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Encefalopatia Traumática Crônica: o que é CTE e sua relação com o futebol americano

CTE Encefalopatia Traumática Crônica

A Encefalopatia Traumática Crônica, e sua sigla em inglês (CTE), são citadas em várias e várias notícias que têm o futebol americano e a NFL como assunto. E esse problema é o maior calcanhar de Aquiles da liga e o esporte em geral nos próximos anos.

Neste artigo, nós vamos explicar melhor o que é a CTE, sua relação com os esportes, não só o futebol americano e como o cenário está se desenhando para o futuro da NFL ao ter que lidar com essa doença.

O que é CTE?

A Encefalopatia Traumática Crônica é conhecida também como Doença do Pugilista. Como o nome indica, a doença tem total relação com golpes repetidos na área da cabeça, como os que um boxeador sofre. Ela é uma doença neurodegenerativa progressiva.

O termo com relação aos pugilistas surgiu nos anos 1920, quando o Dr. Harrison Stanford Martland estudou essa condição nos atletas e notou sintomas como tremores, confusão mental, dificuldade para realizar movimentos e problemas na fala.

As pessoas que têm CTE desenvolvem uma proteína chamada Tau, que forma coágulos e eles lentamente se espalham pelo cérebro, matando células. Esse processo pode começar em pessoas jovens, mas normalmente ele demora a se manifestar. Ainda não há tratamento.

Por décadas se acreditou que esse problema estaria restrito a boxeadores, já que estes recebem seguidos golpes na região da cabeça. Porém, nos anos 2000, o médico nigeriano Bennet Omalu estudou o caso de Mike Webster, center do Pittsburgh Steelers e membro do Hall da Fama. Webster morreu em 2005, aos 50 anos, após se comportar de forma errática por anos e sofrer de depressão e demência.

Omalu compartilhou a descoberta que Webster tinha CTE na publicação Neurosurgery com um artigo intitulado “Encefalopatia Traumática Crônica em um jogador da National Football League”.

Um dos problemas em relação à Encefalopatia Traumática Crônica é que um diagnóstico completo e definitivo só pode ser feito após a morte do paciente. Entretanto, a divulgação dos sintomas que caracterizam essa doença já fizeram vários ex-atletas ainda vivos se manifestarem.

Além de Webster, Terry Long, Andre Waters, Justin Strzelczyk e Tom McHale também tiveram seus cérebros analisados após suas mortes e todos eles foram diagnosticados com CTE. Outros pesquisadores e doutores continuaram com descobertas: entre 2008 e 2010, a Dra. Ann McKee observou sinais de CTE em 12 ex-jogadores da NFL.

Outros dois casos chamaram a atenção para esse problema. Jovan Belcher, linebacker do Kansas City Chiefs, se matou na presença do GM Scott Pioli e o treinador Romeo Crennel, depois de ter matado sua namorada. Quase dois anos depois de sua morte, que aconteceu em 2013, foi confirmado que ele tinha CTE.

E Junior Seau, um dos maiores linebackers da NFL nos anos 90 e 2000, se matou com um tiro no peito. Sua autópsia e análise de seu cérebro foi cercada de discussões e idas e vindas na justiça. Em janeiro de 2013 foi revelado que seu cérebro tinha sinais de CTE.

Todos esses casos levantaram uma nuvem de medo na liga, inclusive com o linebacker Chris Borland se aposentando logo após sua primeira e promissora temporada na NFL, por receio em relação a lesões na área da cabeça.

Bobby Wagner Tackle

Melhores técnicas para fazer o tackle também são vitais para impedir pancadas na cabeça Crédito: Instagram/reprodução

Atitude da NFL com relação à CTE

O filme Concussion, lançado em 2015 e com Will Smith no papel principal, contou a história de Omalu depois de sua descoberta da CTE em jogadores de futebol americano. É claro que o filme tem seus toques hollywoodianos e ninguém deve esperar 100% de apego aos fatos.

Entretanto, algo que é documentado é que a NFL por anos desconsiderou a relação entre CTE e a própria prática do esporte, apesar da montanha de evidências que começava a se empilhar.

Essa admissão veio apenas em 2009, quando Greg Aiello, relações públicas da NFL, admitiu que “é bastante óbvio, por causa das pesquisas médicas, que concussões podem gerar problemas a longo prazo”.

A medida foi bastante positiva e gerou consequências no próprio jogo, que proibiu atletas diagnosticados com concussão de voltar ao jogo, além de financiar o laboratório da Dra. Ann McKee na Boston University.

Entre suas descobertas posteriores, a mais marcante teve relação com Owen Thomas, que não chegou a jogar nos profissionais e se matou aos 21 anos. Ele já tinha sinais de CTE em seu cérebro.

Uma questão importante é que ele nunca tinha sido diagnosticado com uma concussão. Ou seja, abriu-se a possibilidade de que seguidas pancadas, que não gerassem uma concussão, também poderiam gerar danos irreversíveis no cérebro.

Você pode ver nesta linha do tempo todas as idas e vindas de pesquisadores, a NFL e as tristes notícias dos jogadores.

Não é só o futebol americano

O problema da CTE não é um problema só do futebol americano ou do boxe, claro, sendo mais comuns nesses esportes por causa do contato e golpes na região da cabeça.

Bellini, capitão do Brasil na primeira conquista de Copa do Mundo, em 1958, teve seu cérebro estudado após sua morte, aos 83 anos. Acreditava-se que Bellini sofria de Alzheimer, mas o exame detectou um estado avançado de CTE, que tem sintomas similares ao Alzheimer. O New York Times deu destaque a essa descoberta importante.

Bellini CTE

Bellini sofreu por anos com sintomas da CTE

Mesmo que não seja um esporte tão violento ou com tanto contato como o futebol americano, os jogadores de futebol também estão sujeitos a choques e fortes impactos na região da cabeça. Na época de Bellini era ainda pior, já que a bola era feita com um material que a deixava muito mais pesada. O lendário jogador era conhecido por ser um bom cabeceador.

Há uma solução?

As pesquisas ainda estão no começo e o fato da CTE só poder ser diagnosticada quando a morte já aconteceu é um problema. Iniciativas como o capacete “anti-concussão” e medidas da NFL para dificultar retornos, onde pancadas podem ser ainda mais fortes, e o protocolo de concussão, ajudam.

Entretanto, é difícil escapar desse problema sem alterar completamente o jogo como conhecemos hoje. E, infelizmente, nós que gostamos da NFL devemos conviver com muitas notícias ruins de jogadores com sintomas e problemas de saúde.

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