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Quinta Descida: os bodes que assombram Chicago

Crédito: Reprodução

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O fatídico dia 14 de outubro de 2003 no Wrigley Field

Em 1870, o baseball começava a engatinhar, pequenos times afiliados a empresas nasciam e morriam ao longo da costa leste americana. Chicago vivia um tempo próspero. Foi nesse cenário que nasceu o Chicago Cubs, em seu ano de fundação chamado de Chicago White Stockings. Viveu o século XIX com esse nome até que em 1902 recebeu o nome que carrega até hoje.

Durante as duas primeira décadas do século XX, sua história foi de glórias, títulos, nomes lendários, cinco títulos de divisão e duas vitórias na World Series, em 1907 e 1908.

Porém a história do Chicago Cubs  nas décadas de 1910 e 1920 são exceções na história da franquia. O começo do século XX para o time foi atípico para o resto da história, marcada por bodes:

 

Bode número 1: Billy

O ano era 1945, e os Cubs estavam jogando a World Series contra o Detroit Tigers. Nas arquibancadas do Wrigley Field estava o dono de um bar de Chicago, Billy Sianis com seu bode de estimação, figura que sempre o acompanhava durante as partidas. Tudo corria bem até que seguranças do estádio pediram para que Billy tirasse o bode do estádio porque seu mal cheiro estava atrapalhando outros fãs. O pedido causou extrema revolta do dono do bode, que saiu do estádio, mas sentenciou: “os Cubs nunca mais irão vencer uma World Series.”

Depois disso, Billy ainda mandou um telegrama para o dono dos Cubs na época, dizendo: “vocês irão perder essa World Series e não vão mais vencer uma World Series novamente, porque vocês insultaram meu bode.”

Depois dessa série de acontecimentos, os Cubs, que estavam vencendo a série melhor de sete por 2 a 0, levaram a virada de 4 a 3, e até então, nunca nem conseguiram retornar a uma final de campeonato de baseball. Foi então que a maldição do “Billy Goat” começou.

“É como o cara que se divorciou seis vezes e ainda acredita no amor,” diz Scott Turow, escritor e membro da terceira geração de fãs dos Cubs de sua família.

Após 45, o torcedor dos Cubs se tornou não só um fã, mas um crente, que ano após ano acredita que será diferente.

“Há uma qualidade espiritual em ser um torcedor dos Cubs, você tem que acreditar, e acredita contra toda a razão,” define Turow. Era preciso muita fé. Depois do início da maldição, o time de Chicago nunca mais conseguiu vencer sua divisão, e seu estádio recebeu o apelido de “confins amigáveis”, um lugar aonde torcedores abraçavam seus “queridos perdedores”.

“Você não vai para Chicago pensando ‘meu Deus, nós vamos jogar contra os Cubs’. Era agradável jogar lá,” disse o ex-jogador Steve Lyons.

A equipe continuou nessa toada até 2003, o ano que prometia por fim a maldição do Billy Goat, mas ao invés disso, outro bode apareceu na vida dos torcedores dos Cubs.

 

Bode Número 2: Expiatório

Em 2003, o time contava com ótimo grupo de recebedores, que massacrou adversários no mata a mata até chegar a final de conferência contra o Florida Marlins. Na série de sete jogos, o time da Florida venceu os dois primeiros, mas depois os Cubs emplacaram três vitórias seguidas. O sexto, e possivelmente último, jogo da série seria no Wrigley Field, o estádio que por 95 anos viu seu time bater na trave mas que agora poderia ser o local de um momento histórico: a volta da equipe a uma World Series, a final da Major League Baseball.

“14 de outubro de 2003 é um dia que ninguém vai esquecer. Naquele dia eu me lembro do mal estar público. Os anos e anos de frustração estavam a flor da pele, prestes a explodir,” relatou Jeff Gowen, produtor do canal Fox Sports, que estava no estádio naquele dia.

“Eu nunca estive tão nervoso nesse estádio. Esse lugar está prestes a explodir.” Essa foi a frase de Josh Doust, torcedor dos Cubs que estava no estádio naquele dia, minutos antes de entrar no Wrigley Field.

O local estava prestes a explodir, para o bem ou para o mal.

“Eu queria tanto vê-los na World Series, e parecia mesmo que ia acontecer,” disse Turow sobre aquele dia 14.

O arremessador para o Cubs naquele dia serie Mark Prior, candidato a melhor jogador do ano na liga, líder da equipe.

“Prior estava arremessando, fazendo um grande jogo. Parecia que esse seria o ano,” disse Lyons, que estava fazendo a transmissão daquele jogo.

“Quando abrimos a vantagem de três a zero no sétimo inning, senti que Prior iria vencer o jogo para nós. Então tentei me manter calmo na primeira base,” Eric Karros, titular da primeira base dos Cubs em 2003.

Mas aquele era os Cubs, e “a maioria das pessoas estava esperando algo de ruim acontecer,” disse Doust sobre o clima no estádio.

Além disso, no intervalo do sétimo para o oitavo inning, um mal presságio no estádio: quando Bernie Mac cantou a clássica música “Take Me Out to The Ball Game”, o refrão “então vamos torcer para os Cubs” foi modificado para “então vamos torcer para os campeões”. Algo de ruim estava para acontecer.

E então o fatídico lance aconteceu.

Após os Cubs anotarem outro ponto, o jogo estava 3 a 0 e sob controle para os donos da casa.

