, momento quando o jogo já está decidido e os reservas tomam a quadra, estava rolando em pleno segundo quarto. Mas com o fim do terceiro, com 34 pontos de diferença no placar, transformou os 12 minutos finais em treino. Precisando de muitos pontos, a solução dos Lakers no ataque foi tentar tiros de três ao léu – 3 certas em 20 TENTADAS – e o famoso “hero ball”, quando um jogador coloca a bola embaixo do braço e grita “agora eu se consagro”. Obviamente não adiantou.

E aí veio o último dos simbolismos. Os dois brasileiros.

Marcelinho Huertas e Leandrinho, quando se encontram na seleção nos últimos anos, são parelhos em importância. Por anos falamos em Marcelinho na NBA, como ele se destacaria e se ele conseguiria ser titular. Ontem, para um americano que não sabia nada disso, Leandrinho era um bom jogador de banco e o armador dos Lakers era um jogador que não deveria estar na liga. O jogador dos Warriors partia para a cesta, conseguia roubadas e mostrava que pertencia a aquilo que estava rolando. Marcelinho, tirando uma bola de três, foi muito mal, cometendo três turnovers de falta de atenção/coordenação em apenas 12 minutos.

É culpa de Marcelinho? Claro que não, ele é um bom jogador e entra a 120 em quadra. Mas nesses Lakers, Kobe Bryant é ridículo, a segunda escolha do Draft deste ano, à frente de Jahlil Okafor e Kristaps Porzingis, é completamente apagado e um bom armador reserva parece não pertencer à NBA.

Os Lakers jogam um basquete de 2005. E são medianos nisso.

Os Warriors jogam um basquete de 2015. E são geniais nisso.

Byron Scott precisa ser demitido e precisa ser demitido logo. E para o lugar dele, além de Tom Thibodeau e Scott Brooks, eles podem pensar no interino de Golden State, que teve uma boa conversa com Kobe no fim do jogo. Ele e Luke Walton jogaram juntos por muitos anos no Staples Center.

Não será o melhor jogo do ano. Nem seria sequer lembrado daqui um mês se não fosse pelo fato que os Warriors bateram o recorde de Washington Capitals e Houston Rockets. Mas foi o jogo que mostrou o que é bom basquete e o que é um basquete terrível. E isso é suficiente para não ser esquecido.

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