Os Marlins foram para o bastão, e a contagem havia começado: 6 strikes out para os Cubs retornarem para a World Series.

Jogador dos Marlins rebata uma bola, que Moses Alou, jogador dos Cubs pega no ar. 5 strikes out para os Cubs retornarem a World Series.

“Nós não podíamos torcer para uma equipe, mas estávamos contando os outs. Sabíamos que estávamos presenciando algo histórico,” relatou Gowen.

De repente o time da Florida rebateu uma bola que estava indo para fora do campo. Moses Alou correu para tentar pegá-la no ar e eliminar o rebatedor. Mas havia uma mão saindo da arquibancada que impediu que o jogador dos Cubs conseguisse eliminar o rebatedor.

Foi então que tudo desandou.

Alou ao não conseguir agarrar a bola, teve um breve ataque de raiva contra o torcedor que impediu a jogada. Jogou sua luva no chão, apontou para o fã e proferiu palavras impublicáveis. A reação fez com que torcedores de todo o estádio, que não entenderam o que aconteceu no lance, percebessem que algo de errado aconteceu.

“Quando se está no campo, você não entende o que aconteceu, mas quando Alou faz aquele gesto, pensei ‘nossa, ele poderia te pego essa bola’,” Lembrou Turow sobre o sentimento no estádio no momento do lance.

O jornalista e também torcedor dos Cubs, Wayne Drehs, estava no estádio naquele dia, e comentou que após o lance “a dinâmica no estádio mudou”, o sentimento de que algo iria dar errado começou a aflorar.

“Era como se alguém tivesse tirado o ar daquele lugar,” disse Eric Karros, jogador dos Cubs em 2003

A animosidade no Wrigley Field começou a crescer. Mas não sabiam porquê e nem quem havia causado isso. Foi então que a televisão teve papel fundamental na escolha do culpado.

“Quando vi Alou reagir daquela gente, o tempo por alguns segundos. Steve Lyons disse na transmissão ‘isso pode ser crucial’. Depois levantei e gritei para todos os operadores de câmera me mostrarem as imagens que tinham sobre o lance. Tivemos que usar vários ângulos da cena para dar as pessoas de casa, e a nós mesmo, a ideia do que havia acontecido. Mas depois fiquei com medo de ter mostrado o rosto do torcedor por muito tempo na televisão,” disse Jeff Gowen sobre a transmissão do jogo pela Fox Sports.

“Lembre-se que o Wrigley Field é o único estádio na MLB sem um telão, então os únicos que entenderam o que aconteceu foram os que estavam do lado do torcedor. Mas outros fãs estavam fora do estádio estavam escutando no rádio, menos uma pessoa, que estava segurando uma televisão portátil em cima de sua cabeça, e a transmissão não parava de repetir o incidente. E então, esse pequeno grupo de pessoas começou a gritar “Imbecil! Imbecil!”. Inicialmente, só os torcedores fora do estádio estavam xingando, mas então as arquibancadas aderiram ao canto, depois os camarotes, e a raiva foi aumentando. As coisas só pioraram quando o estádio inteiro começou a apontar para ele,” relatou Steve Lyons sobre o momento em que o clima dentro do Wrigley Field mudou completamente.

Enquanto o nervosismo nas arquibancadas crescia, o mesmo acontecia dentro de campo.

Adrian Gonzalez havia sido o melhor shortstop da liga naquela temporada. Porém em uma bola rasteira, o nervosismo afetou o jogador, que afobado, deixou a bola cair de sua luva, e não conseguiu efetuar uma queimada dupla que teria acabado com o inning tenso. Ao invés disso, os Marlins haviam lotado as bases, e no lance seguinte, uma única rebatida de Derrek Lee fez com que o jogo ficasse empatado.

“Lembro que após o lance, um de nossos arremessadores disse ‘vamos tornar esse torcedor famoso’,” lembrou o jogador dos Marlins em 2003, Mike Lowell.

De fato, o torcedor ficou famoso. Após empatar a partida, os Marlins anotaram mais outras cinco corridas, deixando o placar 8 a 3 com muita ajuda dos nervosos jogadores dos Cubs.

Enquanto o jogo ruía no gramado, as coisas começavam a ficar feias no seção aonde estava o infame jogador que atrapalhou o jogo. Cervejas começavam a serem jogadas na direção dele.

“Lembro de escutar muita gente dizendo ‘vou te matar’, ‘olhe a cagada que você fez’, jogaram comidas e bebidas nele, e achamos que aquilo ia sair de controle” lembrou John Doust.”

“Perguntei no rádio se precisavam de ajuda, e disseram para que eu fosse lá ajudar a retirar o torcedor hostil. Fui até a parte do estádio em que ele estava sem saber o que estava acontecendo, e quando cheguei, fui recebida com um copo de cerveja e fiquei coberta de cerveja. Nunca havia visto essa reação contra um único torcedor, e quando estávamos tirando ele do estádio, outros fãs saiam de suas cadeiras, tentando impedir nossa saída,” relatou Erika Amundsen, membro do corpo de segurança do Wrigley Field em 2003.

Ao final daquele dia 14 de outubro, os Cubs não haviam perdido apenas o jogo seis, mas também o jogo sete, moralmente. A maldição do Billy Goat continua a assombrar o centenário clube.

Já o torcedor fugiu de Chicago, seu nome virou sinal de mal agouro para o mundo do baseball, e sua vida nunca mais foi a mesma.

O nome Steve Bartman foi abolido do dicionário.

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